Quando você me viu



Última atualização em: 09/01/2026
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Mirrors do Justin Timberlake? tocava nos grandes fones de ouvido de , enquanto ele deixava o corpo fluir no ritmo da música. Ali, na sala de práticas sozinho sentindo o ritmo entrar por suas veias era exatamente onde ele gostaria de estar.
Ali nada o tirava dos eixos, nem as piores lembranças poderiam derrubá-lo quando ele dançava. A dança era parte de sua alma de quem ele era desde os onze anos de idade, quando tudo começou a desmoronar. Ali naquela sala, sentindo o ritmo, sentindo o corpo mover enquanto a adrenalina preenche todo seu ser era onde ele podia ser quem realmente era. A dança era tudo que tinha.
As batidas ecoavam por seus ouvidos enquanto ele se movia ao ritmo da música, se deixando levar por ele. O corpo seguia, fluindo, relaxando, entrando numa espiral de paixão e comprometimento, já que ele queria viver daquilo o resto da vida. Enquanto sentia o corpo se mover seguindo o ritmo, os olhos fechados, o coração pulsando…

Click…click…click…

Os olhos de piscaram três vezes enquanto ele olhava para a foto tirada daquele momento que parecia de alguma forma sagrado e profano ao mesmo tempo.
Sagrado porque o momento parecia ser exatamente assim para o garoto fotografado, concentrado. A foto mostrava um garoto sozinho no centro de uma sala escura, iluminado apenas por um foco suave que recortava seu corpo contra o fundo preto. Ele usava uma regata clara que deixava à mostra seus braços definidos, cada músculo tensionado como se ainda vibrasse com o ritmo da dança. A calça larga, também clara, caía pesada sobre os tênis volumosos, dando a ele uma silhueta solta, fluida, feita para se mover.
O boné abaixado escondia parte do rosto, criando um ar de mistério — como se ele estivesse completamente entregue ao próprio mundo, inalcançável. A cabeça inclinada para baixo e a mão fechada ao lado do corpo davam a sensação de que ele estava no exato segundo entre um movimento e o próximo, quase imóvel… mas não parado.
Havia algo bruto e íntimo naquela imagem. Algo que parecia capturar não só o dançarino, mas o momento em que ele esquecia que existia alguém além dele e da música.

Profano porque havia algo quase indecente em testemunhar aquilo.

A foto capturava um momento que não era para ser visto — a entrega total, o corpo exposto não pela pele, mas pela vulnerabilidade. O jeito como ele inclinava a cabeça para baixo, o modo como os músculos do braço se estendiam sob a luz, a firmeza da postura que sugeria força e fragilidade ao mesmo tempo… tudo isso dava a sensação de estar violando um espaço privado.
O dançarino parecia despido de qualquer máscara, revelado não por roupas faltando, mas por emoção demais.
E havia algo de proibido nisso.
Algo que fazia sentir como se tivesse cruzado um limite invisível: o limite entre observar arte e observar alguém sem que esse alguém soubesse.
Era profano porque a imagem deixava claro que aquele instante era dele — só dele. E, mesmo assim, o havia roubado para si com um simples clique.
Nada havia preparado para aquilo. Para aquela sensação… o nó na garganta, o coração batendo forte no peito, descompassado como nunca antes. A boca seca como se ele estivesse vagando num deserto e de repente tivesse encontrado um oásis.
Voltou os olhos para o garoto dançando outra vez, o corpo se movendo num ritmo que não sabia exatamente qual, mas que mesmo assim sentia no próprio corpo, sem nem sequer saber que música estava tocando. A forma como o moreno dançava era totalmente hipnotizante, como se ele ele dominasse todo o espaço com os movimentos, com o corpo.
Aquilo prendeu os olhos de por mais tempo do que deveria.

Click…click…click…

Ele fotografou mais, as costas tensionadas, as pernas flexionadas, o boné tampando o rosto impedindo que enxergasse totalmente seus olhos. Que cor eles teriam?
voltou a piscar os olhos por três vezes seguidas, e levou a lingua aos lábios finalmente, voltando a olhar as fotos na câmera. Precisava sair de lá o mais rápido o possível, não podia ser visto pelo dançarino misterioso.
Ainda relutante, como se seus pés estivessem fincados no corredor das salas de prática da faculdade, ele deu dois passos para trás, mas antes tirou uma última foto, que acabou saindo tremida e sem qualidade.
Foi embora.

⭐⭐⭐


— Eu deveria ter perguntado a ele antes de tirar essas fotos, droga!

olhava da câmera para o melhor amigo, e do melhor amigo para a câmera. As fotos haviam ficado sensacionais, isso era um fato. era um fotógrafo incrível. E mais do que ninguém sabia disso, ele ainda servia de modelo para o portfólio do amigo.

— Isso é verdade. Você não pode sair por aí tirando foto das pessoas sem que elas saibam, .

Os dois se encararam em silêncio. tomou a câmera das mãos do melhor amigo e a abraçou contra o peito, como se estivesse protegendo algo frágil demais para o mundo tocar — ou como se tentasse impedir que aquela imagem escapasse dele de alguma forma.
deixou um sorriso involuntário escapar com a atitude infantil e quase maternal do amigo com relação à câmera.

— O que será que ele estava pensando? — voltou a olhar para a primeira foto que havia tirado do dançarino misterioso.

deu de ombros, e fez uma espécie de beicinho.

— Isso importa? — cruzou os braços.
— Claro que importa! Fotografar é uma arte, eu sempre quero dizer alguma coisa com as minhas fotografias, .
— E o que você quer dizer com essa foto dele?
— Que ele é visto.

e ele se encararam profundamente e ficaram em silêncio.

— Você está pensando em procurá-lo?
— Como vou achá-lo no meio desse tanto de aluno, ?

soltou um muxoxo, encarando a foto mais uma vez. O coração ainda batia forte no peito dele.

— Talvez o destino cruze o caminho de vocês outra vez. piscou os olhos. Três vezes.
— O destino não vai muito com a minha cara.

soltou um sorrisinho ladino.

— Não provoque o destino .

estreitou os olhos mirando o dançarino misterioso mais uma vez.

— Quem é você?



Continua...



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Nota da autora: Espero que o primeiro capítulo tenha prendido sua atenção, um beijo!








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