Os meus olhos bateram na figura alta e imponente de assim que ele chegou à festa. Meus lábios se abriram em total surpresa por vê-lo ali pela primeira vez em anos.Os ombros largos e marcados na camiseta social preta que ele usava, e eu me perguntei mentalmente se já o havia visto vestindo algo que fosse diferente das cores mais básicas como cinza, azul e preto. Não me lembrei de nada, e olha que eu me lembraria, já que meus olhos sempre que podem estão nele.
Nós dois somos do mesmo setor na Aurum Contabilidade, a controladoria. Mas ele no canto dele e eu no meu. é um homem sério, fechado, na dele. Um tanto quanto introvertido e eu até achei que ele nem fosse comparecer a nossa tradicional festa de confraternização. Desde quando ele é meu crush? Ah desde que entrou na empresa no começo do ano de 2020, e isso era um segredo que eu só dividia com , minha melhor amiga também do setor de controladoria. Agora se eu disfarçava bem? Eu tentava, apesar de estar sempre de olho nele. Eu o conhecia. Sabia de cada mania, cada jeitinho dele. Posso não o conhecer de perto, mas o conheço de longe. Por muito tempo eu o observei. Durante muito tempo eu prestei atenção nele, mesmo ele achando que ninguém o reparava. Eu reparei. E eu vi quando ele, um dia, agiu como se fosse outra pessoa, só pra chamar atenção de alguém. Mal sabia ele, que já tinha um alguém e ele não precisava ser outro, só ele mesmo…
— O que ele tá fazendo aqui ? — Sussurrei próximo ao ouvido da minha melhor amiga, que estava tão surpresa quanto eu.
— Amiga, eu não sei! Ele sempre diz, ‘ah talvez eu vá’ e nunca vem… e agora, de repente ele aparece aqui. E sozinho? Cadê a namorada?
Ah, esse assunto outra vez! Estavam rolando boatos dele estar comprometido, já que todos os dias uma mulher misteriosa aparecia para buscá-lo ao final do expediente e ao final das horas extras quando fazíamos. Mesmo assim, na minha cabeça só dava ele. A dúvida estava quase me matando, mas como sanar?
— Eu não estava preparada para isso … ele aqui! E sozinho.
Mordi o lábio inferior sem perceber, enquanto meus olhos percorriam seu rosto quase sorridente ao cumprimentar os colegas que já estavam presentes na festa.
— E lindo né amiga? Com todo o respeito é claro, mas o homem é um monumento.
— Será que ele não trouxe a tal mulher porque não quer expor a vida pessoal? — Indaguei mais para mim mesma do que para .
— Muito provável né. Mas veio porque então? Festas de confraternização são para se expor, se humilhar, mostrar o outro lado da moeda, se não for para isso então pra que vir?
Eu gargalhei alto e desviei os olhos de para .
— Você que o diga, né? Ninguém se humilha mais nessas confraternizações do que você.
— Eu vivo a minha vida sem máscaras, é diferente! — deu de ombros. — Você deveria fazer o mesmo, minha cara.
Soltei outra gargalhada e voltei os olhos para . Ele se aproximava de nós duas agora. Meus pés e mãos gelaram, minha boca secou e meu coração tamborilou tão rápido e forte dentro do peito que achei que ele ouviria de longe.
— , . — A voz dele soou em meus ouvidos, o sotaque carregado me fez abrir um sorrisinho de canto, daqueles sem mostrar os dentes. Era a coisa mais fofa do mundo.
segurou minha mão, apertou e então sorriu para . Eu sabia o que aquele gesto queria dizer… ela sabia o quão boba eu poderia ficar com aquela aproximação.
— , querido! Você resolveu nos prestigiar com a sua beleza em pelo menos uma confraternização. Quem diria?
Foi a minha vez de apertar a mão dela e sussurrar entre dentes:
— ! — Meus olhos foram de para ela.
Mas de relance eu notei seu pescoço começando a ficar vermelho e ele coçou a nuca.
— Ah, esse ano eu fui intimado pelo chefe, levei um feedback por nunca participar das sociais, então resolvi vir. Alguma de vocês duas passou por isso no nosso setor, ou foi só eu mesmo?
Eu engoli seco e apertei ainda mais a mão de , que pigarrou. Eu sabia que ele estava tentando descontrair e aquilo me pegou desprevenida. Não imaginava vê-lo tentando se enturmar daquele jeito.
