A neve, pelo menos, é familiar.
Ela cai em silêncio absoluto do lado de fora da janela do meu quarto, cobrindo a paisagem cinzenta de North Hollow com um manto branco que promete enterrar tudo. É a única coisa que eu respeito neste continente. A neve não se importa, ela apenas cai, gela e mata o que não está preparado.
Eu estou preparada, sempre estou.
— Clara? — A voz da minha mãe, Katerina, ecoa do andar de baixo. Não é um grito; vampiros da nossa linhagem não precisam gritar para serem ouvidos. A voz dela sobe pelas vigas de madeira nobre, fria e polida como mármore. — O carro já está ligado, seu pai não gosta de esperar.
Olho para o espelho. A garota que me encara de volta tem a mesma aparência desde 1709. O cabelo preto, que deixou cair em camadas desordenadas sobre o rosto, serve como uma cortina entre mim e o mundo. A pele pálida, pontilhada levemente por sardas que um dia eu odiei e agora apenas ignoro, está livre de rugas, livre de tempo e livre de espinhas, apenas vantagens.
— Estou descendo — murmuro.
Ajeitou a camiseta marrom larga da Dickies que estou usando. Roupas humanas modernas são ridículas, tecidos sintéticos e logotipos sem alma, mas a regra número um da família Alexandrova é: Misture-se. Se os adolescentes usam marcas estúpidas, nós usamos marcas estúpidas. Se eles ouvem música barulhenta, nós compramos fones de ouvido.
Pego minha mochila. Ela está quase vazia, exceto por um caderno em branco e uma caneta. Não preciso aprender História, eu vivi a História. Não preciso de Biologia, sei exatamente onde cada artéria humana pulsa e quantos litros de sangue são necessários para me saciar.
Desço as escadas, a casa que meu pai, Viktor, comprou é uma mansão vitoriana afastada da cidade, perto da orla da floresta. Isolada e perfeita, o cheiro de móveis antigos e poeira foi substituído pelo aroma metálico e estéril da nossa família.
Viktor está no banco do motorista, vestindo um sobretudo caro. Ele parece ter menos de quarenta anos, embora seja cinco séculos mais velho que eu.
— Lembre-se, Clara — diz ele, sem olhar para mim, ajustando as luvas de couro. — Baixo perfil. Nada de excelência acadêmica, nada de brigas, nada de... lanches não autorizados.
— Eu sei, pai — respondo, a voz monótona. — É a décima sétima vez que faço o Ensino Médio. Acho que peguei o jeito.
— A Rússia ficou pequena para nós — Katerina aparece, tocando meu ombro com suas unhas longas e perfeitas. — Aqui é seguro. As pessoas são simples... não as assuste.
Não respondo, saio para o frio cortante. Para um humano, estaria congelando. Para mim, é apenas uma brisa.
— A escola de North Hollow cheira a hormônios, desodorante barato e ansiedade.
Assim que empurrou as portas duplas de metal, o barulho me atinge. Centenas de corações batendo. Tum-tum. Tum-tum. O som é uma cacofonia rítmica que tive que aprender a bloquear séculos atrás. Se eu focar, posso ouvir o sangue correndo nas veias do zelador no final do corredor. Posso ouvir o açúcar queimando no sistema de um garoto que está comendo uma barra de chocolate.
Caminho pelo corredor principal, mantendo os olhos baixos. A estratégia é sempre a mesma: ser a garota esquisita, a gótica silenciosa, a "estrangeira" que não fala muito. As pessoas tendem a evitar o que não entendem, e eu conto com isso.
A primeira aula é Literatura. O professor, Sr. Evans, um homem com cheiro de café velho e resignação, aponta para uma carteira vazia no fundo.
— Turma, temos uma aluna nova vinda da Europa. Clara... Alexandrova?
— Sim — digo, caminhando até o fundo. Sinto os olhares. Curiosidade. Julgamento. "Quem é ela?", "Viu os olhos dela?", "Ela é meio assustadora".
Sento-me e deixo meu corpo relaxar na cadeira dura, preparando-me para quarenta e cinco minutos de tédio absoluto.
É então que o cheiro me atinge.
Não é o cheiro comum de sangue adolescente, que geralmente cheira a fast food e adrenalina. É algo... floral. Doce. Como flores de cerejeira esmagadas e mel quente. Um
aroma tão puro e potente que minha garganta se fecha instintivamente, e minhas presas, escondidas, vibram na gengiva.
Minha cabeça gira abruptamente para a esquerda, procurando a fonte. E eu a vejo.
Ela está sentada duas fileiras à frente, perto da janela. O cabelo dela é castanho, longo e levemente ondulado, ou talvez está apenas bagunçado pelo vento, capturando a pálida luz do sol de inverno. Ela está de perfil, desenhando algo na margem do caderno. Seus traços são delicados, descendência asiática, talvez japonesa, com uma suavidade que parece deslocada naquela cidade de lenhadores e neve bruta.
Ela vira a cabeça, talvez sentindo meu olhar predatório queimando sua nuca.
Nossos olhos se encontram. Os dela são de um castanho avelã, quentes e confusos. Os meus azuis, mas sei que devem estar escuros, dilatados pela fome repentina.
O nome dela é Miku, está escrito na capa do fichário dela em letras coloridas. Miku.
O sangue dela canta para mim. Não é apenas fome, é uma atração magnética, visceral. Posso ouvir o coração dela: Tum... tum... tum… Está um pouco mais rápido que o dos outros. Está nervosa? Por minha causa?
— Ei — sussurra um garoto na fileira ao lado dela, um brutamontes com uma jaqueta do time da escola. Ele chuta a cadeira dela. — Ei, Japa. Me empresta uma caneta.
Miku se encolhe. É um movimento sutil, mas meus olhos captam. Ela não olha para ele, apenas pega uma caneta do estojo e a estende para trás sem dizer nada.
— Nem vai olhar pra mim? — o garoto ri baixo, pegando a caneta com força, roçando os dedos na mão dela de propósito. — Ficou muda, é?
Sinto uma onda de irritação subir pelo meu peito. Não por altruísmo. Mas porque aquele brutamontes está perturbando a minha presa. Aquele sangue, aquele cheiro... é a coisa mais interessante que me aconteceu nos últimos cinquenta anos, e ele está estragando a pureza do momento com sua estupidez xenofóbica.
Miku olha para frente, o rosto corando levemente. Ela parece acostumada a ser tratada assim...
Aperto a borda da minha mesa, a madeira estala sob meus dedos. Felizmente, o sinal toca naquele exato momento, mascarando o som da madeira se partindo.
Todos se levantam em uma onda de caos. Fico sentada por um segundo, tentando controlar a respiração. Controle, Clara. Você tem 332 anos. Você não é um animal.
— Espero a sala esvaziar. Miku é uma das últimas a sair, juntando seus materiais com cuidado. Quando ela passa pela minha mesa, ela para.
Eu fico totalmente parada, o cheiro dela é avassalador a essa distância. Posso ver a veia azulada pulsando em seu pescoço, logo abaixo da mandíbula. Tão frágil, tão fácil, um movimento rápido e eu poderia...
— Oi — ela diz. A voz dela é suave, musical, com um leve tremor.
Levanto o olhar devagar, encarando-a com minha melhor expressão de tédio mortal, embora meu interior esteja em chamas.
— Você é a aluna nova, né? — ela continua, sorrindo timidamente, um sorriso que não chega aos olhos. — Eu sou a Miku. Bem-vinda a North Hollow. É... bem frio, mas como você morou na Europa deve estar acostumada, certo?
Ela está tentando ser gentil. Ela, a garota que acabou de ser humilhada, está tentando fazer a garota nova e assustadora se sentir bem. Que criatura.. que criatura deliciosa.
Preciso que ela se afaste. Agora. Antes que eu faça algo que obrigue minha família a se mudar novamente e deixe um corpo suspeito demais para trás.
— Eu não estou aqui para fazer amigos — digo, minha voz sai mais rouca do que eu pretendia, baixa e perigosa.
O sorriso de Miku vacila. Ela pisca, confusa com a frieza.
— Ah. Desculpe. Eu só...
— Não — cortou, levantando-me abruptamente. Fico muito perto dela, invadindo seu espaço pessoal de propósito para intimidá-la. Inspiro o cheiro dela uma última vez, uma tortura masoquista. — Fique longe de mim.
Passo por ela, esbarrando levemente em seu ombro, e saio para o corredor lotado, deixando-a parada lá, sozinha e confusa.
Meu coração morto parece pesar uma tonelada no peito. Eu quero voltar, eu quero pedir... Desculpas? Eu quero sentir o gosto dela.
— Vai ser um ano longo — sussurro para mim mesma.
O carro de Viktor desliza pelo asfalto congelado como um tubarão em águas profundas. O interior cheira a couro caro e ao silêncio opressivo que minha família aperfeiçoou ao longo dos séculos. Ele não pergunta como foi meu dia, ele não precisa, para ele, a escola é apenas um disfarce, uma burocracia necessária para manter nossa caça invisível.
Chegamos em casa. A mansão vitoriana se ergue contra o céu escurecido, uma silhueta de dentes irregulares e janelas escuras.
O jantar é servido às dezenove horas em ponto, como sempre, independente de qualquer fuso horário.
Nós nos sentamos à longa mesa de mogno. A sala de jantar é iluminada apenas por candelabros, minha mãe insiste que a luz elétrica "mata o ambiente". Talvez ela esteja certa, a luz das velas reflete no líquido escuro e viscoso dentro das taças de cristal diante de nós.
Não comemos comida. A comida humana tem gosto de cinzas e papelão molhado para nós, além de nossos organismos rejeitarem tudo em poucas horas depois.
Katerina ergue sua taça, o líquido rubi balança suavemente, denso. Sangue. Tipo B negativo, provavelmente de algum banco de sangue que Viktor subornou, ou de algum "doador" em uma cidade vizinha. Meus pais não se importam com a origem, contanto que seja fresco.
— Um brinde à nova cidade — diz Katerina, sua voz suave como seda rasgando, levando a taça aos lábios pintados de vermelho.
Eu encaro o meu jantar, a fome é uma criatura constante, arranhando meu estômago, mas hoje... hoje o cheiro deste sangue parece errado. Ele não tem aquele tom floral. Não tem o cheiro de flores de cerejeira e mel.
Não tem o cheiro dela.
Bebo um gole, apenas para silenciar a queimação na minha garganta. O gosto é metálico, salgado, satisfatório de uma forma puramente biológica, mas emocionalmente vazio.
Você está quieta, Clara — Viktor observa — O disfarce está intacto?
— Sim — respondi, limpando um pingo vermelho do canto da boca com o polegar. — Ninguém nota a garota estranha no fundo da sala.
— Ótimo — ele sorri, e seus dentes parecem afiados demais à luz das velas. — Mantenha assim.
Subo para o meu quarto assim que posso. Deito na cama e encaro o teto a noite toda. Não durmo, vampiros não dormem da mesma forma que humanos, nós apenas desligamos, esperamos o sol nascer e odiamos cada segundo da espera.
A manhã é cinzenta, o sol tenta furar as nuvens pesadas de neve, mas falha miseravelmente.
Na escola, o ar é viciado. Ando pelos corredores com meus fones de ouvido, sem música tocando, apenas para abafar o som irritante de centenas de conversas triviais.
Verifico meu primeiro horário. Matemática, História, Química. Nada de Literatura hoje, se eu tiver sorte, nada de Miku.
Sinto um misto de alívio e frustração que me deixa enjoada. É melhor assim. Preciso ficar longe. Se eu ficar perto, vou acabar fazendo algo estúpido, como drená-la no banheiro feminino ou, pior, tentar conversar com ela de novo.
Passo as aulas em um estado de catatonia vigilante. Respondo "presente" quando chamam meu nome. Preencho as folhas de exercícios com respostas que aprendi duzentos anos atrás. O tempo se arrasta, cada tique-taque do relógio na parede é uma martelada na minha têmpora.
Então, chega o intervalo.
O refeitório é um inferno real, o cheiro de gordura, fritura, suor adolescente e hormônios em ebulição é uma agressão aos meus sentidos. Escolho uma mesa no canto mais afastado, perto da saída de emergência, onde a sombra é mais densa e tem uma janela quebrada perto que faz o ar circular.
Tiro uma maçã da mochila e a coloco na mesa. Não vou comê-la, claro, é apenas um adereço, parte do teatro que meus pais insistem em me fazer atuar.
Meus olhos varrem o salão involuntariamente. Eu digo a mim mesma que estou apenas memorizando melhor o local, mas é mentira. Estou procurando por ela.
E lá está ela.
Miku entrou na fila do almoço, vestindo um suéter enorme, tricotado, de uma cor creme que a fazia parecer ainda mais macia. Segurando a bandeja com as duas mãos, os ombros encolhidos, como se tentasse ocupar o menor espaço possível no mundo.
Ela pegou uma salada, um suco e se virou, procurando um lugar.
Vejo o momento exato em que a esperança morre nos olhos dela. As mesas estão cheias, ou ocupadas por grupos fechados que formam muralhas de costas viradas. Ninguém a chama, ninguém abre espaço.
Ela caminha até uma mesa vazia no centro do refeitório. É um lugar vulnerável e exposto.
Assim que ela se senta, sinto o cheiro. Aquele perfume doce e o aroma irresistível do sangue dela cortam o fedor de gordura do refeitório como uma lâmina. Minhas mãos se fecham em punhos embaixo da mesa, preciso focar em qualquer outra coisa... mas é impossível.
Ela começa a abrir a caixinha de suco.
— Olha só, não sabia que serviam comida para animais aqui.
A voz vem de trás dela. É o mesmo garoto de ontem, o brutamontes da jaqueta do time. Ele está com dois amigos, ambos com sorrisos cruéis e estúpidos.
