Something's Gotta Give



Finalizada em: 12/02/2026.





“Loving you, I thought I couldn't get no higher
Your November rain could set the night on fire, night on fire
But we could only burn so long
Counterfeit emotions only run skin deep
Know you're lying when you're lying next to me, next to me”

Silêncio. Eu estava deitada no peito dele, com suas mãos me acariciando os cabelos. Meus dedos passeavam em círculos sobre seu peito nu, a pele quente em contraste com meus dedos frios.
Nada de “como foi o seu dia, o que você fez de bom, o que te incomodou…”
Os dias e as noites com ele estavam sendo assim: sem muitas interações calorosas, sem muito diálogo profundo. Só o básico.
Ele tinha outra.
E como eu sabia?
Simples: eu sabia. Nós mulheres sempre sabemos.
Pela forma que ele evitava me tocar de forma mais íntima durante a semana, pela forma que respondia às minhas perguntas banais, pela forma que ele nunca puxava assunto, pelos jantares que ele prometia estar em casa e nunca estava, porque estava “atolado de trabalho”.
Pelo cheiro cítrico que estava em suas camisas. Meu cheiro era adocicado, quase infantil. E ela? Bom, ela tinha cheiro de mulher.

“How did we get so far gone?
I should know by now
You should know by now
We should know by now”

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso acabaria acontecendo, afinal de contas quando eu o conheci ele ainda era comprometido…
“Um namoro falido”, ele me dizia. Estava comigo todas as noites depois do trabalho enquanto a namorada o esperava para jantar, que nem eu fazia agora.
“Ainda não me separei porque ela está doente, preciso que ela tenha uma melhora significativa. Você entende, não é amor?”
E eu sei lá porque diabos, eu entendia. Eu ainda entendo.
Agora, que desculpa será que ele inventa sobre mim? Ergui meus olhos para encará-lo apenas para vê-lo já dormindo, com o braço apertado em minha cintura.
Meus olhos passearam por suas feições tranquilas, e eu cedi: passei meus dedos por toda a extensão de seu rosto bonito, me lembrando exatamente um dos porquês eu havia me apaixonado.
Mas não era só bonito.
Ele era delicado, um ótimo ouvinte, conversava sobre todo e qualquer assunto. Ele era carinhoso, de fala mansa e manhosa, suas palavras sempre eram doces, sempre pronto para consolar e aconselhar…
Seus olhos sempre profundos e atenciosos, suas mãos sempre prontas para acariciar e tocar. O sexo era incrível, apaixonado, cheio de palavras românticas e promessas que te faziam ir ao céu muito antes do toque…
Tudo nele era um convite para ficar.
Eu fiquei. Mas por quanto tempo?

“I have never heard a silence quite so loud
I walk in the room and you don't make a sound, make a sound
You're good at making me feel small
If it doesn't hurt me, why do I still cry?
If it didn't kill me, then I'm half alive, half alive”

Eu andava de um lado para o outro no quarto enquanto me encarava em silêncio. A discussão que antecedeu o silêncio havia sido estrondosa. A cama estava desarrumada, alguns cacos de vidros do copo que eu havia jogado na parede estavam espalhados pelo chão.
As lágrimas desciam livremente pela minha bochecha, mas eu tentava me convencer que aquilo não me machucava mais.
Mas as minhas lágrimas não o comoviam mais. E foi ali que eu percebi…
Não foi uma palavra, não foi um gesto brusco. Foi o olhar.
me olhava como quem já decidiu ir embora, mas ainda não teve coragem de levantar da cadeira. Não havia raiva, nem culpa suficiente para doer. Havia distância. Uma distância fria, educada… quase gentil.
Seus olhos não me atravessavam mais — apenas passavam por mim.
Era como se eu estivesse falando sozinha, como se minha dor fosse um ruído incômodo que ele tolerava por educação. O maxilar dele estava tenso, os braços cruzados, o corpo levemente inclinado para trás. Defesa. Cansaço. Desligamento.
Eu parei de andar.
Porque naquele instante entendi: eu não era mais alguém por quem ele lutaria. Eu era um problema a ser resolvido.

— Você terminou? — ele perguntou, a voz baixa, controlada demais.

Não havia ironia. Não havia crueldade explícita. E talvez por isso doesse tanto.
Meu peito apertou de um jeito quase físico, como se algo dentro de mim encolhesse. Eu me senti pequena. Pequena por ainda estar ali, pequena por ter acreditado, pequena por ter aceitado migalhas vestidas de carinho.
“Como chegamos tão longe?”
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto, evitando meus olhos dessa vez. E eu percebi que ele não evitava por culpa — evitava porque já não importava.
Se não me machucava, por que eu ainda chorava? Se não me destruía, por que eu me sentia só metade viva?
Eu engoli o choro, sentindo o gosto metálico da decepção na boca. Não gritei. Não joguei mais nada. Apenas entendi.
O silêncio entre nós não era mais pesado. Era definitivo.
E naquela quietude cruel, percebi que o amor não tinha acabado de uma vez. Ele tinha ido embora aos poucos — todas as noites em que ele não voltou, todas as perguntas sem resposta, todos os olhares que deixaram de me enxergar.
E agora… ele estava inteiro em outro lugar.
Enquanto eu ainda tentava existir naquele quarto.