— A normalmente organiza as sociais, então ela tá em todas. O feedback dela na verdade seria para parar com sociais…
A risada dele veio, espontânea, rouca… eu arrepiei e voltei a olhar para , que piscou para mim com um dos olhos.
— A é brincalhona assim mesmo, não liga. Ela fala, mas está em todas as sociais que eu organizo desde o dia um. Precisa ver ela cantando nos karaokês, ela é conhecida na empresa como “voz de anjo”, nunca ouviu falar?
— ! - Ralhei de novo enquanto ria e ficava levemente vermelha.
— E será que hoje terei como comprovar se isso é verdade?
Um sorriso tímido brotou nos lábios avermelhados dele e eu senti que meu coração sairia para fora do peito de tão rápido ele bateu. Umedeci os lábios antes de tentar responder, mas foi mais rápida.
— Vai comprovar sim, já já a dupla de karaokê dela chega e você vai ver ela arrasando.
Senti minhas bochechas esquentarem com força e eu sabia que provavelmente estava quase roxa de vergonha.
— você precisa provar esse chopp de vinho, cara! Você vai adorar.
Celso puxou pelos ombros, mas os olhos dele permaneceram em mim até eles estarem na choppeira. O que fez minha boca ficar ainda mais seca.
— Você viu o que eu vi? — Sussurrei para .
— Vi sim… — respondeu, estreitando os olhos como se analisasse uma equação impossível. — E não adianta fingir que não percebeu. Ele te olhou como quem reconhece uma pessoa pela primeira vez.
Meu estômago deu um nó, daqueles que não soltariam fácil.
— Ele só… estava sendo educado. — Minha voz saiu baixa, mas nem eu mesma acreditei.
— Educado? — arqueou a sobrancelha. — Ele quase tropeçou no Celso só pra não tirar os olhos de você.
Rolei os olhos, mas minhas mãos tremiam. A música ao fundo aumentava à medida que a festa seguia cheia, animada, iluminada demais para o meu coração acelerado. De longe, vi aceitando o copo de chopp de vinho, bebericando, franzindo o nariz e rindo logo depois. Rindo. Aquilo parecia raro demais para não ser significativo.
Eu virei uma taça de espumante só para me ocupar, para não encarar o fato de que ele, por alguma razão, parecia… diferente naquela noite.
As horas começaram a passar e tudo seguia naquele jogo de aproximações e interrupções.
Uma hora ele se aproximava — e aí, , você gosta de sertanejo mesmo ou é só no karaokê? — e antes que eu respondesse, alguém o chamava.
Depois fomos tirar fotos do setor, e sem querer nossos braços se tocaram. Ele se afastou rápido, mas não o bastante para esconder o arrepio que subiu pelos meus dedos.
Mais tarde, quando fui buscar mais gelo na cozinha improvisada pelos organizadores, dei de cara com ele parado na porta, segurando uma sacola de brindes que alguém tinha pedido para ele levar. Um segundo de silêncio. Ele abriu a boca para falar. E João Pedro surgiu, atrapalhado, dizendo que precisavam dele “rapidinho na mesa do chefe”.
A festa inteira estava assim: eu e ele girando no mesmo eixo, quase encostando, quase abrindo algo, quase deixando cair o peso daqueles anos de vontade contida.
Quase.
Quando o relógio piscou 23:50, a festa já estava esvaziando. A maioria tinha ido embora ou estava no estacionamento chamando motorista. A música baixou, as luzes ficaram mais suaves, e eu estava ajudando a recolher algumas caixas quando alguém avisou:
— , pode guardar os brindes que sobraram lá na sala dos materiais? A chave tá na porta.
Suspirei. Ótimo. Um serviço extra justo quando meus pés começavam a reclamar. Peguei a caixa e fui.
A sala ficava no fundo do salão, com a porta entreaberta. Empurrei com o quadril e acendi a luz fraquinha do teto, aquele amarelo frio. Coloquei a caixa em cima da mesa.
— Precisa de ajuda?
A voz dele. Atrás de mim. Baixa. Quente. Um sussurro que percorreu toda minha espinha.
Eu me virei devagar e lá estava , parado à porta, com uma expressão que eu nunca tinha visto. Não era o semblante sério, nem o tímido… era algo indecifrável, quase ansioso.