Miku congela, ela não se vira. Ela apenas encara o suco, os dedos apertando a embalagem com força.
— Estou falando com você, Japa — o garoto diz, mais alto agora. Algumas pessoas nas mesas próximas param de comer e olham. Ninguém faz nada, além de rir, é claro que não. Ovelhas nunca desafiam os lobos.
Ele bate a mão na bandeja dela. O suco tomba, derramando o líquido laranja sobre o suéter creme dela.
O barulho da bandeja batendo na mesa ecoa. O refeitório fica em silêncio por um segundo, depois volta ao burburinho, mas os risinhos ao redor da mesa dela são audíveis.
Miku se levanta rápido, tentando limpar o suéter com guardanapos de papel que se desfazem na sujeira. Ela não chora, mas sinto o cheiro de sal. Lágrimas contidas. Humilhação. O coração dela dispara.
— Opa, foi mal — o garoto ri, sem nenhum pingo de remorso. — Acho que escorregou.
Eu observo tudo do meu canto escuro.
Sinto um instinto primitivo que exige que eu atravesse o refeitório, arranque a garganta daquele garoto e pinte as paredes com o sangue medíocre dele. Não, ordeno a mim mesma. Fique sentada, Clara. Não se envolva.
Mas meus pés não obedecem.
Levanto-me, o movimento é fluido, silencioso. Não caminho como uma estudante, caminho como o que sou. Atravesso o refeitório, não preciso empurrar ninguém, as pessoas instintivamente se afastam do frio que emana de mim.
Chego à mesa deles.
O cheiro do suco derramado se mistura com o perfume de Miku e o fedor de arrogância do garoto.
O garoto se vira para mim. Ele é alto, mas altura não significa nada. Ele franze a testa, confuso com a minha intromissão.
— O que foi, Gótica? Vai jogar uma bruxaria em mim?
Olho para Miku, ela parou de esfregar o suéter. Seus olhos castanhos encontram os meus, arregalados, surpresos. Ela parece aterrorizada, só ainda não sei se pelo garoto ou por mim.
Volto meu olhar para ele. Fixo meus olhos nos dele, um truque simples, um pouco de hipnose vampírica, nada que deixe rastros, apenas o suficiente para induzir o medo primata, o medo de estar diante de algo que está no topo da cadeia alimentar.
— Peça desculpas — ordeno. Não é um pedido.
Ele pisca, o sorriso sumindo. Ele vacila, dando um passo para trás como se tivesse levado um soco invisível. O rosto dele empalidece. Ele não entende por que está com medo, mas o corpo dele entende. O instinto de sobrevivência dele está gritando: Corra.
— Eu... — ele gagueja, a voz falhando. — Foi... foi sem querer.
Ele não consegue sustentar meu olhar. Ele se vira para Miku, murmurando algo inaudível para os outros, e então sai apressado, puxando os amigos com ele e fogem. Patéticos.
O silêncio na nossa ilha de isolamento é pesado.
Miku ainda está parada ali, com o suéter manchado, olhando para mim como se eu fosse uma alucinação. Estou perto demais dela de novo. A fome ruge, exigindo que eu lamba o suco — e o que estiver por baixo — da pele dela.
Preciso sair daqui. Agora!
Viro as costas para ela sem dizer uma palavra, pronta para fugir para a segurança de qualquer sombra.
— Espera — a voz dela me alcança, trêmula, mas decidida. Sinto uma mão quente tocar levemente meu braço frio.
Eu paro, o toque dela queima através do tecido da minha camisa.
O calor da mão dela atravessa o tecido da minha manga como um ferro em brasa. É um choque térmico, um curto-circuito no meu sistema nervoso morto.
Eu não recuo imediatamente. Por um milésimo de segundo, eu me permito sentir. O pulso dela está ali, na ponta dos dedos dela, reverberando contra a minha pele. Tum-tum-tum. Sangue...
A sede está arranhando minha garganta, implorando para que eu agarre aquele pulso frágil e puxe, para que eu crave os dentes e beba até a última gota. O cheiro do suco de laranja no suéter dela se mistura com o aroma doce e ferroso que corre sob a pele dela, criando um coquetel inebriante que faz minha visão turva. Perigo. Perigo. Perigo.
Viro-me devagar. O movimento é calculado para soltar a mão dela do meu braço sem violência, mas com firmeza absoluta.
Meus olhos encontram os dela.
Sei o que ela vê, um azul oceano, pálido e tempestuoso, profundo e frio como as águas glaciais onde muitos marinheiros morreram. O contraste com meu cabelo preto e minha pele de mármore deve ser assustador. Não há calor nesse azul, apenas fome e uma imensidão vazia.
Miku abre a boca para dizer algo — talvez "obrigada", talvez "quem é você?".
Eu não deixo ela falar. Eu dou um passo em direção a ela, invadindo seu espaço pessoal de uma maneira que faria qualquer humano sensato correr. Encurtei a distância até que só restem centímetros entre nós. Posso ver as minúsculas manchas douradas na íris castanha dela. Posso ver a pupila dela dilatar de medo.
Inclino a cabeça, meus lábios roçando o ar perto da orelha dela, sentindo o calor irradiar do pescoço dela. Baixo o tom de voz para um sussurro que só ela pode ouvir, abafado pelo barulho do refeitório que recomeçou timidamente ao nosso redor.
— Não faça isso — digo, a voz rouca, áspera pela sede contida que queima como ácido na minha língua.
Ela estremece, mas não se afasta.
— Se você me tocar de novo... — faço uma pausa, deixando o peso das palavras afundar, deixando meus olhos cor de oceano afundarem a alma dela. — Eu posso te machucar muito mais do que eles jamais conseguiriam.
Me afasto o suficiente para ver o rosto dela uma última vez. A confusão e o medo lutam em sua expressão. Ela recolhe a mão contra o peito, segurando-a como se tivesse se queimado no gelo da minha pele.
O aviso foi dado, a verdade foi dita.
Antes que meu autocontrole se parta e eu faça algo irreversível ali mesmo, no meio do refeitório, eu me viro. Saio andando rápido, meus coturnos batendo pesado contra o piso de linóleo, fugindo da única coisa que me fez sentir viva em três séculos.
O cheiro de formol é a primeira coisa que me atinge quando entro na sala de Biologia. É um cheiro químico, acre, que deve queimar as narinas humanas sensíveis , mas para mim, é apenas um lembrete de morgues e laboratórios antigos. Pelo menos ele mascara o cheiro de suor e chiclete de menta dos trinta adolescentes se espremendo nas bancadas.
Caminho até o fundo, como sempre. A Sra. Gable, uma mulher baixa com óculos que escorregam pelo nariz e um suéter com estampa de gatos, bate uma régua no quadro negro.
— Silêncio! — ela grita, a voz estridente. — Hoje vamos começar a dissecação. As duplas já estão formadas e escritas no quadro. Não haverá trocas!
Meus olhos percorrem a lista escrita a giz com uma velocidade que nenhum humano acompanharia. Nomes, nomes, nomes irrelevantes... e então eu vejo. Bancada 4: Miku Nakahara e Clara Alexandrova.
O ar fica preso nos meus pulmões mortos. Não. Isso não pode acontecer. Ficar quarenta e cinco minutos ao lado dela, com cheiro de sangue, mesmo que seja de um animal preservado, enquanto a pulsação dela bate a centímetros do meu ouvido? É uma sentença de desastre. Eu vou acabar matando-a ou me expondo.
Levanto-me imediatamente, a cadeira arrastando com um ruído seco no chão. Caminho até a mesa da professora enquanto os outros alunos se organizam.
Sinto o olhar de Miku nas minhas costas. Ela já está na Bancada 4. Ela sabe o que vou falar com a professora.
— Sra. Gable — digo, parando ao lado da mesa dela. Falo baixo, para que apenas ela ouça. — Eu preciso trocar de dupla.
A professora suspira, sem nem levantar os olhos das suas anotações.br>br>
— Acabei de dizer, Srta. Alexandrova, sem trocas. O objetivo é aprender a trabalhar com...br>
— Eu não posso trabalhar com ela — interrompo, a urgência vazando na minha voz monótona. Minhas mãos estão fechadas dentro dos bolsos do moletom para esconder o tremor. — Coloque-me com qualquer outra pessoa, coloque-me sozinha, mas não com ela.
A Sra. Gable finalmente levanta a cabeça. Ela me encara por cima dos óculos, e sua expressão endurece. O rosto dela se contraiu em uma máscara de desaprovação moralista.
— Eu fui avisada sobre a mente fechada de algumas pessoas nesta cidade — ela diz, alto o suficiente para que as primeiras fileiras ouçam. O silêncio começa a se espalhar pela sala como uma mancha de óleo. — Mas eu esperava mais de uma aluna nova.
— O quê? — pisco, confusa.
— Nesta sala de aula, nós não toleramos intolerância!— ela continua, a voz pingando julgamento. Ela acha que sou racista? Ela acha que não quero sentar com a Miku porque ela é asiática... — A Srta. Nakahara é uma aluna excelente. Talvez você aprenda algo com ela se conseguir superar seus... preconceitos. Agora, sente-se. Ou vá para a diretoria e eu não me importo em saber o quanto de dinheiro seus pais tem.
Fico paralisada. A injustiça da acusação é tão absurda que quase rio. Eu, que vi impérios caírem e fronteiras mudarem mil vezes, sendo chamada de mente pequena por uma professora de biologia do interior.
Eu sou um monstro, sim. Mas não esse tipo de monstro.
Mas então percebo: eu não posso me defender. Não posso dizer: "Não é preconceito, é que o sangue dela cheira tão bem que tenho medo de arrancar a carótida dela com os dentes."
Tenho que engolir, tenho que ser essa vilã que eles acham que sou.
Viro-me lentamente para a turma, todos estão olhando. E na Bancada 4, Miku está olhando também.
O rosto dela não tem raiva, não tem o desafio que vi nos olhos dela no refeitório quando toquei seu braço. Tem apenas... resignação. Como se ela estivesse pensando: "Ah, claro. Ela também pensa isso de mim."
Ela abaixa a cabeça, focando na bandeja de metal à sua frente. E então eu vejo, uma única lágrima, pesada e brilhante, escorre pela bochecha dela e pinga na bancada preta.
Algo estranho acontece no meu peito. Não é fome, é uma pontada aguda, desconfortável. Compaixão? Eu não sinto isso há décadas. Sinto uma vontade súbita de voltar à mesa da professora e quebrar a régua dela ao meio, de gritar que ela não sabe de nada.
Mas eu não faço nada. Eu travei o maxilar e caminho até a Bancada 4.
Puxo o banco alto e me sento ao lado de Miku. A distância entre nossos ombros é de menos de trinta centímetros. O cheiro dela — flores de cerejeira, mel e tristeza — inunda meus sentidos, lutando contra o formol.
Ela não olha para mim. Ela limpa a bochecha discretamente com o ombro, fungando baixinho.
— Vamos começar — digo. Minha voz sai dura, fria. É a única maneira de mantê-la firme. Na bandeja, há um sapo grande, aberto e preservado.
Miku estende a mão trêmula para pegar o bisturi. Os dedos dela são finos, delicados. Ela está nervosa demais. A mão dela treme tanto que a lâmina brilha instável sob a luz fluorescente.
— Eu... eu não sou muito boa com isso — ela sussurra, a voz embargada. Ela ainda está chorando por dentro, eu posso ouvir a respiração irregular.
Observo a mão dela. Se ela se cortar... se uma única gota de sangue fresco aparecer aqui, com a minha sede já no limite... será o fim.
— Me dá isso — ordeno.
Não espero ela responder, tiro o bisturi da mão dela. Nossos dedos se roçam por uma fração de segundo. É elétrico, quente contra frio, vida contra morte.
Assumo o controle da dissecação. Meus movimentos são cirúrgicos, precisos, inumanos, preciso que isso acabe logo. Não preciso olhar o manual, conheço anatomia melhor do que qualquer médico vivo. Cortei, separei, identifiquei.
— Estômago — aponto com a ponta do bisturi, sem olhar para ela. — Fígado. Coração.
Miku observa, fascinada e horrorizada. Ela parou de tentar não chorar, agora ela está olhando para as minhas mãos, para a velocidade e a frieza com que desmonto o animal.
— Você... você é muito boa nisso — ela murmura.
Viro o rosto para ela. Estamos perto, perto demais.
Meus olhos, o azul oceano tempestuoso que ela viu mais cedo, encontram os dela. Vejo o reflexo do meu próprio rosto pálido em suas íris castanhas. Ela deveria estar com nojo de mim, a garota "xenofóbica". Mas ela está apenas curiosa e triste...
— Minha família é de médicos — minto, a mentira sai fácil, treinada. — Aprendi cedo. Ela assente, engolindo em seco.
— Desculpe pela professora — ela diz, baixinho, arriscando falar comigo. — Ela... ela tira conclusões precipitadas. Eu sei que você não é... quer dizer, eu acho que você não é...
Ela está me dando o benefício da dúvida. Depois de eu ter sido grossa, depois de eu ter pedido para trocar de lugar, depois de a professora me chamar de intolerante. Ela ainda está tentando ver algo bom em mim.
Isso me irrita. Isso me aterroriza.
— Anote os órgãos, Miku — corto, voltando minha atenção para o sapo morto, focando na morte segura e fria para ignorar a vida vibrante e tentadora ao meu lado.
Passamos o resto da aula em silêncio. Eu dissecando, ela escrevendo. Mas em cada respiração dela, sinto o peso daquele olhar. E pela primeira vez em muito tempo, odeio o monstro que tenho que ser para mantê-la viva.
A neve transformou o mundo lá fora em um borrão branco e impenetrável. North Hollow desapareceu, engolida por uma nevasca que chegou cedo e com raiva.