“Something's gotta give, something's gotta break
But all I do is give, and all you do is take
Something's gotta change (something's gotta change) No, I know that it won't (I know that it won't)

No reason to stay is a good reason to go
Is a good reason to go
Something's gotta give”

— Me sinto cansada de lutar. De enfrentar sempre as mesmas batalhas. De ter que exigir sempre as mesmas coisas. Me sinto cansada de ser vista por você em alguns momentos, ser o seu único foco, e logo depois sentir que preciso me esforçar ao máximo pra ter a sua atenção . — Limpei as lágrimas e tratei de engolir o choro. — Me sinto cansada de ser deixada por você nos momentos em que eu mais preciso da tua calma. Me sinto cansada de me sentir deixada, de ser trocada, de perceber que não sou assim sua prioridade.

fechou os olhos, parecendo exausto. Eu não me dei por vencida, aquilo seria um ponto final definitivo. Ou eu deixaria que ele continuasse sugando minha alma para dentro dele, e isso acabaria de matar.

— De me sentir enganada. Me sinto cansada de não acreditar em nada mais do que você me diz. Eu fico, porque nunca fui boa em abandonar o barco antes do naufrágio. — Soltei uma risada nasalada, limpando a última lágrima que me permiti deixá-lo ver. — Me sinto cansada … Me sinto cansada, e eu só espero que você saiba que, diferente de você, se eu partir não tem volta. Meu pulmão não possuí mais forças para aguentar isso, estou apenas observando esse filme com um final trágico cravado no roteiro, eu quis me fazer de cega, quis lutar, mas estou tão cansada. O peso das ondas e das tempestades levam embora qualquer paz que a gente costumava ter. Eu não sei mais o que fazer, para onde ir.
— Você acha que consegue sem mim? Digo, sua vida sem mim vai ser o que?

Eu o encarei, sentindo meus batimentos cardíacos voltarem a acelerar.

— E o que é a minha vida com você ? Um emaranhado de mentiras e de tempo perdido. Quanto tempo mais você espera que eu perca com um relacionamento falido como o nosso?
— Falido? , eu vivi por você por anos. Nós fomos felizes, você não pode dizer que não.
— Eu posso! Eu posso e vou dizer, . Porque o céu pode ser bonito e mesmo assim desabar em cima da sua cabeça. E foi o que aconteceu com o nosso relacionamento.

Silêncio. Pesado. Quente. Denso.

— Chega! Você não vai mudar. E eu não vou dividir você com outra mulher até você decidir que prefere estar com ela e me deixar aqui, de joelhos.
— Eu não vou fazer isso. Não existe outra mulher, você está maluca ! Eu amo você, acredito que estamos apenas passando por uma crise.
— Crise? Você chama a sua frieza de crise? , nós mulheres sempre sabemos quando acabou. E para mim acabou faz tempo. Chega! Me deixa sozinha.
— Vou para a casa dos meus pais, você me liga quando tiver mudado de ideia.
— Eu não vou mudar de idéia . Nós acabamos aqui. Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesma, do meu nada, e agora chega.

Ele se levantou, indo em direção ao guarda-roupas. Impassível.

— A vida tem jogado na minha cara que eu posso ser incrível para o outro, mas se eu não for incrível para mim, eu vou continuar vivendo ciclos medíocres que não me cabem.

Ele tirou algumas roupas do cabide com pressa contida, dobrando-as de qualquer jeito. Cada movimento era prático demais para alguém que dizia amar. Não havia hesitação. Não havia tentativa de ficar.
E isso, mais do que qualquer traição, foi o que finalmente me libertou.
Fiquei ali, parada no meio do quarto, observando aquele homem que um dia foi meu porto se transformar apenas em mais alguém indo embora. Não gritei. Não chorei. Não pedi. Pela primeira vez, não implorei por permanência.
Quando ele passou por mim, o cheiro cítrico o acompanhava — estranho, distante, quase ofensivo. parou na porta, como se esperasse que eu dissesse algo. Qualquer coisa que o autorizasse a voltar depois.
Mas eu permaneci em silêncio.
Porque algo dentro de mim, finalmente, tinha se quebrado. E dessa vez, não fui eu.
A porta se fechou com um som seco, definitivo. Não houve música dramática. Não houve corrida atrás dele.
Só silêncio.
E, curiosamente, ele não doeu como antes.
Sentei na beirada da cama desarrumada, os cacos de vidro ainda espalhados pelo chão refletindo fragmentos de quem eu fui ali dentro. Passei os dedos pelo lençol amarrotado e respirei fundo. O ar entrou difícil, mas entrou.
Talvez eu não soubesse ainda para onde ir. Talvez eu estivesse assustada. Talvez eu sentisse falta amanhã.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava me abandonando para manter alguém.
Levantei, abri a janela e deixei o vento frio tocar meu rosto. Doeu. Mas foi um tipo de dor diferente — aquela que acorda, não aquela que consome.
Algo precisava ceder. Algo precisava acabar.
E não foi o amor. Foi a mentira de que eu precisava dele para existir.
Peguei meu casaco, minhas chaves, e saí do quarto que havia sido cenário de tantas promessas quebradas. O corredor parecia longo demais, mas cada passo era meu.
Se amar fosse permanecer, eu teria ficado. Mas amar, às vezes, é ir embora — principalmente quando ficar significa desaparecer.
E, pela primeira vez, eu escolhi a mim.



FIM!!!



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Nota da autora: Um draminha básico. Se tiver gostado deixe um comentário.





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