— Ah… não, eu só— eu só vim guardar isso. — Tentei parecer normal, mas minha voz denunciava tudo.
Ele entrou, fechou a porta com cuidado. A música lá fora parecia distante demais, como se ficássemos isolados do resto do mundo.
— Eu também vim trazer algumas. — Ele ergueu uma sacola nas mãos. — Mas acho que me atrasei.
Eu ri baixinho.
— A gente sempre acaba sobrando pra isso.
Ele sorriu também, um sorriso curto, tímido — mas verdadeiro. Aproximou-se da mesa e colocou a sacola ao lado da minha caixa.
Ficamos em silêncio. Um silêncio tão denso que eu conseguia ouvir minha própria respiração.
— Você se divertiu? — ele perguntou, sem me olhar, mexendo numa etiqueta como se aquilo fosse importante.
— Acho que sim… — respondi. — Você?
Ele hesitou. E finalmente levantou os olhos. Aqueles olhos castanhos profundos e sérios.
— Me diverti mais do que achei que me divertiria.
Meu coração deu um salto torto. Ele continuou:
— E… não era exatamente a festa. Era outra coisa.
A cada palavra, ele se aproximava um passo. Não tão perto, mas mais perto do que ele jamais tinha ficado em cinco anos de empresa.
— Outra coisa? — perguntei, a voz embargada.
— Ou alguém. — O olhar dele não desviou.
A porta permaneceu fechada. O mundo permaneceu parado. O relógio, em algum lugar lá fora, marcou 23:57.
E eu senti com absoluta certeza: A meia-noite traria algo que não poderia ser desfeito.
— … — comecei, mas ele ergueu uma das mãos, tímido, não para me silenciar, mas como se estivesse reunindo coragem.
— Eu preciso te dizer uma coisa antes que a noite acabe.
A respiração ficou presa na minha garganta.
Ele deu o último passo. 23:58.
— Talvez você não acredite… mas você foi o motivo de eu vir hoje.
— Eu? — Meus olhos se arregalaram, enquanto sentia meu coração bater como uma escola de samba dentro do peito.
— Você, .
— E a sua namorada? Todo mundo da empresa sabe que ela vai te buscar todos os dias.
franziu o cenho, as sobrancelhas se encontrando no meio da testa.
— Vocês acham que a minha irmã é a minha namorada?
— Irmã? — repeti, a voz falhando no meio da palavra, como se meu cérebro tivesse sofrido um curto-circuito.
piscou algumas vezes, completamente perdido.
— Sim… minha irmã. A Hyejin. Ela trabalha perto da empresa, sai no mesmo horário que eu e… — ele coçou a nuca, constrangido — ela detesta pegar andar de carro sozinha à noite. Então eu espero por ela. Só isso.
Eu só conseguia encará-lo, absolutamente imóvel, como se ele tivesse acabado de revelar que o céu era verde e eu não tivesse percebido a vida inteira.
— Então… — minha boca secou — você não está namorando?
— Não. — Ele riu, baixinho, quase incrédulo. — Eu nem teria tempo pra isso. E… — seus olhos encontraram os meus de novo, firmes, sinceros — se eu estivesse namorando, não teria vindo aqui por você.
A sala pareceu encolher ao nosso redor. Ou talvez fosse apenas eu tentando respirar num espaço que de repente ficou pequeno demais para guardar tudo que eu sentia.
— Por m-mim? — perguntei, e minhas mãos estavam tão geladas quanto todo o resto do meu corpo.
Ele assentiu. Um movimento lento, quase tímido, mas seguro.
— Eu sei que você gosta de ficar longe do centro da festa… — sua voz ficou mais baixa, mais íntima — mas eu percebo quando você está por perto. Sempre percebi. Há anos.
Fez uma pausa curta, como quem busca coragem no próprio fôlego.
— Hoje… eu só queria ter a chance de conversar com você sem alguém interromper. Sem… — ele suspirou — sem a distância que eu mesmo criei.
Meu coração virou um redemoinho. Minhas pernas tremiam. Tudo parecia prestes a ruir ou a florescer — eu não sabia qual dos dois.
— … eu… — comecei, mas ele balançou a cabeça de leve, como se soubesse que minhas palavras estavam prestes a me trair.