O sinal toca, mas o anúncio no alto-falante diz que os ônibus foram suspensos e o caos se instala. Adolescentes ligam para os pais, reclamam do frio, se aglomeram nas saídas... e eu fico parada sob o toldo da entrada principal, abraçando meu próprio corpo. Não sinto frio, mas finjo tremer para não parecer um cadáver, enquanto espero meu pai, ele realmente odeia atrasos.
Meus olhos, traidores como sempre, procuram por ela.
Miku está a alguns metros de distância, perto de um pilar de concreto. Ela está tremendo de verdade, o casaco dela parece fino demais para esse clima, e ela esfrega as mãos enluvadas nos braços, tentando gerar calor. O nariz dela está vermelho, e flocos de neve ficam presos nos cílios longos dela. Ela parece uma estatueta de porcelana prestes a rachar com a geada.
Um carro preto, longo e elegante, surge através da cortina de neve, o motor é um ronco surdo, poderoso, como um animal grande respirando. É a Mercedes do meu pai, brilha como uma mancha de óleo no meio da brancura.
O carro para suavemente na calçada, o vidro fumê do passageiro desce.
Viktor está ao volante, usando óculos escuros, mesmo com o céu cinza chumbo. A pele dele é pálida, perfeita, e o sorriso que ele me oferece é pequeno e afiado.
— Entre, Clara — ele diz.
Abro a porta do passageiro, mas antes que eu possa entrar, Viktor se inclina levemente, olhando para além de mim.
— Quem é a sua amiga? — ele pergunta, a voz de veludo e perigo. Sigo o olhar dele, ele está olhando para Miku!
— Ela não é minha amiga — respondo rápido, talvez rápido demais.
Miku percebe que está sendo observada e olha para nós, ela parece assustada com o carro, com a aura de riqueza que não pertence a este lugar.
— Ela parece estar congelando — observa, não há bondade na voz dele, apenas curiosidade. A curiosidade de um gato vendo um passarinho machucado. — Seria indelicado deixá-la aqui.
— Pai, não — sussurro, meus dentes trincados. — Não faça isso, vamos embora.
Ele me ignora, se inclina mais, falando alto o suficiente para ser ouvido acima do vento.
— Senhorita? — ele chama.
Miku dá um pulo e aponta para si mesma, confusa.
— Sim, você. Precisa de uma carona? O tempo está piorando.
Miku hesita, ela olha para mim e eu tento transmitir com os olhos: "Diga não. Corra. Fuja deste carro." Mas ela deve interpretar meu olhar intenso como apenas mais uma das minhas estranhezas.
— Eu... eu moro um pouco longe, senhor — ela gagueja enquanto se aproxima lentamente, a voz fraca pelo frio. — Não quero incomodar.
— Não é incômodo algum — Viktor sorri, o sorriso que ele usa antes de fechar negócios ou pescoços. — Entre, filha, vá para o banco de trás. Deixe a moça ir na frente, onde o aquecedor é mais forte.
É uma ordem.
Saio da porta do passageiro e abro a de trás, sentindo meu nervosismo subir. Miku corre pela neve e entra no banco da frente, fechando a porta e trazendo com ela uma lufada de ar gélido e aquele cheiro.
Deus, o cheiro.
Em um ambiente fechado, com o aquecedor ligado, o aroma dela é concentrado. Cerejas, mel, vida e sob isso, o cheiro do medo e da gratidão.
— Obrigada, senhor... — ela diz, afivelando o cinto com as mãos trêmulas.
— Alexandrova. Viktor Alexandrova — ele responde, engatando a marcha. O carro desliza para a estrada sem nenhum solavanco, em direção a cidade.
— Sou Miku. Miku Nakahara. Obrigada mesmo, meu pai está trabalhando e eu não sabia como ia voltar.
Estou sentada exatamente atrás dela, encaro a nuca dela. O pescoço dela está exposto, a poucos centímetros de Viktor. Vejo meu pai inspirar profundamente pelo nariz, testando o ar, degustando o aroma dela de forma clínica. Vejo os dedos dele apertarem o volante. Ele sente o que eu sinto... ele sabe o quão doce ela é.
— Clara me disse que o senhor é médico — Miku comenta de repente, tentando puxar assunto para quebrar o silêncio constrangedor.
Viktor me olha pelo retrovisor, seus olhos, saindo do azul gelado para escuros encontram os meus por uma fração de segundo. Não há surpresa neles, apenas uma adaptação instantânea, mentir é um dos vários idiomas que conhecemos.
— Ah, ela disse? — Viktor responde suavemente, a voz calma. — Sim, cirurgião. Embora eu esteja tirando um tempo sabático agora, a medicina moderna é... exaustiva.
— Imagino — Miku concorda, relaxando um pouco. — Deve ser difícil lidar com a vida e a morte todos os dias.
Viktor sorri de canto, sem mostrar os dentes.
— Onde você mora, Miku? — pergunto, cortando o clima filosófico e perigoso que meu pai está criando.
Ela dá o endereço exato e o resto da viagem é um borrão de tortura. Viktor faz perguntas polidas sobre a cidade, sobre a família dela, e Miku responde inocentemente, dando informações ao predador mais perigoso do mundo. Eu fico segurando totalmente a respiração, implorando mentalmente para que cheguemos logo, minhas presas doendo na gengiva.
Quando o carro finalmente para em frente a uma casa pequena e simples, sinto que vou secar de tanta sede.
— Obrigada, Dr. Alexandrova. Tchau, Clara — ela diz, virando-se para me olhar no banco de trás. — Obrigada por hoje... na aula de Biologia.
Ela sai do carro, observo-a correr até a porta de casa e entrar em segurança.
Assim que a porta dela se fecha, a atmosfera no carro muda, o "médico gentil" desaparece, e Viktor, o Patriarca, assume.
Ele arranca com o carro, rápido demais para uma estrada com neve.
Chegamos em casa em silêncio, entramos na mansão e o som pesado da porta de carvalho se fechando é o único ruído.
Viktor tira o sobretudo e o entrega a minha mãe, que aparece no corredor como um espectro. Ele caminha até a sala de estar e serve um copo de sangue B negativo.
— Você não devia ter feito aquilo — digo, minha voz ecoa no pé-direito alto.
Meu pai se vira lentamente, ele tem essa aparência jovem, mas o olhar dele carrega séculos de peso. Ele me encara com uma calma que é pior do que qualquer grito.
— Estou apenas mantendo as aparências, Clara. Vizinhos prestativos, o bom doutor e sua filha.
— Você a colocou no carro — dou um passo à frente. O desafio é arriscado, mas a raiva ainda está no meu sistema. — Ela é uma humana fraca, não podemos nos dar ao luxo de brincar com a comida na frente de toda a escola, você mesmo me disse isso.
Ele coloca o copo na lareira de mármore com um clink suave.
— "Humana fraca" — ele repete minhas palavras, testando-as e caminha até mim, parando a um metro de distância.
Sua presença é opressora. Eu sou forte para minha idade, mas ele é antigo e ele não é apenas meu pai. Viktor é o líder da família Alexandrova, a linhagem que controla as poucas outras famílias influentes de vampiros que restam no mundo. A palavra dele é lei em continentes inteiros, desafiá-lo não é apenas rebeldia, é traição.
— É curioso você dizer isso.
— Por quê? — pergunto, mantendo o queixo erguido.
— Porque eu vi como você olhou para ela— diz suavemente. — E eu senti o cheiro do seu medo, você estava com medo de que eu a atacasse...
Ele lê microexpressões melhor do que ninguém mesmo.
— Na verdade, eu que estava com fome — minto, a mentira é uma parede frágil. — O cheiro dela é forte, então fiquei com medo que eu a matasse ali mesmo... o cheiro dela é irritante, só isso.
— É mesmo? — Viktor inclina a cabeça, seus olhos, novamente escuros agora perfuram os meus. — O sangue dela é... raro. Excepcional, eu percebi e geralmente, quando encontramos algo assim, nós caçamos sem hesitar. Mas você... você parecia querer protegê-la, de mim.
— Eu só não quero ter que me mudar de novo — rebato, cruzando os braços, assumindo a postura da adolescente rebelde para esconder a verdade. — Acabamos de chegar, se um de nós drenar uma aluna da escola na primeira semana, teremos caçadores ou a polícia aqui em dois dias, estou apenas sendo racional.
Viktor estudou por um longo momento. O silêncio estica, tenso como uma corda de violino.
Ele finalmente sorri, mas não é um sorriso agradável, nunca é.
— Racionalidade, muito bem. — Ele pega o copo novamente. — Mas tome cuidado, minha filha. A fome reprimida é perigosa, se você não se alimentar dela, eventualmente a fome vai vencer a razão. E se você estiver desenvolvendo... simpatia pela comida...
Ele deixa a frase no ar, uma ameaça suspensa.
— Não sinto nada por ela — digo, virando as costas. — Nada além de fome.
— Então resolva isso — ele diz enquanto eu subo as escadas. — Ou coma, ou se afaste. Não brinque de humana, Clara. Nós não temos finais felizes nessas histórias.
Bato a porta do meu quarto e deslizo até o chão, encostando a cabeça na madeira fria. Menti para ele, menti para o ser mais perigoso que conheço.
Fecho os olhos e, na escuridão das minhas pálpebras, vejo o pescoço dela exposto no banco da frente. O pulso batendo. Tum-tum-tum.
E percebo, com um terror absoluto, que Viktor estava certo sobre uma coisa: eu quero protegê-la e isso é muito mais perigoso do que a fome.
A noite se arrasta como uma doença longa, passo a maior parte do tempo no meu quarto, ouvindo o vento uivar contra as janelas, tentando não pensar no banco de trás do carro do meu pai. Tentando não pensar no pescoço dela. Quarta-feira chega cinzenta e inevitável.
A escola mantém sua atmosfera de sempre: úmida, barulhenta e cheia de desesperança adolescente. Caminho pelos corredores como um fantasma, evitando olhar para os lados, com medo de ver aquele cabelo castanho e perder o pouco controle que me resta.
Chego ao meu armário. Giro o segredo — 17-09-00, o ano em que nasci. Um código que ninguém adivinharia, e por algum motivo mórbido, ainda consigo achar isso engraçado enquanto o metal clica.
Abro a porta.
Algo cai de dentro e pousa no chão de linóleo sujo.
O tempo desacelera, meus olhos registram o objeto antes mesmo de ele parar de quicar.
É um pequeno pássaro de papel. Um tsuru, dobrado com uma perfeição geométrica perfeita em um papel estampado com minúsculas flores azuis.
Abaixo-me para pegá-lo, meus instintos gritam para eu me mover na velocidade da luz, mas me forço a desacelerar para uma velocidade humana, dolorosamente lenta.
Meus dedos pálidos tocam o papel, ele é leve, quase sem peso. Mas o impacto é de uma marreta.
Há um cheiro nele, aquele cheiro.
Flores de cerejeira, mel e a doçura quente e salgada de pulsos vivos. O aroma é tão concentrado nas dobras do papel que minha boca se enche de veneno instantaneamente. Miku segurou isso, ela dobrou isso. Os dedos quentes dela pressionaram essas arestas, transferindo o calor da pele dela para a celulose fria...
Desdobro a asa esquerda do pássaro com a unha do polegar, há algo escrito com uma letra pequena e redonda, em caneta preta. "Obrigada por me salvar do frio. — M."
Fico parada no meio do corredor movimentado. Alunos passam quase esbarrando nos meus ombros, gritando, rindo, vivendo suas vidas curtas, barulhentas e estúpidas. Mas o meu mundo parou em um pedaço de papel de dez centímetros.
Eu deveria amassar isso, deveria jogar no lixo agora mesmo. Isso é uma prova de contato, é uma evidência física de que a presa está se apegando ao predador. Viktor sentiria o cheiro disso a quilômetros, qualquer um da minha espécie deixaria no chão e pisaria em cima.
Mas eu não consigo.
O papel queima na minha mão, como o sol, quente com a memória do toque dela.
Olho ao redor, verificando se alguém está observando. Ninguém se importa com a garota gótica que é ainda mais pálida do que a neve lá fora.
Com um movimento furtivo, deslizo o tsuru para dentro do bolso interno da minha jaqueta de couro. Ele fica ali, bem perto do meu peito, um segredo minúsculo e perigoso queimando contra o lugar onde deveria existir um coração batendo.
Não procuro por ela o dia todo, não posso. O bilhete já é fraqueza suficiente para um dia, se eu a vir, se eu ouvir a voz dela... temo que o papel no meu bolso não seja o suficiente, preciso a evitar.
E então, a quinta-feira traz a tradição mais estúpida da cidade: a Fogueira de Inverno.
É um evento que celebra, teoricamente, a fundação de North Hollow, mas na prática é apenas uma desculpa para a cidade inteira se reunir em um campo aberto, queimar madeira velha e fingir que não estão todos congelando até a morte enquanto bebem cidra quente.
— Nós vamos — anuncia Viktor no café da manhã, com aquela autoridade que não aceita recusas. — O prefeito estará lá, é bom para a integração e o reconhecimento. Vamos apenas aparecer, sorrir e não comer ninguém.
Eu visto camadas de roupas pretas, cachecol grosso e luvas, odeio precisar sempre fingir que o ar gélido de -10°C me afeta, mas nunca posso reclamar, e por sermos pálidos demais, nunca podemos ficar mais de 3 meses em uma cidade com um clima ameno, e se
for uma cidade que tem um sol muito intenso... bom, queimaduras graves na pele e demoradas para cicatrizar não são agradáveis como os filmes fazem parecer.
O campo onde a fogueira acontece está lotado, as chamas sobem alto, ardendo meus olhos azuis e rugindo contra a escuridão da noite, lançando sombras longas e dançantes na neve pisoteada. O cheiro de fumaça de pinho é forte, mascarando a maioria dos odores humanos, o que é um alívio. O fogo é a única coisa "viva" aqui que eu respeito. Ele consome, assim como eu.
