A neve, pelo menos, é familiar.
Ela cai em silêncio absoluto do lado de fora da janela do meu quarto, cobrindo a paisagem cinzenta de North Hollow com um manto branco que promete enterrar tudo. É a única coisa que eu respeito neste continente. A neve não se importa, ela apenas cai, gela e mata o que não está preparado.
Eu estou preparada, sempre estou.
— Clara? — A voz da minha mãe, Katerina, ecoa do andar de baixo. Não é um grito; vampiros da nossa linhagem não precisam gritar para serem ouvidos. A voz dela sobe pelas vigas de madeira nobre, fria e polida como mármore. — O carro já está ligado, seu pai não gosta de esperar.
Olho para o espelho. A garota que me encara de volta tem a mesma aparência desde 1709. O cabelo preto, que deixou cair em camadas desordenadas sobre o rosto, serve como uma cortina entre mim e o mundo. A pele pálida, pontilhada levemente por sardas que um dia eu odiei e agora apenas ignoro, está livre de rugas, livre de tempo e livre de espinhas, apenas vantagens.
— Estou descendo — murmuro.
Ajeitou a camiseta marrom larga da Dickies que estou usando. Roupas humanas modernas são ridículas, tecidos sintéticos e logotipos sem alma, mas a regra número um da família Alexandrova é: Misture-se. Se os adolescentes usam marcas estúpidas, nós usamos marcas estúpidas. Se eles ouvem música barulhenta, nós compramos fones de ouvido.
Pego minha mochila. Ela está quase vazia, exceto por um caderno em branco e uma caneta. Não preciso aprender História, eu vivi a História. Não preciso de Biologia, sei exatamente onde cada artéria humana pulsa e quantos litros de sangue são necessários para me saciar.
Desço as escadas, a casa que meu pai, Viktor, comprou é uma mansão vitoriana afastada da cidade, perto da orla da floresta. Isolada e perfeita, o cheiro de móveis antigos e poeira foi substituído pelo aroma metálico e estéril da nossa família.
Viktor está no banco do motorista, vestindo um sobretudo caro. Ele parece ter menos de quarenta anos, embora seja cinco séculos mais velho que eu.
— Lembre-se, Clara — diz ele, sem olhar para mim, ajustando as luvas de couro. — Baixo perfil. Nada de excelência acadêmica, nada de brigas, nada de... lanches não autorizados.
— Eu sei, pai — respondo, a voz monótona. — É a décima sétima vez que faço o Ensino Médio. Acho que peguei o jeito.
— A Rússia ficou pequena para nós — Katerina aparece, tocando meu ombro com suas unhas longas e perfeitas. — Aqui é seguro. As pessoas são simples... não as assuste.
Não respondo, saio para o frio cortante. Para um humano, estaria congelando. Para mim, é apenas uma brisa.
— A escola de North Hollow cheira a hormônios, desodorante barato e ansiedade.
Assim que empurrou as portas duplas de metal, o barulho me atinge. Centenas de corações batendo. Tum-tum. Tum-tum. O som é uma cacofonia rítmica que tive que aprender a bloquear séculos atrás. Se eu focar, posso ouvir o sangue correndo nas veias do zelador no final do corredor. Posso ouvir o açúcar queimando no sistema de um garoto que está comendo uma barra de chocolate.
Caminho pelo corredor principal, mantendo os olhos baixos. A estratégia é sempre a mesma: ser a garota esquisita, a gótica silenciosa, a "estrangeira" que não fala muito. As pessoas tendem a evitar o que não entendem, e eu conto com isso.
A primeira aula é Literatura. O professor, Sr. Evans, um homem com cheiro de café velho e resignação, aponta para uma carteira vazia no fundo.
— Turma, temos uma aluna nova vinda da Europa. Clara... Alexandrova?
— Sim — digo, caminhando até o fundo. Sinto os olhares. Curiosidade. Julgamento. "Quem é ela?", "Viu os olhos dela?", "Ela é meio assustadora".
Sento-me e deixo meu corpo relaxar na cadeira dura, preparando-me para quarenta e cinco minutos de tédio absoluto.
É então que o cheiro me atinge.
Não é o cheiro comum de sangue adolescente, que geralmente cheira a fast food e adrenalina. É algo... floral. Doce. Como flores de cerejeira esmagadas e mel quente. Um
aroma tão puro e potente que minha garganta se fecha instintivamente, e minhas presas, escondidas, vibram na gengiva.
Minha cabeça gira abruptamente para a esquerda, procurando a fonte. E eu a vejo.
Ela está sentada duas fileiras à frente, perto da janela. O cabelo dela é castanho, longo e levemente ondulado, ou talvez está apenas bagunçado pelo vento, capturando a pálida luz do sol de inverno. Ela está de perfil, desenhando algo na margem do caderno. Seus traços são delicados, descendência asiática, talvez japonesa, com uma suavidade que parece deslocada naquela cidade de lenhadores e neve bruta.
Ela vira a cabeça, talvez sentindo meu olhar predatório queimando sua nuca.
Nossos olhos se encontram. Os dela são de um castanho avelã, quentes e confusos. Os meus azuis, mas sei que devem estar escuros, dilatados pela fome repentina.
O nome dela é Miku, está escrito na capa do fichário dela em letras coloridas. Miku.
O sangue dela canta para mim. Não é apenas fome, é uma atração magnética, visceral. Posso ouvir o coração dela: Tum... tum... tum… Está um pouco mais rápido que o dos outros. Está nervosa? Por minha causa?
— Ei — sussurra um garoto na fileira ao lado dela, um brutamontes com uma jaqueta do time da escola. Ele chuta a cadeira dela. — Ei, Japa. Me empresta uma caneta.