— Só… me deixa terminar, por favor. — Ele engoliu em seco. — Eu sei que as pessoas acham que eu sou fechado, esquisito. Talvez eu seja mesmo. Mas eu… — sua voz tremeu pela primeira vez — eu gosto de você. Há mais tempo do que eu deveria admitir.
O ar saiu dos meus pulmões tão rápido que eu cambaleei um passo para trás.
Ele deu um passo à frente.
Ficamos a menos de um palmo de distância.
O relógio lá fora marcou 23:59.
E foi naquele instante, naquele meio-segundo antes da meia-noite, que tudo dentro de mim pareceu se alinhar, como se eu finalmente enxergasse o que sempre esteve ali, diante dos meus olhos — só que mais perto, muito mais perto.
Os lábios dele se entreabriram, como se ele fosse dizer algo ainda mais importante, mas dessa vez fui eu quem o interrompi num sussurro:
— … o que você quer de mim?
Ele olhou para minha boca, depois para meus olhos.
E disse, com a voz mais honesta que já ouvi dele:
— Tudo o que você quiser me dar.
00:00.
A meia-noite chegou. E nada seria igual depois disso.
O som distante do restante das vozes ecoou pelo salão — risadas, taças tilintando, alguém batendo palmas — mas ali dentro, na pequena sala abafada dos brindes, o tempo simplesmente… parou.
não se moveu. Eu também não.
Só havia a respiração dele, quente, ritmada, tão perto que quase tocava minha pele. O ar entre nós parecia carregado demais, como se uma faísca pudesse incendiar tudo a qualquer segundo.
Ele ergueu a mão devagar — devagar demais — como se tivesse medo de que um gesto brusco me fizesse recuar. Seus dedos pairaram no ar, a centímetros do meu rosto, tremendo de hesitação. Era um gesto pequeno… mas revelava tudo.
Ele queria me tocar.
Mas não ousava.
Não ainda.
— … — ele murmurou, como se estivesse dizendo meu nome pela primeira vez. — Eu não quero fazer nada que você não queira.
Minha respiração falhou. Uma onda quente subiu direto do peito para o pescoço.
— Se eu encostar em você… eu não vou conseguir voltar atrás.
Meu coração bateu tão forte que doeu.
Ele piscou devagar, como se estivesse lutando contra um impulso enorme, quase incontrolável. Sua mão ainda suspensa, entre nós, quase tocando minha mandíbula.
E pela primeira vez desde que o conhecia, parecia… vulnerável.
— Você não imagina o quanto eu esperei por isso. — A voz dele quebrou no fim da frase, rouca, sincera demais.
Meu corpo inteiro estremeceu.
Ele não estava brincando. Não era charme. Não era um flerte casual.
Era verdade. Crua. Apertada entre os dentes.
Lá fora, alguém gritou "Feliz ano novo!", mas dentro da sala só havia nosso silêncio — um silêncio carregado de palavras que não tivemos coragem de dizer antes.
deu um passo ainda mais lento, e agora o calor do corpo dele tocava o meu sem encostar. Quase pele contra pele. Quase.
— Eu preciso saber… — ele respirou fundo, a voz baixa, tensa — você me quer aqui?
Olhei para ele. De verdade. Sem disfarces. Sem medo.
E foi impossível mentir.
— Quero. — A palavra saiu como um sopro, mas foi suficiente para quebrá-lo por dentro.
Ele fechou os olhos por um instante, como se aquela simples resposta tivesse derrubado todas as defesas que guardou por anos. Quando abriu novamente, seu olhar estava diferente — decidido, intenso, queimando.
Ele ainda não me beijou. Nem me tocou.
Mas o momento antes disso — o segundo exato em que ele percebeu que poderia — foi muito mais devastador do que qualquer beijo apressado.
abaixou a mão devagar, mas em vez de recuar, deixou seus dedos roçarem meu pulso, apenas um toque leve… leve demais… mas que tirou meu ar do corpo inteiro.
— Me deixa fazer isso do meu jeito… — ele murmurou, aproximando o rosto do meu, a boca pairando perto da minha bochecha, sem encostar.
Quase. A noite inteira tinha sido sobre quase.
Mas naquele instante, eu sabia: Nós estávamos a um movimento de transformar aquele quase em algo que não teríamos como desfazer.