Fico parada na orla da multidão, perto da linha das árvores, onde a luz da fogueira mal alcança. Meus pais já estão no meio do círculo social, encantando o prefeito e sua esposa com sorrisos predadores e charme do Velho Mundo.
Eu observo, sempre observo e no máximo uso meu sorriso perfeito que todos os humanos fazem até cirurgias para ter um parecido.
E então eu a vejo.
Miku está do outro lado da fogueira. A luz laranja ilumina o rosto dela, fazendo sua pele parecer dourada, ela está rindo, é a primeira vez que a vejo rir de verdade... o som da risada dela é ainda mais musical do que a voz... ela está com uma câmera fotográfica antiga pendurada no pescoço e segura um copo de isopor fumegante. Ela está conversando com um senhor idoso, provavelmente um vizinho, e o sorriso dela é tão genuíno, tão cheio de luz.
Ela parece... feliz, não é mais apenas a garota que sofre bullying. Ela é só uma jovem bonita de cidade pequena em uma noite de inverno.
Eu deveria desviar o olhar, estou a olhando por tempo demais, mas não consigo, estou hipnotizada pela curva do sorriso dela, pela forma como os olhos dela se fecham quando ela ri.
E então toda a harmonia quebra.
Quatro garotas surgem da multidão, cortando meu campo de visão. Eu as reconheço da escola, são o tipo mais clássico possível: jaquetas de marcas que elas consideram caras, cabelos alisados quimicamente e crueldade brilhando nos olhos.
A líder desse grupo misógino de mulheres é a Jessica, uma loira alta que caminha como se fosse dona do oxigênio que todos respiramos.
Elas cercam Miku, não é um cerco agressivo à primeira vista, para quem olha de longe, parece um grupo social. Mas eu vejo a linguagem corporal, a tensão nos ombros de Miku e o sorriso de nojenta no rosto de Jessica.
Aguço minha audição, o mundo ao redor fica mudo, o fogo, o vento, a música folk, e o foco se fecha naquele círculo.
— ...olha só quem saiu da toca — Jessica diz, a voz dela pinga veneno. — Decidiu vir poluir a nossa tradição, japinha?
Miku perde o sorriso, a luz no rosto dela se apaga, substituída por uma cautela cansada. Ela segura a câmera com força, como um escudo.
— Você realmente acha que faz parte da cidade agora só porque veio na festa?
— Eu nasci aqui, Jessica — Miku responde baixo. — Você me conhece desde sempre, por que nunca me deixa em paz?
Jessica ri, mas é um som seco, sem humor.
— Sempre com uma resposta na ponta da língua, né? — Ela dá um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Miku. — Bonita câmera, é nova? Ah, espera... é velha, caindo aos pedaços. Como tudo o que você e o vagabundo do seu pai tem.
— É vintage — Miku retruca, protegendo a lente com a mão. — E era da...
— Ah, da sua mãe...? — Jessica inclina a cabeça, fazendo uma expressão de falsa piedade que me dá vontade de rasgar seu rosto com minhas unhas.
As outras garotas riem, um som cruel, agudo e machuca meus tímpanos.
— Ela não vai aparecer, Miku — Jessica sussurra, alto o suficiente para o grupo ouvir. — Não importa quantas fotos idiotas você tire, ela te deixou pra sempre sozinha, lembra?
Vejo o rosto de Miku empalidecer, o golpe foi baixo, sujo e preciso. A mãe dela a abandonou?
Sinto um rosnado subir pela minha garganta, vibrando nas minhas cordas vocais. Minhas mãos, enfiadas nos bolsos da jaqueta, fecham-se em punhos tão apertados que as costuras das minhas luvas de couro estalam.
Mas Miku não chora, ela endurece a mandíbula.
— Sai da minha frente — ela diz, ríspida.
Ela tenta sair. Dá um passo para o lado, tentando contornar o grupo e fugir da toxicidade.
— Opa!
Jessica estica a perna, um movimento calculado, rápido e maldoso. Miku tropeça...
Tudo acontece em câmera lenta para mim. Vejo a ponta da bota dela prender no salto de Jessica. Vejo o equilíbrio falhar, vejo o copo de isopor voar da mão dela, desenhando um arco de líquido quente no ar.
Miku cai, e eu sei que podia ter usado minha velocidade para a segurar...
Ela não consegue colocar as mãos na frente a tempo porque está segurando a câmera.
Ela bate os joelhos na neve dura e suja de fuligem com um baque surdo, o chocolate quente espirra no rosto e no casaco dela. Mas o pior som... o som que faz meus dentes trincarem... é o CRACK de vidro e metal batendo contra uma pedra escondida na neve.
A lente da câmera, a câmera da mãe dela...
As quatro garotas explodem em risadas e não são risadas contidas, nem risadas normais, são gargalhadas altas, performáticas, feitas para chamar a atenção e sinalizar domínio.
— Meu Deus, Miku! — Jessica grita, levando a mão à boca em um choque fingido, sorrindo para a plateia ao redor. — Você é tão desajeitada! Olha o que você fez!
Algumas pessoas olham. Ninguém ajuda, alguns riem junto, contagiados pela atmosfera de escárnio, talvez até pensando que foi um deslize mesmo.
Ela está no chão, não se levanta imediatamente, ignorando a calça molhada, ignorando a bebida quente que deve estar queimando a pele do pescoço. Ela pega a câmera com as mãos trêmulas e lentamente olha para a lente rachada.
A fúria me atinge como um trem de carga.
Não é a raiva normal das pequenas coisas que sempre sinto, a ira de uma coisa antiga. É um calor vermelho e violento que varre o gelo das minhas veias e inunda minha visão.
Dou um passo à frente, o impulso é visceral, biológico: Atravesse todos e quebre os pescoços delas, arranque as línguas que riram dela, faça o sangue delas ferver na neve.
Eu poderia fazer isso. Eu poderia atravessar os vinte metros que nos separam em menos de um segundo. Eu poderia desmembrá-las antes que o primeiro grito saísse de suas gargantas. Seria justiça, seria satisfatório, seria certo.
Mas então, sinto o peso de um olhar. Viktor.
Ele está do outro lado da fogueira, perto do prefeito, ele parou de falar no meio de uma frase, não está olhando para a confusão, está olhando diretamente para mim.
Os olhos dele são dois buracos negros de aviso através das chamas, ele nem pisca. Não, o olhar dele diz. Controle-se. Não exponha a família por causa de um animal de estimação quebrado.
Eu paro.
Estou tremendo, por causa da força titânica necessária para conter o monstro que quer sair rasgando a forma humana que eu uso, meus pés afundaram na neve, paralisados pela hierarquia, pelo medo de meu pai, pela sobrevivência.
Sou a criatura mais poderosa nesta clareira. Posso levantar carros, posso matar todos aqui, mas não posso levantar Miku do chão sem destruir minha própria vida.
A impotência é um gosto amargo na minha boca, pior que verbena, pior que fome. Vejo Miku se levantar sozinha. Ela limpa a neve das calças com movimentos bruscos,
furiosos. O rosto dela está vermelho de humilhação e raiva. As garotas ainda estão rindo, cochichando entre si, vitoriosas.
Miku não olha para elas. Ela aperta a câmera quebrada contra o peito, como se tentasse manter as peças juntas com a força do próprio coração, e sai correndo. Ela desaparece na escuridão fora do círculo de luz da fogueira, engolida pela noite.
Eu fico lá, parada e inútil. Com a imagem da lente quebrada queimada na minha retina e o ódio por Jessica pulsando onde meu coração deveria estar.
Uma garrafa de vidro vazia, deixada por alguém na neve perto do meu pé, vira o alvo da minha frustração. Piso nela, com a força de trezentos anos de ódio. O vidro não apenas quebra, ele se pulveriza. Vira pó de areia sob a sola do meu coturno, enterrado instantaneamente na terra congelada.
Ninguém viu, ninguém ouviu.
Meus olhos ainda estão fixos nas costas de Jessica, a loira que ri. Memorizo o rosto dela. Memorizo o som da risada dela. O cheiro do perfume barato dela, que ela deve achar chique. Você teve sorte hoje, penso, enviando o pensamento através das chamas. Mas o inverno é longo.
Viro as costas para a festa, para a luz e para o meu pai. Preciso sair daqui antes que eu exploda. Caminho em direção à floresta escura, na direção que Miku correu, não para encontrá-la, mas porque a escuridão é o único lugar onde posso deixar meus olhos azuis brilharem com a raiva que estou sentindo.
A escuridão da floresta não é vazia para mim, é um mapa tridimensional de sons e cheiros. Deixo a luz da fogueira para trás, entrando na linha das árvores. O barulho da música folk e das risadas cruéis de Jessica desaparecem, substituído pelo silêncio abafado dos pinheiros cobertos de neve.
Para qualquer humano, rastrear alguém aqui seria impossível. A neve caiu de novo, cobrindo pegadas em minutos. Mas eu não preciso apenas dos meus olhos, o ar cheira a resina de pinheiro, terra congelada e umidade. Mas, cortando tudo isso, há um rastro nítido:
O aroma doce e enjoativo de cidra de chocolate quente derramada em lã. E, por baixo disso,
o cheiro dela. Flores de cerejeira, mel e a acidez salgada das lágrimas.
Meus pés se movem silenciosamente sobre a neve, caminho por cerca de quinhentos metros. A floresta fica mais densa, os galhos se entrelaçam acima da minha cabeça, bloqueando a pouca luz das estrelas. É um breu absoluto, perfeito para mim.
Eu a encontro sentada na raiz de um carvalho antigo, cujos galhos grossos criam um pequeno abrigo contra a neve que cai.
Miku está encolhida, os joelhos puxados contra o peito. Ela não está chorando alto, é um choro silencioso, como se ela não quisesse deixar sair, onde os ombros tremem e a respiração falha.
Ela tem a câmera no colo, na escuridão, ela tenta encaixar um pedaço de plástico quebrado de volta no lugar, seus dedos nus e vermelhos de frio tateando cegamente.
— Você vai congelar seus dedos — digo, minha voz sai baixa, para não assustá-la demais.
Miku dá um pulo, quase derrubando a câmera de novo e levanta o rosto molhado, ela não consegue me ver direito, sou apenas um vulto preto contra a neve branca.
— Clara? — ela pergunta, a voz trêmula e fanhosa. — O que você está fazendo aqui?
— Fugindo da festa — ''minto'', aproximando-me devagar. — A música estava horrível.
Paro na frente dela, ela está tremendo violentamente. O casaco está molhado pela bebida, o que, nessa temperatura, é perigoso, a umidade vai virar gelo em breve.
Abaixo-me na frente dela, ignorando a neve molhando meus joelhos.
— Deixe-me ver — peço, estendendo a mão para a câmera. Miku hesita, apertando o objeto contra o peito.
— Está quebrada — ela sussurra, e uma nova lágrima escorre, quente, congelando na bochecha dela antes de cair. — A lente... o diafragma... está tudo solto.
— Eu sou boa com quebra-cabeças, deixe-me ver.
Ela relaxou o aperto, resignada e pego a câmera das mãos dela.
Meus dedos frios tocam o metal, é uma Canon antiga, analógica, pesada. O anel da lente está amassado e o vidro do filtro UV está estilhaçado, mas a lente principal parece intacta. O mecanismo de foco, porém, está travado.
Examino o objeto com minha visão noturna, vendo cada microfissura que os olhos dela não conseguem captar, muito menos no escuro.
— Tem conserto — digo.
Miku solta um riso sem humor, um som quebrado.
— Não tem, essas peças não são fabricadas há uns trinta anos, e eu não tenho dinheiro para mandar para um restaurador...
— Por que essa câmera é tão importante? — pergunto, devolvendo-a com cuidado.
A pergunta sai mais urgente do que eu pretendia, eu preciso saber. A curiosidade sobre a vida humana dela, sobre o que causou essa tristeza geológica nos olhos dela, vai ocupar minha mente por dias se eu não perguntar agora, e se eu não souber o motivo da mãe dela ter ido embora também.
Miku passa a mão sobre o corpo de metal da câmera, limpando um floco de neve com uma ternura que me desarma.
— Era da minha mãe — ela diz, a voz sumindo na vastidão da floresta.
O silêncio ao nosso redor parece ficar mais pesado, carregado de neve e segredos.
— Ela trouxe do Japão — Miku continua, olhando para o nada, ou talvez para um tempo que não existe mais. — Antes mesmo de conhecer meu pai, antes de vir para a América, antes de eu existir.
Ela toca o disparador emperrado, acariciando o metal frio.
— Ela morreu quando eu tinha seis anos.
— Doença? — meu palpite, já que é o que mais costuma levar os humanos jovens. Miku nega com a cabeça, um movimento rígido.
— Acidente de carro. — A frase sai cortada. — Estávamos voltando de um feriado em família, chovia muito. A estrada estava escorregadia, parecida com hoje...
Ela para, vejo a garganta dela trabalhar enquanto engole uma memória física. O cheiro dela muda sutilmente, o aroma doce de mel azeda com um pico de adrenalina e medo antigo.
— Meu pai estava dirigindo — ela sussurra. — Ele sobreviveu, eu sobrevivi, só com alguns arranhões. Mas ela... ela estava no lado do impacto.
Morte violenta, eu conheço o cheiro dela...
— Sinto muito — digo, é insuficiente, mas é tudo o que tenho. Miku dá de ombros, um gesto defensivo.
— Depois daquilo... as coisas mudaram. A casa ficou muito silenciosa. Meu pai... — Ela hesita, a pulsação dela acelera. Tum-tum-tum. — Ele mudou, ele diz que foi um acidente, mas ele não gosta de olhar para mim às vezes.
Olho para o perfil dela.
— Por que não?
