São Paulo, 2010
Nicole parecia despreocupada com a situação. Como algo rotineiro. Enquanto isso, eu estava em estado de choque e negação, não poderia ser possível que ela tinha feito o que fez. Mas não tinha como ser irreal, a foto estava bem na minha frente e era nítida a imagem. Contextualizando de maneira abrupta: ela havia me traído (de novo).
— Como explicar essa foto, Nicole? O que está havendo? — eu detestava me mostrar vulnerável perante às pessoas. A única que eu me permitia era ela, apenas ela.
— Querido, não é bem assim. Será que consegue me ouvir pelo menos dessa vez? — disse de maneira displicente, diria eu. Soltei o riso preso.
— Eu sempre te escuto, Nic.
— Acha que eu, sua namorada, te trairia assim? Não pensa em tudo que estamos vivendo juntos, meu amor? — sentou-se em meu colo, estávamos em meu apartamento próximo ao centro da cidade. Mordi os lábios, sempre pensativo e, antes mesmo que eu formulasse algum pensamento, ela emendou. — Você é tão bobinho, Lucas. Você entendeu errado…
Eu não sabia, mas aquelas palavras seguiram pulsando em dor no meu coração por anos, apenas para me lembrar do que não fazer. De não deixar mais a história se repetir.
São Paulo, 2026
caminhava tranquilo pelo corredor do shopping do bairro vizinho ao meu. Ao meu lado, minha filha que hoje comemora 10 anos. Muito louco pensar que ela cresceu tão rápido e já tem seus gostos próprios, que não influenciamos mais no que veste ou escuta. Ela é tão ela. Óbvio que possui traços meus e de sua mãe, minha querida e amada esposa. Companheira de tantos anos por quem sou perdidamente apaixonado.
— Pai. — a voz levemente grave de minha filha chamou minha atenção, me fazendo olhar para ela. — Podemos ir naquela loja? — apontou para o lugar. — Mamãe disse que nos encontraria lá. Eu tinha pedido um presente e podemos encontrar naquela loja.
— Claro, aposto que você já tinha esse plano traçado — rimos juntos, tínhamos algumas piadas internas. Minha filha era muito esperta e, vez ou outra, “tramava” planos para conseguir as coisas de mim e de sua mãe.
— Ah, pai, eu me comportei ano passado — agurmentou. — Até mesmo com aquele projeto de macho hétero da minha sala.
— Esquece ele, já conversamos sobre isso — ponderei. Brevemente falando, foi um menino da turma dela na escola com pensamentos opostos ao dela que tentou impor o que ela deveria vestir. Podem fazer o que for, mas nunca dizer o que minha filha deve ou não fazer sem um argumento plausível. — Além do mais, o guri já teve sua lição — ri ao lembrar que minha filha tinha dado uma bela lição de moral no moleque. A criamos bem demais.
Continuamos andando até a loja e, antes de entrarmos nela, fui abordado pelo passado.
— Lucas, quanto tempo!
Aquela voz.
Não havia mudado nada. Ainda me fazia arrepiar de um jeito errado. Nicole estava mais bonita, de fato, os cabelos mais escuros, o rosto mais rosado. Apenas seu olhar opaco seguia o mesmo.
— Sua filha? — nossos olhares caíram sobre minha filha, que me encarava confusa.
— Sim — disse com simplicidade. — Estou com um pouco de pressa, se não se importa — eu já ia saindo, puxando a mãe de minha filha, mas Nicole tocou em meu ombro.
— Podemos conversar? Será rápido.
Conversar? O que você quer de mim? Agora que estou bem, feliz, estável mentalmente depois de você ter destruído minha autoestima… Vai embora, não quero te ver nunca mais em minha vida. Você é o mal! Podre! Um péssimo ser humano, Nicole! Vai pra longe daqui!
— Amor? — minha esposa me despertou de meus pensamentos errados. Eu estava quase chorando de raiva, o coração a mil e uma tremedeira que foi notada por todos, principalmente por minha filha que ainda segurava minha mãe.
— Oi… — respirei fundo e sorri calmamente. — Nicole, eu não posso falar agora-
— Será rápido, Lucas, prometo. — assim como prometeu que não tinha me traído em todas as vezes que a confrontei?
— É, amor, se quiser eu vou adiantar o presente da Kakai e você pode conversar com ela — olhou brevemente para Nicole que parecia se divertir com a situação. Ela não mudou nada.
— Tem certeza? — meu olhar dizia que eu não queria ir, queria ficar com minha família. Porém, já havíamos conversado em algum momento de nossos mais de dez anos juntos que eu deveria, se tivesse oportunidade, confrontar a Nicole e dizer o que eu deveria ter dito antes.
— Será melhor, não se preocupe.