O toque nos meus pulsos ainda ardia quando ergueu o rosto, tão perto que eu senti o calor da respiração dele tocar minha pele. Minha garganta secou. Meu corpo inteiro estava em alerta, como se cada célula tivesse despertado ao mesmo tempo.
Ele me olhou por um longo momento. Um olhar profundo, intenso, que parecia atravessar todas as camadas que eu sempre escondi. Como se estivesse tentando memorizar quem eu era… ou pedindo permissão sem palavras.
Minha voz não saía. Meu corpo sim.
Aproximou-se instintivamente, imperceptivelmente. Talvez um centímetro — mas suficiente para que a ponta do nariz dele roçasse a lateral da minha bochecha.
E meu coração… meu coração simplesmente desabou dentro do peito.
Eu inspirei, mas o ar não veio. Era como se ele tivesse me roubado o fôlego sem nem me tocar de verdade.
suspirou também. Um som abafado, baixo, quase desesperado. Como se aquele momento estivesse prendendo ele por dentro.
— … — meu nome saiu como se ele o tivesse segurado por anos.
Foi esse sussurro que quebrou minha resistência.
Eu ergui a mão, muito devagar, e toquei o peito dele — bem no meio, onde o coração batia. E ele bateu forte, forte demais, como se respondesse ao meu.
O efeito em foi imediato.
Seus olhos se fecharam, os lábios se entreabriram numa rendição silenciosa… e o mundo parou. Mesmo parado, girou. E eu dentro dele.
Ele inclinou o rosto primeiro. Só um pouco. Eu senti o roçar do lábio inferior dele contra o canto da minha boca — tão leve que quase imaginei. Quase.
Aquele quase incendiou tudo dentro de mim.
Minha mão subiu sem que eu percebesse, tocando a mandíbula dele, firme, sentindo a textura da barba por fazer. Ele estremeceu sob meu toque, como se não acreditasse que eu estava mesmo ali, tocando-o.
E então ele fez.
finalmente me beijou.
Devagar. Preciso. Um beijo que não invadia — se entregava. A boca dele era quente, suave, mas havia algo profundo ali… como se ele tivesse esperado tanto que agora não soubesse por onde começar.
E eu… eu desmanchei.
Meus joelhos enfraqueceram. O estômago virou um nó tão apertado e prazeroso que senti meu corpo inteiro reagir ao primeiro toque real dele. O tempo pareceu expandir, como se aquele beijo não pertencesse a apenas uma noite — mas a todas as que vieram antes, silenciosas, cheias de desejo guardado.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos, com uma delicadeza que contrastava completamente com a intensidade do beijo. Como se eu fosse algo precioso demais, frágil demais, e ele tivesse medo de quebrar.
Mas a verdade era: eu estava era derretendo.
Quando ele aprofundou o beijo, senti o peito dele encostar no meu. Era firme, quente, sólido — e aquilo me arrancou um suspiro, um som involuntário que eu nem sabia que podia emitir.
gemeu baixinho ao ouvir. E esse único som me fez perder qualquer resquício de controle.
Minhas mãos subiram pelos ombros dele, pelos braços fortes, até que eu as apoiei em sua nuca. Ele reagiu inclinando mais o corpo contra o meu, como se quisesse se encaixar ainda mais.
O beijo ficou mais profundo, mais urgente, mas manteve aquela ternura que eu nunca imaginaria vir dele. Uma mistura perfeita entre fome e cuidado.
Quando ele finalmente se afastou, apenas o suficiente para encostar a testa na minha, sua respiração estava tão descompassada quanto a minha.
Eu ainda sentia os lábios dele nos meus. Como se tivessem deixado uma marca.
Ele abriu os olhos devagar, ainda com o polegar acariciando meu rosto.
— Eu… queria fazer isso desde o primeiro mês que te conheci. — disse ele, a voz falhando.
Eu sorri. Um sorriso tremido, incrédulo, apaixonado.
— Então por que não fez antes?
soltou uma risada curta, nasal, o rosto ainda tão perto que eu sentia a vibração dela.
— Porque eu não sabia que você me queria de volta.
E eu o beijei de novo. Dessa vez sem hesitação. Sem medo. Dessa vez, inteira.
ainda me abraçava quando a realidade voltou aos poucos — o som abafado da música, vozes distantes, passos no corredor. Eu não queria sair dali. Não queria quebrar o feitiço que tinha sido construído por anos, finalmente concretizado em poucos minutos.