— Porque eu tenho os olhos dela — Miku diz, e há uma resignação terrível na voz dela. — E ele se sente culpado... quando ele se sente culpado, ele fica... difícil. Ele se livrou de todas as coisas dela. Roupas, joias, fotos.
Ela aperta a câmera contra o peito, como se quisesse fundi-la ao próprio corpo.
— Eu escondi isso. Foi a única coisa que consegui salvar antes que ele limpasse a casa. Se ele soubesse que eu ainda tenho essa câmera...
Ela não termina a frase, mas não precisa. O medo nos olhos dela me diz tudo, o pai dela não é apenas um viúvo triste. Há violência no silêncio daquela casa. Há um homem que desconta a culpa na única testemunha viva do seu erro.
0151 Mas eu lembro dela segurando isso — Miku continua, tentando afastar a sombra do pai e voltar para a luz da mãe. — Lembro dela dizendo "Sorria, Miku-chan". Quando eu olho por esse visor... é o único lugar onde o mundo parece seguro. É físico e é a única prova de que ela me amou e não foi apenas um sonho que acabou na beira de uma estrada.
Ela olha para a lente quebrada, e a voz dela quebra junto.
— Mas agora a Jessica destruiu isso. É como se... é como se ela tivesse matado o último pedaço seguro da minha vida.
A raiva borbulha no meu estômago, mas agora ela é diferente. É mais fria. Mais calculada. A imagem de Jessica rindo se mistura com a imagem nebulosa de um pai que "ficou difícil".
Miku está cercada de monstros. Na escola. Em casa.
E agora, na floresta, ela está ao lado do maior de todos eles. Mas eu sou a única que quer consertar o que foi quebrado.
— Eu não lembro muito do som exato da voz dela — Miku confessa, e a honestidade dela é brutal. — Eu tento lembrar, sabe? Mas está sumindo. Às vezes eu acho que lembro, mas é só a minha imaginação preenchendo as lacunas.
A raiva volta a borbulhar nos meus olhos, quente e ácida. A imagem de Jessica rindo na fogueira se sobrepõe à imagem de Miku chorando na neve.
— Me dá a câmera, Miku — digo, estendendo a mão novamente.
— Clara, não adianta...
— Me dá.
A autoridade na minha voz a faz obedecer e ela me entrega o objeto.
Tiro meu cachecol preto de lã. Envolvo a câmera nele com cuidado, fazendo um pacote seguro.
— Meu pai coleciona antiguidades, ele sabe onde consertar coisas antigas assim. — digo mais uma mentira.
Mas eu tenho séculos de acúmulo de tralhas e ferramentas de precisão encaixotadas. E tenho mãos podem manipular engrenagens menores que um fio de cabelo.
— Clara, eu não posso pagar...
— É um favor — corto. — Considere um pagamento por me aguentar na aula de Biologia. Miku me olha. Na escuridão, seus olhos brilham, úmidos e grandes.
Levanto-me e estendo a mão para ela.
— Agora levanta, você está hipotérmica, seus lábios estão ficando azuis.
Ela segura minha mão e é surreal, minha pele é mais fria que gelo mas a dela... não está muito diferente no momento.
Puxo-a para cima, ela tropeça, as pernas dormentes pelo frio. Instintivamente, eu a seguro pelos braços para ela não cair.
Ela bate contra o meu peito... Estamos sozinhas na floresta o cheiro dela, tristeza, frio e
gratidão é inebriante.
— Obrigada — ela sussurrou contra a minha jaqueta. — Você age como se odiasse tudo, mas está aqui, no meio do mato, salvando minha câmera e minha saúde mental.
— Eu não odeio tudo — digo, olhando para o topo da cabeça dela. — Só a maioria das coisas.
Miku ri. É um som fraco, mas é verdadeiro.
— Vamos — digo, soltando-a antes que eu fique confortável demais com o calor dela. — Vou te levar para casa, o aquecedor do carro do meu pai funciona melhor que essa fogueira estúpida.
Caminhamos juntas para fora da floresta, eu carregando a câmera da mãe morta dela como se fosse uma relíquia sagrada, e ela caminhando ao meu lado, um pouco menos quebrada do que antes.
A madrugada chega em North Hollow como um manto de chumbo, mas o porão da nossa atual mansão permanece imune ao tempo. O cheiro aqui embaixo é uma mistura arrogante de carvalho velho e dinheiro desperdiçado. Prateleiras infinitas exibem vinhos de safras inestimáveis, garrafas cobertas de poeira que servem apenas como adereços de palco para a grande mentira que é a família Alexandrova.
Ignoro as garrafas. Ignoro também o zumbido baixo e constante vindo da parede falsa no fundo, onde os dois freezers industriais guardam o que realmente nos mantém de pé: dezenas de bolsas de sangue emergenciais, subornadas de bancos hospitalares e resfriadas a quatro graus exatos.
Minha atenção está toda na bancada improvisada entre as caixas de vinho, iluminada apenas por uma luz branca cirúrgica que eu mesma acabei de instalar.
A câmera de Miku está desmontada na minha frente.
Para um humano, isso seria um quebra-cabeça de dias, uma tarefa impossível de engrenagens minúsculas e molas que saltam. Para mim, a simplicidade mecânica é quase ridícula, minha visão vampírica já transforme cada arranhão microscópico em uma cratera lunar.
O cheiro dela impregnou o metal. Cerejas, mel e a acidez salgada das lágrimas que ela derramou na floresta, é irritante.
— Humana descuidada... — sussurro para o silêncio da adega.
Com uma pinça de relojoeiro, removo um caco de vidro quase invisível que travava o diafragma da lente, sou um monstro projetado e nascido para matar, e aqui estou eu, usando essa precisão letal para salvar um pedaço de metal sentimental.
Substituo a peça quebrada por um componente de uma Leica da Segunda Guerra que "peguei emprestada" de um fotografo décadas atrás. Encaixo as engrenagens, aplico uma gota microscópica de óleo suíço.
Fecho a carcaça de metal preto. Click. O som é seco, perfeito, mecânico.
Passo o polegar pelo corpo da câmera e está pronta, sinto ela em minhas mãos, um lembrete físico de que estou me envolvendo demais.
A manhã seguinte na escola é um ataque sensorial, como sempre. O barulho é uma cacofonia de centenas de corações batendo descompassados, gritando nos meus ouvidos sensíveis.
Caminho pela multidão e o "mar vermelho" se abre. Os alunos se afastam instintivamente, um reflexo primitivo de sobrevivência que eles nem entendem. Eles sentem o predador, mesmo que vejam apenas a garota pálida do fundão.
Mas eu a encontro instantaneamente.
Miku está parada de frente para o armário dela, ela parece ainda menor hoje. Os ombros caídos, uma resignação silenciosa que me dá nos nervos. Eu não gostei de vê-la assim e odeio que alguém tenha feito ela se sentir assim.
Me aproximo sem fazer barulho, deslizando entre os armários.
Paro ao lado dela, invadindo seu espaço pessoal com a arrogância que é minha segunda natureza.
— Toma. — Estendo a câmera.
Miku dá um salto, levando a mão ao peito. Ela se vira, os olhos castanhos se arregalam tanto que parecem que vão ocupar todo o rosto. Ela olha para a minha mão, depois para mim, depois para a câmera de novo, como se estivesse vendo um fantasma.
— Você... — A voz dela falha, rouca. Ela estica as mãos trêmulas e pega o objeto como se fosse feito de vidro soprado sagrado.
Os dedos dela roçaram nos meus.
O contato dura menos de um segundo, mas a pele dela é quente, quente demais. Sinto uma corrente elétrica que deve ter a arrepiado. Mantenho meu rosto inexpressivo, uma máscara de mármore, enquanto por dentro meu instinto grita ("tão perto, tão quente").
— Como? — ela sussurra, girando a câmera nas mãos.— E tão rápido?
— Eu disse que meu pai tinha contatos, ele só mandou para um restaurador particular que cuida da coleção dele e o homem trabalha rápido quando meu pai exige.
Miku pisca, processando a informação. — Em uma noite? Isso deve ter custado uma fortuna... Clara, eu não tenho como...
— Não custou nada — minto de novo, cruzando os braços. — O sujeito devia um favor ao meu pai.
Ela leva a câmera ao rosto, ainda incrédula. Ajusta o foco, o som do obturador disparando contra o barulho do corredor.
Ela baixa a câmera e o olhar que ela me lança faz algo desconfortável se contorcer no meu estômago, onde a sede costuma morar. Não é medo, não é cautela. É gratidão pura, brilhante e devastadora. Um sorriso genuíno começa a se formar nos lábios dela, iluminando o corredor cinzento.
— Obrigada, Clara. — Ela diz meu nome com uma suavidade que eu definitivamente não mereço. — Você não tem ideia do quanto iss...
— É só uma máquina, não faça disso um drama — corto, ríspida, tentando erguer minhas barreiras de volta e afastá-la.
— Posso te pagar um lanche? Café?? — Ela já está tateando os bolsos da calça jeans, ansiosa.
— Não como comida de lanchonete — digo rápido demais.
— Então deixa eu tirar uma foto sua.
Meus corpo trava sob a jaqueta de couro. — Não.
— Ah, por favor! — Miku insiste, dando um passo na minha direção, invadindo minha zona de perigo. O sorriso dela agora é teimoso, esperançoso. — A luz da janela está batendo bem aqui. Você salvou minha câmera. É o "renascimento" dela, tem que ser você a primeira da foto.
O instinto grita: NÃO. Não deixamos registros há menos que seja extremamente necessário e tenhamos certeza que nunca voltaríamos. Viktor me mataria se soubesse que estou deixando rastros visuais por aí, fotos são provas e se precisarmos voltar a cidade em menos de um século...
Mas estou olhando para o rosto dela, para a esperança ridícula naqueles olhos castanhos que viram tanta crueldade ontem à noite, e a sede no meu estômago se mistura com algo que não consigo nomear. Uma vontade estúpida de dar a ela o que ela quer... para sempre.
Me sinto derrotada pela minha própria curiosidade mórbida.
— Uma foto — cedo, rígida. — E se você postar isso em qualquer lugar, eu quebro a câmera de novo.
Ela ri, o som vibra no ar, leve e verdadeiro. — Prometo, fica parada.
Miku levanta a câmera. A lente parece um olho gigante me encarando, julgando minha alma inexistente. Sustento o olhar azul gelado, não sorrio. Não sou capaz de fingir gentileza agora, não com o cheiro do sangue dela pulsando na carótida a meio metro de distância, tão vulnerável, tão convidativo. Click.
Miku baixa a câmera, satisfeita, ela olha para mim com uma intensidade nova. — Ficou...
— Ficou o quê?
Ela morde o lábio inferior, pensativa. — Tão linda... A palavra me atinge como o queimar do sol.
— Não se acostume com essa interação, Nakahara — disparei, desencostando do armário e me virando antes que eu faça alguma estupidez, como tocar no rosto dela para ver se é tão macio quanto parece.
Saio andando pelo corredor, sentindo o olhar dela queimando nas minhas costas. No bolso da minha jaqueta, minha mão se fecha em torno do ar vazio, tentando segurar a sensação de calor que veio do leve roçar de dedos dela, a sensação que não deveria existir em um corpo morto.
O ginásio da North Hollow High tem um ecossistema próprio. O ar é denso, uma sopa invisível composta por noventa por cento de testosterona, cheiro de borracha velha e o aroma azedo de desodorante spray aplicado em excesso para mascarar o medo social.
Eu odeio esse lugar.
Estou sentada na arquibancada, o mais alto possível, onde as sombras das vigas do teto escondem meu rosto. O treinador Miller apita, o som agudo perfura os meus tímpanos sensíveis como uma agulha quente.
— Queimada! — ele berra, com aquele entusiasmo sádico que só professores de Educação Física têm. — Equipe A contra Equipe B!
Lá embaixo, os humanos se espalham. É um ritual tribal de violência sancionada. Dividir os fracos dos fortes, permitir que a hierarquia social seja reforçada através de boladas de borracha.
Meus olhos escaneiam a quadra. Miku está na Equipe B. Ela parece deslocada, puxando as mangas da camiseta do uniforme para cobrir as mãos, tentando se fazer pequena perto da linha de fundo.
Na Equipe A, Jessica está na linha de frente. Ela quica uma bola vermelha no chão de madeira envernizada, o ritmo cardíaco dela está acelerado, mas não de exercício. De antecipação... ela está caçando.
Eu deveria estar lá embaixo jogando, mas usei o "atestado médico de anemia crônica" que Viktor ''pediu'' para um médico falsificar. "Minha filha tem saúde frágil", ele diz. Já que eu
poderia arrancar as traves de basquete do teto e usá-las como lanças, então sou obrigada a ficar aqui sentada, fingindo fraqueza enquanto assisto.
O jogo começa, é um caos maior que o habitual. Gritos, borracha voando, tênis guinchando. Vejo o padrão antes de qualquer um.
Jessica não está jogando para eliminar adversários. Ela e suas duas sombras, estão fazendo uma formação de triângulo. Elas estão pastoreando a Equipe B, forçando os jogadores mais fortes a irem para o canto esquerdo, deixando o lado direito exposto.
Onde Miku está.
— Agora! — Jessica grita.
É uma emboscada. Jessica tem a bola, mas não arremessa. Ela faz um passe lateral para uma delas, que joga para a outra e Miku acompanha a bola com os olhos, confusa. A distração funciona... Enquanto Miku olha para a esquerda, Jessica corre para a linha central, pegando uma segunda bola que estava no chão.
Ela avança. Miku está encurralada no canto, sem ninguém para bloquear.
Jessica arma o braço, não é um arremesso de jogo normal. Pela tensão nos ombros dela, pelo ângulo do cotovelo... ela está mirando no rosto. E ela está perto, perto demais. Uma bolada daquelas, naquela distância, pode quebrar o nariz dela...
O tempo, meu inimigo de toda minha eternidade, decide parar.