Ela apertou minha mão e me beijou na frente de Nicole. No beijo eu senti a confiança que eu precisava. Assim fizemos, minha esposa levou nossa filha até a loja, enquanto Nicole e eu caminhamos até um banco próximo.
— Sobre o que quer conversar? — nos sentamos, um em cada ponta do banco.
— Não quer comer nada? — rebateu a pergunta com outra me fazendo respirar fundo.
— Vamos direto ao ponto, Nicole. — disse. — Caso não tenha notado, eu estou com minha família.
— Eu também estou com minha filha, mas-
— Deveria ter ficado com ela.
— Você também, mas está aqui não está? — touché.
— Só estou porque minha esposa acha que será bom esclarecermos o passado. Pelo visto é isto que você quer, acertei?
— Você sempre foi esperto. — sorriu, chegando mais perto de mim.
— Não precisa chegar mais perto. Fique aí mesmo, por favor.
— Bom, já vi que não está de bom-humor. — finalmente percebeu. — Você sempre foi assim, quando está mal-humorado ninguém poderia te contrariar.
— Não fale do passado como se tivesse sido bom.
— E não foi?
— Não quero entrar nesse mérito, Nicole. — cortei o assunto. — Diga o que quer conversar.
— Terminamos de uma maneira errada, saí como a vilã quando na verdade fui a vítima.
— Vítima? — minha expressão dizia o quão indignado estava. — Nicole, foi um erro eu ter vindo e-
— Me deixa terminar, Lucas. — me calei e ela prosseguiu. — Você sabe que aquela foto não representava nada.
— Você estar beijando um dos meus amigos da época no mesmo festival de música onde eu também estava não foi nada? — me referi à foto que fez nosso namoro acabar. A fatídica foto onde ela beijava de maneira quente outro cantor.
— Ele era manipulador.
— Assim como você. Se mereciam.
— Lucas, você é muito imediatista. Tenta entender que eu era nova naquela época e deslumbrada com o mundo da música.
— Você nunca foi inocente, Nicole. — rebati. — Me lembro bem que você só namorou comigo pra conseguir aquele trabalho como modelo. Te rendeu um bom contrato, não é?
— Não foi isso, Lucas…
— Sempre foi pelo dinheiro, Nicole, você nunca me amou. — constatei algo que era óbvio para mim na época, mas que eu sempre camuflei. Fato que me fez sofrer muito ao término daquela farsa. — Você me intoxicava e eu custei a perceber.
— Eu te amei, Lucas, te amei muito — Nicole ignorou totalmente o que eu disse e continuou. — Fui feliz ao seu lado, queria que enxergasse isso.
— Porque estava falando disso agora?
— Te ver de novo despertou algo em mim, algo bom — sorriu e se aproximou de vez de mim, recuei.
— Quando eu não tinha ninguém pra você estava tudo bem. Você é inacreditável, Nicole.
— E você adora.
— Quer saber… cansei — me levantei. — Você volta do nada e quer explicar situações e sentimentos de 1900, foda-se, Nicole. Nem isso nem você tem mais importância para mim. Eu te amei e me dediquei a você naquela época. Foi o meu maior arrependimento. Espero que você não destrua mais ninguém assim como você me destruiu no passado.
— Me odeia tanto assim? — ela também se levantou.
— Nem mesmo você merece o ódio em meu coração.
— Não sabia que você estava desse jeito. — o olhar opaco dela me encarou, parado, sem expressão.
— Não sou mais o Lucas de antes, graças a mim que percebi que nem todos merecem o meu amor. Principalmente você. — antes que ela dissesse algo, completei. — Suplico que me esqueça, pois eu já te esqueci.
A deixei sozinha ali e andei até à loja onde minha esposa e filha estavam. Me receberam com um abraço apertado e cheio de amor.
Eu estava bem. Apesar de ter me exaltado, da raiva ter me consumido momentaneamente, tudo que eu quis dizer, eu disse. O alívio ao final era maior que tudo, que todo o sentimento ruim que eu já senti pela Nicole e por mim mesmo à época. Foi muito fácil pra ela me trair, me manipular, me fazer sentir a pior pessoa, o pior namorado, o pior em tudo.
Nosso amor era grande, mas não era nós dois. Não valia pelo casal, nunca valeu. Eu amei sozinho.
"Conheço tanta gente mais louca que você
Mas são pessoas boas tentando viver
Já que não há mais lugar pra você aqui
Suplico que me esqueça, pois eu já te esqueci."
- SÓBRIA, Fresno
Mas são pessoas boas tentando viver
Já que não há mais lugar pra você aqui
Suplico que me esqueça, pois eu já te esqueci."
- SÓBRIA, Fresno
FIM!!!