Mas ele respirou fundo, encostando a testa na minha pela última vez, antes de me soltar aos poucos, como se tivesse que convencer o próprio corpo a fazer isso.
— A gente… deveria voltar lá fora — ele disse, a voz baixa, ainda rouca do beijo.
Eu assenti, apesar do coração pedir o contrário.
Ele abriu a porta primeiro, olhando o corredor como se conferisse se o mundo estava pronto para nos ver de novo. Talvez fosse isso mesmo: sair daquela sala era voltar ao mundo real. Só que agora… era um mundo onde eu e ele não éramos mais desconhecidos orbitando um ao outro.
E era novo. Assustador. E maravilhoso.
Caminhamos lado a lado, sem encostar, mas tão próximos que nossos dedos roçaram uma ou duas vezes. Cada toque acidental fazia meu estômago pular.
Viramos o corredor e—
— Aí MEU DEUS, ATÉ QUE ENFIM! — praticamente explodiu na nossa frente, parada com uma taça na mão e uma expressão de quem estava esperando a revelação da década.
Eu congelei. também.
— … — tentei começar, mas ela levantou a mão, me silenciando como se fosse a diretora de um filme.
— Não. Não. Vocês não vão estragar isso com explicações sem graça. — Ela apontou para nós dois, teatralmente. — Eu vi vocês sumindo juntos. Eu vi a porta fechar. Eu vi a cara dele antes. E olha essa cara AGORA.
engoliu seco, sem saber onde enfiar as mãos. Eu segurava o riso e o nervosismo ao mesmo tempo.
— Eu só… — ele começou, mas se aproximou dele com um olhar avaliativo.
— , querido. — Ela colocou a mão no peito dele como quem dá um abençoamento. — Eu gosto de você. Muito. Você é fofo, educado, organizado, toma conta da irmã, paga as contas no dia certo. Mas se você fizer a chorar uma única lágrima que não seja de felicidade…
Ela inclinou a cabeça, séria.
— Eu arranco seu fígado pela boca.
Ele arregalou os olhos. Eu tapei a boca com a mão para não gargalhar.
— Ela… tá brincando — murmurei para ele, corando.
— Eu não estou! — rebateu. — Mas fico feliz por vocês. Agora vão embora. A festa acabou. Literalmente. Eu quero dormir.
Ela nos empurrou em direção à saída com a indignação impaciente de quem já está cansada demais para drama.
No estacionamento, o ar da madrugada era fresco e silencioso. A luz dos postes deixava tudo meio dourado — ou talvez fosse só o efeito do que tinha acontecido naquela sala.
parou ao meu lado, as mãos nos bolsos, e me olhou com uma timidez nova. Quase… carinhosa.
— Posso te acompanhar até o carro? — ele perguntou.
— Pode. — respondi, sorrindo.
Caminhamos devagar, sem pressa de acabar o momento. E quando chegamos ao meu carro, ele parou perto da porta, olhando para mim como se estivesse tentando decorar cada detalhe.
— … — ele começou, mas eu o interrompi, segurando a mão dele.
— A gente conversa com calma depois, tá? — apertei os dedos dele. — Hoje foi… muita coisa. No melhor sentido.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, inclinado, que eu nunca tinha visto tão claramente nele.
— Foi. E eu queria… — Ele procurou as palavras — eu queria repetir. Se você quiser também.
Meu peito aqueceu de um jeito doce.
— Eu quero. — confirmei.
respirou fundo, deu um passo à frente e colocou a mão na minha cintura — um gesto tímido e ousado ao mesmo tempo — antes de me dar um beijo curto. Um selinho lento, suave, cheio da promessa de tudo o que viria depois.
— Boa noite, . — murmurou, tão perto que senti o calor da voz dele na pele.
— Boa noite, .
Ele esperou eu entrar no carro. Esperou eu ligar o motor. Esperou eu dar a partida.
E enquanto eu ia embora, olhei pelo retrovisor:
estava parado ali, com as mãos nos bolsos, sorrindo sozinho.
E eu? Eu sorri também.
Porque aquela noite — aquela meia-noite — não tinha sido o fim.
Tinha sido o começo.
FIM!!!
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