Vejo o braço de Jessica se mover. Vejo os músculos do pescoço de Miku contraírem quando ela percebe, tarde demais, que vai ser atingida. Vejo o medo dilatar as pupilas dela.
Eu não tomei uma decisão consciente. Meu corpo simplesmente rejeita a ideia de Miku sangrando... se machucando
Eu me movo.
Então eu desapareço da arquibancada.
O mundo vira um borrão de cores esticadas. Salto sobre o corrimão de metal, uma queda de cinco metros que eu absorvo silenciosamente no chão da quadra. A distância entre mim
e Miku é de trinta metros. Cubro essa distância no intervalo entre uma batida do coração de Jessica e a próxima.
O ar se rasga ao meu redor, criando vácuo.
Chego na frente de Miku no momento exato em que a bola sai da mão de Jessica.
Um segundo eu estava no topo do ginásio, no outro, eu sou uma barreira preta e pálida na frente da garota humana.
A bola vem rápida, girando violentamente. Eu levanto a mão direita. Palma aberta.
Não tento agarrar a bola. Eu simplesmente paro a trajetória dela.
O impacto não faz o som normal de borracha batendo em minha pele (ploc). O som é de um tiro de revólver. PAW!
O estalo ecoa pelo ginásio alto como um trovão, silenciando cada conversa, cada risada, cada respiração.
A bola murcha instantaneamente na minha mão. A energia cinética do arremesso de Jessica era alta, mas encontrou um objeto inamovível. A física não tem para onde ir, então ela destrói o objeto.
Sob meus dedos, a borracha grossa cede, minhas unhas perfuram a superfície vermelha não por querer, mas pela força bruta da parada súbita. O ar escapa da bola com um silvo triste. Sssssss.
Fico parada ali, braço estendido, segurando a bola murcha e deformada como se fosse um pedaço de papel.
O silêncio no ginásio é absoluto, ninguém se mexe e o treinador Miller está com o apito caído da boca.
Lentamente, baixo o braço e solto a bola, ela cai no chão aos meus pés com um baque pesado, morta. Não rola, apenas fica ali, amassada, com as marcas profundas de cinco dedos impressas na borracha vulcanizada. Não jogo a bola de volta, não a ameaçei. Apenas
a existência daquela bola destruída aos meus pés é uma ameaça maior do que qualquer palavra.
Levanto os olhos para Jessica.
Ela está a cinco metros de distância, a mão ainda estendida do arremesso. O rosto dela drenou todo o sangue, ela não está olhando para mim com raiva. Ela está olhando para a bola destruída no chão, e depois para a minha mão, e seus olhos transbordam um terror primitivo. O cérebro dela está tentando processar o que acabou de ver: uma garota atravessar a quadra em um piscar de olhos e estourar uma bola de queimada com uma mão só.
Sinto a presença atrás de mim... calor... Miku.
Viro-me devagar, esse novo instinto de proteção ainda está em mim, deixando meus olhos ainda mais sensíveis à luz.
Miku está encarando meu peito, onde minha respiração deveria estar ofegante pela corrida, mas está perfeitamente imóvel. Depois, ela olha para minha mão, não há vermelhidão. Não há inchaço. Minha pele pálida está normal, apesar de ter parado um projétil.
Ela levanta o olhar para o meu rosto. Não vejo gratidão agora como antes com a câmera, vejo confusão. E, lá no fundo, aquele medo instintivo de quem está diante de um predador de topo.
— Clara? — ela sussurra. — Como você...?
O feitiço quebra, o treinador Miller corre até nós, sacudindo a cabeça como se acordasse de um transe.
— Alexandrova! — ele grita, mas a voz dele treme um pouco. — O que foi isso? De onde você veio? Você nem deveria estar na quadra.
Olho para o treinador, depois para a bola murcha. Preciso de uma mentira. Rápido.
— Adrenalina — digo, inexpressiva. Chuto a bola deformada para longe levemente com a ponta do coturno. — E essa bola estava velha e podre, deveria comprar equipamentos novos, treinador.
— Podre? — Ele olha para a bola, confuso. — Mas são novas...
— Eu vou para a enfermaria — anuncio, cortando o interrogatório. — Machuquei o pulso.
Preciso sair daqui, o cheiro de medo no ginásio está ficando forte demais, ácido demais e chamando a atenção demais. Jessica está cheirando a terror puro, e isso está me dando fome.
Viro as costas para todos eles. Agarro o pulso de Miku, suavemente, desta vez calculando cada miligrama de força, e a puxo comigo. Não posso deixar ela aqui com a Jessica tentando a machucar.
— Vem — ordeno. — Você também se machucou.
Ela não resiste, ela caminha ao meu lado para fora da quadra, passando pelos alunos estupefatos que se afastam como se eu fosse radioativa.
Enquanto caminhamos para o corredor vazio, sinto os olhos dela em mim. Ela não está olhando para o meu rosto. Ela está olhando para a minha mão.
A garota "linda" acabou de mostrar as presas.
— Clara — ela tenta de novo quando a porta do ginásio se fecha atrás de nós, abafando o barulho. — Você estava na arquibancada, eu vi você na arquibancada.
Paro no meio do corredor, solto o pulso dela. — Você viu errado — digo, e pela primeira vez, minha voz soa defensiva.
— E sei o que eu vi. — Ela dá um passo à frente, teimosa.
Encaro Miku. Ela está assustada, sim. Mas ela não está fugindo, ela está me confrontando.
— Eu tava quase do seu lado — minto, olhando nos olhos dela, tentando usar um pouco do meu charme vampírico para acalmá-la, mas estou agitada demais para funcionar. — E pra sua sorte eu consegui pegar aquela bola podre.
Miku balança a cabeça devagar e analisa para as minhas unhas, há um fiapo de borracha dura vermelha preso sob a unha do meu indicador, e então ela puxa o fiapo de borracha da minha mão.
O corredor fica silencioso. Apenas o zumbido das lâmpadas fluorescentes e o tum-tum-tum
frenético do coração dela.
Estamos na beira do precipício, então o sinal toca.
— Vá para sua aula, Nakahara. Antes que a Jessica decida te usar de alvo de novo.
Viro as costas e saio andando rápido, quase correndo, em direção ao banheiro feminino. Preciso lavar minhas mãos, preciso tirar o cheiro de borracha queimada da minha pele.
E, principalmente, preciso me esconder antes que eu confesse tudo para ela, só para ver se aquele olhar de medo se transforma em outra coisa.
Estou no banheiro feminino do segundo andar, com as mãos apoiadas na pia de porcelana fria, encarando meu reflexo no espelho manchado.
Minhas pupilas estão dilatadas, engolindo o azul da íris. Minhas mãos e braço tremendo...
Meu corpo está gritando. O uso da supervelocidade queimou minhas reservas de energia em segundos, mas o buraco é mais fundo do que isso. A raiva que senti de Jessica agiu como um acelerador, consumindo glicose sanguínea que eu nem tinha.
E o pior: eu não me alimentei ontem à noite.
A lembrança me atinge com uma pontada de ironia cruel. Passei a madrugada inteira curvada sobre a câmera da Miku, ajustando micromolas e polindo lentes, ignorando completamente a hora da "refeição" no porão. Eu estava tão obcecada em consertar o mundo dela que esqueci do meu mundo.
A porta do banheiro se abre com estrondo.
— Clara!
Miku entra como um furacão de um metro e sessenta. Ela está ofegante, o cabelo castanho bagunçado. Ela me vê curvada na pia, trêmula, e tira a conclusão óbvia e errada.
— Meu Deus, você está tendo uma crise? Você tem anemia, não é? O treinador explicou pra gente. — Ela corre até mim, jogando a mochila no chão sujo sem se importar.
Eu deveria afastá-la. O cheiro dela agora... suor leve, preocupação e aquele aroma doce de sangue arterial bombeando rápido, é como abrir uma garrafa de água no meio do deserto. Minha garganta seca instantaneamente. As presas coçam na gengiva, querendo descer.
— Estou bem, acabei pulando o jantar e o café da manhã — menti, mas minha voz sai como um sussurro fraco, fecho os olhos para não olhar para a jugular dela. — Só preciso... sentar.
— Você não está bem coisa nenhuma, você está tremendo. — A voz dela é firme, autoritária de um jeito que nunca ouvi antes. — Senta. Agora.
Ela me empurra para sentar na tampa fechada do vaso sanitário da cabine adaptada, que é maior. Eu obedeço, não porque ela é mais forte do que eu, não por causa da hierarquia, mas porque estou fraca demais para discutir sem correr o risco de atacá-la.
Miku se ajoelha na minha frente e começa a revirar a mochila freneticamente.
— Eu sempre tenho alguma coisa, espera... aqui.
Ela puxa uma barra de chocolate. Daquelas baratas, cheias de caramelo e amendoim. Ela rasga a embalagem com os dentes, um gesto tão humano, tão vivo, e empurra o doce na minha direção.
— Come, vai levantar sua glicose rápido e você vai melhorar. Eu encaro o chocolate como se fosse um lança chamas.
Para nós, comida humana não é apenas desnecessária, é repugnante. Nossos corpos não processam mais matéria orgânica então tudo o que não é sangue tem gosto de decomposição, de terra, de cinzas. E depois nossos corpos precisam eliminar tudo...
— Eu não... eu não gosto de doce — tento esquivar, virando o rosto. O cheiro do açúcar industrializado já me dá náuseas.
— Clara, cala a boca e come — Miku ordena, partindo um pedaço e segurando perto da minha boca. — Você está mais pálida que o normal e suas mãos não param de tremer. Se você desmaiar aqui, eu vou ter que chamar a ambulância, e eles vão te internar. Você quer isso?
Agulhas, exames de sangue, médicos descobrindo que meu coração não bate. Meu pai me executaria por esse descuido antes mesmo de eu sair do hospital.
Não tenho escolha.
Olho para o rosto de Miku, os olhos dela estão úmidos de preocupação. Ela realmente acha que está me salvando e esse tipo de coisa.
Abro a boca e ela coloca o pedaço de chocolate lentamente na minha língua.
O gosto é imediato e horrível. É como mastigar areia misturada com papelão molhado e produtos químicos, a textura do caramelo gruda no céu da minha boca como piche. Tenho vontade de vomitar na hora, cuspir tudo, meu sistema se contorce em protesto violento.
Mas eu mastigo.
Forço minha mandíbula a trabalhar, engulo a pasta nojenta com muito esforço, sentindo-a descer pela minha garganta como chumbo derretido.
— Mais um pouco — Miku insiste, quebrando outro pedaço.
— Já chega — digo, tossindo para disfarçar a ânsia de vômito. — Já... já estou sentindo efeito.
É mentira, claro. A única coisa que sinto é o gosto residual de cinzas na boca. Mas faço a tremedeira diminui um pouco, com meu foco mental em não vomitar em cima dela.
Miku suspira, aliviada. Ela se senta nos calcanhares, me observando como se eu fosse uma criança doente.
— Você me assustou — ela admite, a voz baixando o tom. — Lá no ginásio... por um segundo, achei que você tinha torcido a mão com aquela bola. E agora você parece que vai quebrar inteira.
— Eu sou resistente — murmuro, preciso sair daqui.
— Você é teimosa, isso sim. — Ela balança a cabeça. — E tem chocolate no canto da sua boca.
Antes que eu possa reagir lentamente, ela estica a mão. O tempo para de novo.
O polegar de Miku toca o canto do meu lábio inferior. A pele dela é tão macia, quente e viva. Sinto a pulsação na ponta do dedo dela. O sangue, logo abaixo da superfície, tão perto da minha língua...
A minha sede aumenta ainda mais, seria tão fácil, um movimento rápido. Morder o polegar dela, só uma gota, só para tirar o gosto de cinzas da boca, só para acalmar essa sede que tenho dela...
Fecho os olhos com força, minhas mãos agarrando a borda do vaso sanitário até a cerâmica estalar sob meus dedos (espero que ela não ouça). Prendo a respiração totalmente.
— Clara? — Miku sussurra.
Ela não tira a mão, ela acha que estou sentindo dor. Ela acaricia minha bochecha com os outros dedos, um toque de conforto que queima minha pele fria como o sol.
— Estou muito enjoada — digo, e é a verdade mais pura que já contei a ela. — Preciso... preciso que você se afaste um pouco, por favor.
Miku retira a mão devagar, consigo sentir a perda do calor imediatamente, e odeio isso. Odeio como meu corpo anseia por esse contato.
Abro os olhos, torcendo para ele não estar totalmente negro, mas pelo menos com uma pontada do azul que ela conhece.
— Vou pegar uma água para você — ela diz, levantando-se. — Fica aqui e não tenta levantar.
Ela sai do banheiro apressada.
Assim que a porta se fecha, eu me jogo sobre a pia e cuspo o resto do gosto de chocolate e saliva. Lavo a boca com água da torneira, mas nada tira a sensação de "nojo" que a comida humana deixa.
Olho para o espelho. Meus olhos voltaram um pouco ao normal, mas a fome ainda está lá, bem aparente.
— Você está brincando com fogo, Alexandrova — digo para o meu reflexo pálido.
Eu comi cinzas por ela, eu a defendi na frente de todos, pela segunda vez. E quase arranquei o dedo dela fora por causa disso.
Miku Nakahara vai ser a minha morte. Ou eu serei a dela. O chocolate foi um erro.
Saio da escola antes dela voltar com a água e estou tentando correr para casa. Preciso dos freezers. Preciso das bolsas de plástico estéreis com leve gosto de plástico, mas que mantêm a sede sempre controlada.
Minhas pernas se movem, borrões pretos contra a neve branca da beira da estrada. Mas a velocidade falha, como um motor engasgando por falta de combustível, minha visão periférica escurece, o mundo gira.
Tropeço.