Miku se encolhe. É um movimento sutil, mas meus olhos captam. Ela não olha para ele, apenas pega uma caneta do estojo e a estende para trás sem dizer nada.
— Nem vai olhar pra mim? — o garoto ri baixo, pegando a caneta com força, roçando os dedos na mão dela de propósito. — Ficou muda, é?
Sinto uma onda de irritação subir pelo meu peito. Não por altruísmo. Mas porque aquele brutamontes está perturbando a minha presa. Aquele sangue, aquele cheiro... é a coisa mais interessante que me aconteceu nos últimos cinquenta anos, e ele está estragando a pureza do momento com sua estupidez xenofóbica.
Miku olha para frente, o rosto corando levemente. Ela parece acostumada a ser tratada assim...
Aperto a borda da minha mesa, a madeira estala sob meus dedos. Felizmente, o sinal toca naquele exato momento, mascarando o som da madeira se partindo.
Todos se levantam em uma onda de caos. Fico sentada por um segundo, tentando controlar a respiração. Controle, Clara. Você tem 332 anos. Você não é um animal.
— Espero a sala esvaziar. Miku é uma das últimas a sair, juntando seus materiais com cuidado. Quando ela passa pela minha mesa, ela para.
Eu fico totalmente parada, o cheiro dela é avassalador a essa distância. Posso ver a veia azulada pulsando em seu pescoço, logo abaixo da mandíbula. Tão frágil, tão fácil, um movimento rápido e eu poderia...
— Oi — ela diz. A voz dela é suave, musical, com um leve tremor.
Levanto o olhar devagar, encarando-a com minha melhor expressão de tédio mortal, embora meu interior esteja em chamas.
— Você é a aluna nova, né? — ela continua, sorrindo timidamente, um sorriso que não chega aos olhos. — Eu sou a Miku. Bem-vinda a North Hollow. É... bem frio, mas como você morou na Europa deve estar acostumada, certo?
Ela está tentando ser gentil. Ela, a garota que acabou de ser humilhada, está tentando fazer a garota nova e assustadora se sentir bem. Que criatura.. que criatura deliciosa.
Preciso que ela se afaste. Agora. Antes que eu faça algo que obrigue minha família a se mudar novamente e deixe um corpo suspeito demais para trás.
— Eu não estou aqui para fazer amigos — digo, minha voz sai mais rouca do que eu pretendia, baixa e perigosa.
O sorriso de Miku vacila. Ela pisca, confusa com a frieza.
— Ah. Desculpe. Eu só...
— Não — cortou, levantando-me abruptamente. Fico muito perto dela, invadindo seu espaço pessoal de propósito para intimidá-la. Inspiro o cheiro dela uma última vez, uma tortura masoquista. — Fique longe de mim.
Passo por ela, esbarrando levemente em seu ombro, e saio para o corredor lotado, deixando-a parada lá, sozinha e confusa.
Meu coração morto parece pesar uma tonelada no peito. Eu quero voltar, eu quero pedir... Desculpas? Eu quero sentir o gosto dela.
— Vai ser um ano longo — sussurro para mim mesma.
O carro de Viktor desliza pelo asfalto congelado como um tubarão em águas profundas. O interior cheira a couro caro e ao silêncio opressivo que minha família aperfeiçoou ao longo dos séculos. Ele não pergunta como foi meu dia, ele não precisa, para ele, a escola é apenas um disfarce, uma burocracia necessária para manter nossa caça invisível.
Chegamos em casa. A mansão vitoriana se ergue contra o céu escurecido, uma silhueta de dentes irregulares e janelas escuras.
O jantar é servido às dezenove horas em ponto, como sempre, independente de qualquer fuso horário.
Nós nos sentamos à longa mesa de mogno. A sala de jantar é iluminada apenas por candelabros, minha mãe insiste que a luz elétrica "mata o ambiente". Talvez ela esteja certa, a luz das velas reflete no líquido escuro e viscoso dentro das taças de cristal diante de nós.
Não comemos comida. A comida humana tem gosto de cinzas e papelão molhado para nós, além de nossos organismos rejeitarem tudo em poucas horas depois.
Katerina ergue sua taça, o líquido rubi balança suavemente, denso. Sangue. Tipo B negativo, provavelmente de algum banco de sangue que Viktor subornou, ou de algum "doador" em uma cidade vizinha. Meus pais não se importam com a origem, contanto que seja fresco.
— Um brinde à nova cidade — diz Katerina, sua voz suave como seda rasgando, levando a taça aos lábios pintados de vermelho.
Eu encaro o meu jantar, a fome é uma criatura constante, arranhando meu estômago, mas hoje... hoje o cheiro deste sangue parece errado. Ele não tem aquele tom floral. Não tem o cheiro de flores de cerejeira e mel.
Não tem o cheiro dela.
Bebo um gole, apenas para silenciar a queimação na minha garganta. O gosto é metálico, salgado, satisfatório de uma forma puramente biológica, mas emocionalmente vazio.
Você está quieta, Clara — Viktor observa — O disfarce está intacto?
— Sim — respondi, limpando um pingo vermelho do canto da boca com o polegar. — Ninguém nota a garota estranha no fundo da sala.
— Ótimo — ele sorri, e seus dentes parecem afiados demais à luz das velas. — Mantenha assim.
Subo para o meu quarto assim que posso. Deito na cama e encaro o teto a noite toda. Não durmo, vampiros não dormem da mesma forma que humanos, nós apenas desligamos, esperamos o sol nascer e odiamos cada segundo da espera.
Continua...
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