A supervelocidade desliga abruptamente, e a inércia me joga para a realidade física. Caio de joelhos no asfalto sujo e congelado, rasgando minha calça jeans.
Foco! Estou atrás do Posto de Gasolina da Rota 9, um lugar encardido que cheira a óleo diesel, urina velha e desesperança.
Estou totalmente ofegante, e se eu não me alimentar em dez minutos, entrarei em estado de dessecação. Vou virar uma estátua consciente e faminta até que alguém pingue sangue na minha boca.
Ouço passos. Pesados. Botas com biqueira de aço esmagando o cascalho.
— Ei... Garota?
O som é grave, parece arranhado por anos de cigarro barato.
Levanto a cabeça, o movimento é lento, doloroso. Um homem está parado a dois metros de mim. Macacão azul manchado de graxa, um boné desbotado com o logo de um time de beisebol irrelevante, segurando uma flanela oleosa.
Ele me vê: uma adolescente pálida, caída nos fundos do posto, tremendo, o instinto humano dele dispara, o instinto de "ajudar", eu acredito.
— Você está bem? — Ele dá um passo à frente, o cheiro dele me atinge como uma marreta. Suor azedo, tabaco mentolado e, por baixo de tudo isso, o cheiro rico, ferroso e pulsante de sangue A positivo. — Bebeu demais? Quer que eu chame alguém?
Ele se abaixa, ele estende a mão para tocar meu braço.
— Não me toque — aviso, minha voz é um sussurro seco, sem força.
— Calma, não vou te machucar... vou chamar uma...
Ele toca meu ombro, o calor da mão dele atravessa minha jaqueta. Não há decisão consciente, apenas fome e oportunidade.
Antes que ele possa piscar, antes que ele possa terminar a frase, minha mão dispara e agarra o pulso dele. Não com a delicadeza que usei com Miku. Agarro com força total, ouço o crack úmido dos ossos do rádio e da ulna se partindo sob meus dedos.
Ele abre a boca para gritar, mas eu me movo mais rápido que o som.
Puxo-o para baixo, minha outra mão vai para a nuca dele, segurando a cabeça no lugar. Meus dentes descem.
Rasgo a jugular.
O grito morre na garganta dele, afogado em um borbulhar quente. O sangue jorra, quente, vivo, salgado.
Eu bebo tudo, bebo com a voracidade de um animal faminto, ignorando os últimos chutes fracos das botas dele contra o asfalto, ignorando o terror nos olhos que vão ficando vidrados.
Em trinta segundos, acabou.
O coração dele dá um último espasmo sob minha mão e para.
Solto o corpo, ele cai pesadamente sobre a neve suja, parecendo um saco de roupas velhas.
Fico ali, agachada, limpando o canto da boca com as costas da mão enluvada. O tremor parou, a visão está nítida novamente, cristalina e perfeita. Sinto a força voltar aos meus músculos, o calor roubado se espalhando pelos meus membros.
Olho para o homem. O crachá no peito diz "Jerry".
Não sinto culpa, não sinto remorso. Ele era alimento e eu sou o topo da cadeia alimentar, e ele teve o azar de cruzar com um predador faminto. É a lei da natureza, já fiz isso milhares de vezes.
Mas então, a imagem de Miku invade minha mente.
Miku me oferecendo chocolate. Miku tocando meu rosto com preocupação. Miku achando que eu sou "uma salvadora" da história dela.
Se ela me visse agora... com o sangue de Jerry manchando meu queixo, agachada sobre um cadáver atrás de uma caçamba de lixo... ela não veria uma heroína. Ela veria o monstro.
É estranho, antes de Miku, matar era tão banal quanto respirar. Agora, enquanto olho para os olhos abertos e vazios desse tal Jerry, sinto um peso incômodo. Não por esse homem, mas pela mentira que estou construindo. Quanto mais perto Miku chega, mais perigosa eu me torno para ela.
Eu nunca fiquei tão descontrolada por tão poucas horas de sede...
Eu a salvei de uma bolada no rosto hoje... e matei um homem inocente uma hora depois. Levanto-me. Chuto um pouco de neve suja para cobrir o rosto dele, para não ter que olhar.
Viro as costas e caminho para casa. Agora tenho energia para correr, mas prefiro andar, preciso pensar em como explicar isso ao meu pai.
A mansão está silenciosa. Viktor está na biblioteca, sentado em sua poltrona de couro, lendo um jornal financeiro impresso (ele odeia tablets).
Entro na sala, ainda cheiro a sangue fresco e diesel. Viktor não levanta os olhos do jornal.
— Você está atrasada para o jantar — ele diz, a voz calma e monótona. — E está cheirando como um caminhoneiro sujo.
— Tive um... imprevisto — digo, parando perto da porta. — Fiquei com sede voltando da escola.
Viktor abaixa o jornal lentamente. Ele me analisa com aqueles olhos azuis quase cinzentos que viram impérios caírem. Ele vê a mancha escura na gola da minha jaqueta. Ele sabe exatamente o que aconteceu.
— Onde? — ele pergunta. Apenas isso.
— Posto da Rota 9. Atrás das latas de lixo, era um funcionário .
— Testemunhas?
— Nenhuma e as câmeras de segurança não cobrem o ponto cego dos fundos.
Viktor suspira, como se eu tivesse dito que quebrei um vaso caro, e não tirado uma vida humana. Ele dobra o jornal meticulosamente e o coloca na mesa lateral.
— Descuidado, Clara. Muito descuidado, nós não caçamos onde moramos, a menos que seja absolutamente necessário.
— Eu ia entrar em colapso — defendo-me, mas sem muita convicção. — Foi necessário.
Viktor se levanta. Ele caminha até um armário antigo, pega um telefone que mantém para "limpezas".
— Vá tomar banho — ele ordena, discando um número de memória. — Tire essas roupas e queime-as na lareira da sala.
— E o corpo? — pergunto.
Viktor leva o telefone ao ouvido, olhando para mim com uma indiferença gélida.
— Vou ligar para o Xerife Miller, ele me deve favores desde a última eleição, vamos fazer parecer um acidente. O pobre frentista... — Viktor faz uma pausa dramática, sem um pingo de emoção — ...era conhecido por beber no trabalho. Escorregou no gelo, bateu a cabeça, os cães vira-latas da cidade fizeram o resto, trágico.
Ele acena com a mão, dispensando-me.
— Vá, Clara, e tente se alimentar direito da próxima vez. Não quero ter que limpar sua bagunça de novo tão cedo.
Subo as escadas, enquanto a água quente do chuveiro leva o sangue de Jerry... quer dizer, daquele humano pelo ralo, penso em como a vida humana sempre foi tão frágil e descartável para nós.
E penso em Miku, tão frágil quanto Jerry, tão descartável para Viktor quanto Jerry foi. E pela primeira vez em trezentos anos, a indiferença do meu pai pelos humanos me assusta.
As notícias em cidades pequenas não correm, elas se espalham como uma infecção viral.
Eu imaginei que o fim de semana serviria como um amortecedor, que dois dias sem aulas seriam tempo suficiente para a cidade digerir a tragédia de sexta-feira à noite e cuspi-la na segunda como apenas mais uma estatística de inverno. Humanos têm memória curta para a desgraça alheia, afinal.
Mas eu estava errada.
Na segunda-feira de manhã, a atmosfera da North Hollow High está pesada. Não há a energia elétrica habitual de fofocas adolescentes sobre namoros ou notas. O ar está cinza, úmido e silencioso.
Com minha audição aguçada, capto os sussurros antes mesmo de chegar ao meu armário. Palavras soltas flutuando no corredor: "encontrado cheio de mordidas", "congelado", "atrás do posto".
O trabalho de Viktor foi impecável, a narrativa oficial já está estabelecida: Gerald "Jerry" Higgins, 42 anos, funcionário noturno, escorregou no gelo bêbado na sexta-feira à noite, bateu a cabeça e morreu de hipotermia, um acidente trágico, mas previsível para um homem com seus vícios.
Fecho meu armário com força excessiva, o metal faz um barulho enorme. Viro-me e vejo Miku.
Ela não está apenas triste, ela está devastada...
Ela está sentada em um banco perto de uma janela, abraçada aos próprios joelhos. Os olhos estão inchados, vermelhos, brilhantes de lágrimas que não param de cair. Ela parece pequena, frágil, como se a gravidade estivesse puxando-a para baixo com mais força do que o resto de nós.
O instinto predador em mim recua, o que surge é algo pior: o protetor. Caminho até ela, meus passos são pesados.
— Miku? — chamo.
Ela levanta o rosto e quando me vê, ela não tenta esconder a dor, ela desmorona.
— Clara... — Ela soluça, estendendo a mão para mim como se eu fosse uma boia em mar aberto.
Eu seguro a mão dela, sem saber direito se é isso que ela quer, a pele dela está muito quente, febril de choro. Eu sou a causa disso?
— Eles acharam o Jerry... — ela diz, a voz embargada. — Ele morreu. Sozinho. No frio. Sento-me ao lado dela, rígida.
— É, eu soube. Sinto muito. Você... o conhecia bem?
Era para ser uma pergunta retórica. Um frentista de posto e uma estudante do ensino médio não deveriam ter conexão. Mas a resposta de Miku é um soco sobre eu sempre achar estar certa sobre os humanos.
— Ele era o único que me ajudava — ela sussurra, limpando o nariz na manga do casaco.
— Quando meu pai bebia demais e desmaiava no posto... o Jerry não chamava a polícia. Ele me ligava, me ajudava a colocar meu pai no carro. Ele me dava chocolate quente enquanto eu esperava meu pai acordar um pouco.
Sinto o sangue (o sangue dele) gelar no meu sistema.
— Ele nunca me julgou — Miku continua, as palavras saindo rápidas, desesperadas. — Ele tinha alguns problemas com a bebida também, mas ele tentava, sabe? Ele me mostrava
fotos do filho dele, o Tommy, que mora com a ex-esposa em Ohio. Ele estava juntando dinheiro para visitar o menino no Natal. Ele dizia: "Miku, aguenta firme, nem mesmo aqui, o inverno não é pra sempre".
A frase ecoa na minha cabeça. Invernos acabam sim. Para Jerry, o inverno acabou na sexta-feira à noite, entre meus dentes... Eu matei o aliado secreto de Miku.
Eu não consigo ficar aqui — Miku diz, levantando-se bruscamente e balança, tonta.
— Vou te levar para casa — digo imediatamente.
— Não precisa, eu vou andando...
— Eu disse que vou te levar. — Minha voz sai mais dura do que pretendo, mas é a única maneira de manter o controle. — Vamos.
Saímos da escola, o céu está branco, ameaçando mais neve.
Caminhamos lado a lado pela calçada coberta de gelo escorregadio. O caminho até a casa de Miku é longo, serpenteando pelas ruas mais humildes da cidade.
Miku fala o caminho todo, é como se ela precisasse manter Jerry vivo através das palavras.
— A última vez que o vi foi na Fogueira de Inverno — ela diz, olhando para os próprios pés enquanto caminha. — Ele estava lá.
Eu paro de andar por um segundo, o flash de memória explode na minha mente.
A Fogueira, quinta-feira. Eu estava observando Miku da orla da floresta, ela estava rindo. Havia um homem com ela sim. Um homem mais velho, com um boné de beisebol surrado e um copo de isopor na mão...
”Ela está conversando com um senhor idoso, provavelmente um vizinho…” foi o que pensei na hora. Ignorei-o. Ele era irrelevante. Ele era apenas parte do cenário.
Agora, a imagem ganha foco na minha memória fotográfica, o macacão azul por baixo do casaco, o sorriso gentil e cansado, era ele.
Foi ele quem fez Miku rir naquela noite. Foi ele quem estava lá antes de Jessica chegar e estragar tudo.
Eu matei o homem que a fez sorrir.
— Clara? — Miku para e olha para trás. — Tudo bem?
— Tudo. Só... o gelo tá muito escorregadio. Vamos.
Continuamos, cada passo em direção à casa dela parece uma condenação. Eu sou uma fraude, uma vergonha para minha espécie, estou caminhando ao lado da vítima, fingindo ser sua protetora, quando na verdade sou o monstro que espreita nos becos.
Chegamos à casa dos Nakahara, é uma construção que já viu dias melhores, com a pintura descascando e uma varanda que range com o vento, as janelas estão escuras e carro do pai dela não está na garagem.
— Ele não está — Miku diz, e vejo os ombros dela relaxarem, mas apenas um pouco. — Provavelmente no bar.
Ela para no degrau da varanda e se vira para mim, o vento agita o cabelo dela, colando os fios nas bochechas molhadas.
— Obrigada por vir comigo, Clara. Eu sei que você não gosta de... sentimentos e se importar.
— Eu não me importo — minto. — Com você.
Miku me encara, seus olhos buscam os meus, procurando algo que ela acha que existe em mim: bondade, mas ela não vai encontrar. Mas o que ela vê, estranhamente sempre interpreta como afeto.
Ela segura a maçaneta da porta, mas hesita enquanto olha para a casa vazia e escura, depois para mim.
— Não vai embora ainda — ela pede, num sussurro. — Por favor, se eu ficar sozinha agora, vou começar a pensar no Jerry congelando lá fora e...
A voz dela quebra.
Eu deveria ir, minha presença é uma profanação, eu ainda estou com o sangue do amigo dela circulando no meu sistema, me mantendo forte, me mantendo viva. Entrar na casa dela, no santuário dela, é o cúmulo da traição.
Mas olho para o tremor nas mãos dela.
— Tudo bem — digo, selando meu destino.
Miku sorri de leve e abre a porta, o interior da casa cheira a poeira antiga e tristeza estagnada.
— Vamos subir — ela diz, tirando as botas na entrada. — Meu quarto é o único lugar quente aqui.
Eu a sigo escada acima, os degraus rangem sob meu peso, como se a casa estivesse tentando alertá-la: O monstro entrou, tem um monstro subindo.
Ela abre a porta do quarto, é um contraste chocante com o resto da casa. É pequeno, mas cheio de vida. Luzes de natal coloridas penduradas nas paredes, fotos coladas com fita adesiva (nenhuma da mãe, noto com pesar), estantes de livros abarrotadas e, sobre a escrivaninha, a câmera que eu consertei, reinando como um troféu.
Miku se senta na cama, puxando um edredom grosso para o colo e bate no espaço vazio ao lado dela.
— Senta aqui.
Eu me sento na beira da cama, o colchão afunda. Estou perigosamente perto, sinto o calor do corpo dela irradiando, o cheiro de cerejas, mel e luto.
— Me conta alguma coisa, Clara — ela pede, fechando os olhos, exausta. — Qualquer coisa, só para abafar o silêncio.
Olho para o perfil dela, para os cílios úmidos contra a pele pálida. Eu poderia contar a verdade. Eu o matei, Miku. Eu o drenei até a última gota e o joguei na neve como lixo.
Mas sou egoísta, sou uma Alexandrova e sou uma covarde…
O silêncio no quarto de Miku não é vazio, é preenchido pelo som da respiração dela e pelo zumbido das luzes de natal na parede. Estamos sentadas na cama, ombro a ombro, o calor dela atravessa as camadas da minha roupa preta, uma intrusão bem-vinda na minha temperatura cadavérica.
— Você tem sotaque — Miku diz de repente, virando o rosto para me estudar, os olhos dela já não estão tão vermelhos, a curiosidade começando a vencer a tristeza. — É leve, mas aparece quando você fala certas palavras. Como "inverno" ou "não".
— Minha família é da Rússia — admito, uma meia-verdade segura. — Nos mudamos muito, mas o sotaque dos meus pais é forte, acaba pegando.
— Rússia... — Ela parece testar a palavra na língua. — Isso explica seu costume com o frio, vocês são de algum lugar com neve também?
— Sibéria, originalmente. — As meias verdades fluem fácil. — Minha família é antiga, velhos hábitos, velhas tradições. Eles não gostam muito do mundo moderno.
— E você? — ela pergunta, inclinando a cabeça. — Você também odeia o mundo moderno?
— Eu tolero — dou de ombros, decidindo compartilhar um segredo, algo que quebre a imagem de boneca de porcelana gótica que eu projeto. — Mas gosto de carros antigos, tenho um Chevelle SS 1970.
Os olhos de Miku se arregalam. — Um muscle car? Você?
— Restaurei o motor eu mesma, V8 big-block, meu pai odeia, diz que é barulhento e vulgar para uma mulher, mas é a única coisa que eu realmente sinto que me pertence.
— Mas eu nunca te vi com ele na escola — ela diz, franzindo a testa. — Você sempre chega naquele sedan preto com seu pai, não trouxe para a cidade?
— Está na garagem, coberto por uma lona — explico, gesticulando para a janela congelada.
— A neve está muito alta, a tração traseira dele é não é para tanto gelo, ele tem torque demais. Não foi feito para deslizar, foi feito para queimar asfalto seco, então preciso esperar a primavera, ou pelo menos as estradas limparem.
Miku sorri, um sorriso tímido, mas genuíno, o primeiro que vejo hoje. Ela se inclina um pouco mais na minha direção. O cheiro de cerejas fica mais forte e inebriante.
— Me promete uma coisa? — ela pede.
— O quê?
— Quando a neve baixar... me leva para dar uma volta? Quero ver você dirigindo algo que não seja "apropriado" para uma Alexandrova.
Olho para ela, para a esperança naqueles olhos castanhos que vi tanta tristeza hoje.
— Prometo. — A palavra sai rouca, selando um pacto perigoso. — Você vai ser a primeira passageira.
O ar no quarto muda, fica mais denso, carregado de eletricidade estática. Miku não recua, pelo contrário, ela se inclina mais um centímetro. O rosto dela está perigosamente perto do meu, consigo contar as leves sardas no nariz dela, consigo ver o pulso acelerado na base do pescoço.
Ela olha para a minha boca e depois sobe para os meus olhos azuis.
Meu coração morto não bate, mas minha mente entra em curto-circuito. Ela quer me beijar! A presa quer beijar o predador, eu deveria me afastar, eu deveria dizer que sou perigosa, que minha boca tem gosto de sangue coagulado e mentiras.
Mas eu fico parada, hipnotizada pela gravidade dela.
— Clara... — ela sussurra, e as pálpebras dela tremem, começando a fechar.
Estou prestes a inclinar a cabeça, estou prestes a cometer o erro fatal de provar a vida dela... Vrrrrooooom... clunk-clunk…
O som me atinge como um tiro, ainda está a três quarteirões de distância, mas minha audição vampírica reconhece o padrão. Um motor desregulado, correia do ventilador chiando, suspensão batendo nos buracos da rua.
Travo, minha mão, que estava subindo sem minha permissão para o rosto dela, para no ar.
— Pare — digo, ríspida.
Miku abre os olhos, confusa e ferida pela rejeição súbita. — O quê? Eu fiz algo erra...
— Tem um carro chegando — corto, virando a cabeça para a janela. Miku franze a testa. — Eu não estou ouvindo nada.
Cinco segundos depois, o som se torna audível para ouvidos humanos. O barulho do motor velho subindo a rua silenciosa e os faróis varrem a janela do quarto, projetando sombras longas e distorcidas nas paredes.
A cor drena do rosto de Miku instantaneamente. A garota que estava quase me beijando desaparece, no lugar dela, surge uma criatura aterrorizada.
— É ele — ela sussurra. O pânico na voz dela é visceral. — Meu Deus, ele voltou cedo, ele nunca volta cedo.
O som da porta do carro batendo lá embaixo faz Miku pular da cama.
— Você tem que sair — ela diz, girando pelo quarto em desespero. — Não, não dá tempo, a porta da frente é a única saída... A janela? Não, é muito alto...
— Miku, acalme-se — digo, levantando-me.
Tento dizer que posso pular da janela sem um arranhão, mas ela me agarra pelos ombros, as unhas cravando no meu casaco. — Esconde, por favor, se esconde Clara. Se ele te vir aqui... ele não deixa eu trazer ninguém, ele vai... ele vai ficar louco. Por favor!
Ela aponta para o guarda-roupa de madeira escura no canto.
— Você está falando sério? — pergunto, incrédula. Sou uma vampira de trezentos anos de família real.
— Por favor! — Ela está implorando, lágrimas voltando aos olhos. — Entra. Agora!
Ouço a chave girar na porta da frente lá embaixo, o som pesado de botas no hall de entrada.
Não posso lutar contra o medo dela então entro no guarda-roupa. Miku fecha as portas na minha cara.
Estou na escuridão, o espaço é apertado, cheio de casacos de inverno e roupas que cheiram a ela e uma leve naftalina. Sinto-me ridícula. Humilhada. Mas fico imóvel, observando pela fresta.
Ouço os passos subindo a escada, pesados e irregulares. Ele tropeça no terceiro degrau, pragueja algo ininteligível.
A porta do quarto se abre, não batem, apenas a invasão.
— Miku? — A voz é pastosa, arrastada pelo álcool, mas há uma subcamada de agressividade nela que faz meus pelos arrepiarem.
— Oi, pai — a voz de Miku é fina, trêmula. — Você... voltou cedo.
Pela fresta minúscula entre as portas do guarda-roupa, eu vejo. O Sr. Nakahara é um homem grande, mas flácido, como se a bebida tivesse derretido seus músculos. Ele está com a camisa para fora da calça, o rosto vermelho e suado. Ele não olha para Miku como um pai olha para uma filha, ele olha para o quarto como se fosse o dono de cada centímetro quadrado, inclusive dela.
— A cidade inteira só fala que acharam o Jerry — ele solta, entrando no quarto. As palavras saem arrastadas, o cheiro de uísque barato e vômito invade o ambiente, sobrepondo o cheiro perfeito de Miku. — Aquele idiota morreu do jeito que viveu: bêbado e inútil, congelado feito uma pedra.
— Eu soube — Miku responde, recuando até as costas baterem na escrivaninha, a voz dela é um fio de medo. — Isso é muito triste.
— Triste? — Ele ri, um som feio e úmido. Ele caminha até ela, invadindo seu espaço pessoal de um jeito nojento, pega uma mecha do cabelo dela e enrola no dedo grosso. — Você ficou choramingando o dia todo por ele, não ficou? Aquele quem te dava doces, achou que eu não sabia? Que eu não sabia sobre vocês?
— Pai, por favor, você bebeu... vai deitar.
— Não me mande deitar na minha própria casa! — O grito explode de repente, fazendo Miku se encolher. — Eu ouvi vozes aqui dentro. Com quem você estava falando?
— Ninguém!.
— Mentirosa. — Ele se inclina, o rosto a centímetros do dela. — Você tem os olhos da sua mãe, mentirosos e frios, acham que são melhores que eu?
Eu vejo a mão de Miku tremer atrás das costas, sinto uma fúria crescer no meu peito. Eu poderia sair agora, poderia arrancar a cabeça dele com um puxão.
Mas o medo de Miku me paralisa, o terror dela é tão absoluto que sinto que, se eu sair, a vergonha a mataria antes que ele pudesse tocá-la.
— Eu não sou melhor que ninguém, pai. Só quero dormir.
O Sr. Nakahara a encara, o olhar dele oscila entre o ódio e uma possessividade doentia que me faz querer o matar ainda mais.
— Você não vai me deixar... — ele sussurra, a voz pingando veneno. — Igual a ela, você fica aqui.
Então, sem aviso, a mão dele voa.
CRACK.
O som de carne batendo em carne é alto no quarto pequeno. Um soco de costas de mão, direto na maçã do rosto de Miku.
Ela não grita, o impacto joga a cabeça dela para o lado, e ela bate o quadril na escrivaninha, caindo sentada no chão.
Meu corpo inteiro se projeta para frente, minha mão toca a madeira da porta do guarda-roupa. Vou matar ele! Vou matar ele agora!
Mas Miku não se mexe, ela fica no chão, a mão no rosto, sem emitir um som. Aceitando, como se fosse rotina?
O pai dela oscila, perdendo o equilíbrio com o próprio golpe. Ele leva a mão à boca, o rosto ficando esverdeado, ele se vira, cambaleando em direção à porta.
— Olha o que você me faz fazer... — ele resmunga, culpando-a.
Ele chega ao corredor, ouço o som inconfundível de retração gástrica. E então, o som de vômito batendo no chão de madeira do corredor.
— Limpe isso — ele murmura, e sai arrastando os pés em direção ao próprio quarto, a porta dele bate.
Silêncio.
Miku continua no chão.
Eu chuto a porta do guarda-roupa, a madeira estala quando as portas se abrem violentamente.
Saio como uma tempestade, estou tremendo de raiva tão pura que minha visão está tingida de vermelho nas bordas.
— Miku... — Minha voz é um rosnado baixo.
Caminho até ela, quero levantá-la, quero correr até o quarto do pai dela e fazer com ele o que fiz com Jerry, mas mais devagar. Muito mais devagar.
Miku levanta a cabeça, o lado esquerdo do rosto dela já está inchando, vermelho e roxo. O lábio está cortado, mas o que me para não é o ferimento. É o olhar dela.
Não há alívio por eu estar ali, há humilhação. Humilhação pura e excruciante.
— Por que você não se defendeu? — pergunto, a voz subindo uma oitava, incrédula. — Miku, ele te deu um soco! Há quanto tempo isso acontece? Há quanto tempo você deixa ele fazer isso?
Estou gritando agora, gesticulando para a porta.
— Você tem que sair daqui! Você tem que denunciar ele!
— CALA A BOCA! — Miku grita de volta, soluçando. Ela se encolhe, abraçando os próprios joelhos, escondendo o rosto. — Por favor, Clara... só cala a boca.
— Não vou calar a boca! Ele te machucou!
— E o que você quer que eu faça? — Ela levanta o rosto molhado de lágrimas e sangue. — Ele é meu pai! Ele é tudo o que eu tenho! Se ele for preso, eu vou para um lar adotivo em outro estado! Eu perco tudo!
— Você chama isso de "tudo"? — aponto para o quarto, para o vômito no corredor. — Isso é um inferno, Miku!
— É o meu inferno! — ela soluça. — Você não entende... você tem sua família perfeita, rica e tradicional... você não sabe o que é não ter para onde ir.
As palavras dela me atingem, a ironia amarga. Minha família "perfeita" de monstros.
— Clara, por favor... — A voz dela quebra, voltando a ser um sussurro implorante, ela não me olha nos olhos, ela olha para o chão, envergonhada demais para encarar a garota que ela quase beijou minutos antes. — Vai embora.
— O quê? Eu não vou te deixar aqui com ele.
— Ele desmaiou, ele não vai acordar até amanhã. — Ela passa as costas da mão sob o rosto, como se estivesse tentando limpar o soco. — Por favor, eu não quero que você me veja assim. Eu não quero que você esteja aqui, só... vai embora e não conta nada pra ninguém...
Fico parada no meio do quarto, meus punhos estão fechados com tanta força que poderia esmagar o pai dela por inteiro.
Eu quero ficar, quero consertá-la como consertei a câmera. Mas ela está me expulsando, a vergonha dela é uma barreira que nem minha superforça pode quebrar.
— Você não merece isso — digo, a voz dura e fria. — Ninguém merece isso.
Miku não responde, apenas esconde o rosto nos braços novamente.
Vou até a janela, abro o trinco. O vento gelado entra, trazendo neve para dentro do quarto quente.
Olho para ela uma última vez, a garota quebrada no chão, iluminada pelas luzes de natal, que deveria estar me impedindo de pular de tão alto. Salto para a noite, deixando-a sozinha com seus demônios, enquanto eu carrego os meus de volta para a mansão.
Continua...
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