Quando você me viu



Última atualização em: 04/05/2026
01 | 02 | 03 | 04




Mirrors do Justin Timberlake? tocava nos grandes fones de ouvido de , enquanto ele deixava o corpo fluir no ritmo da música. Ali, na sala de práticas sozinho sentindo o ritmo entrar por suas veias era exatamente onde ele gostaria de estar.
Ali nada o tirava dos eixos, nem as piores lembranças poderiam derrubá-lo quando ele dançava. A dança era parte de sua alma de quem ele era desde os onze anos de idade, quando tudo começou a desmoronar. Ali naquela sala, sentindo o ritmo, sentindo o corpo mover enquanto a adrenalina preenche todo seu ser era onde ele podia ser quem realmente era. A dança era tudo que tinha.
As batidas ecoavam por seus ouvidos enquanto ele se movia ao ritmo da música, se deixando levar por ele. O corpo seguia, fluindo, relaxando, entrando numa espiral de paixão e comprometimento, já que ele queria viver daquilo o resto da vida. Enquanto sentia o corpo se mover seguindo o ritmo, os olhos fechados, o coração pulsando…

Click…click…click…

Os olhos de piscaram três vezes enquanto ele olhava para a foto tirada daquele momento que parecia de alguma forma sagrado e profano ao mesmo tempo.
Sagrado porque o momento parecia ser exatamente assim para o garoto fotografado, concentrado. A foto mostrava um garoto sozinho no centro de uma sala escura, iluminado apenas por um foco suave que recortava seu corpo contra o fundo preto. Ele usava uma regata clara que deixava à mostra seus braços definidos, cada músculo tensionado como se ainda vibrasse com o ritmo da dança. A calça larga, também clara, caía pesada sobre os tênis volumosos, dando a ele uma silhueta solta, fluida, feita para se mover.
O boné abaixado escondia parte do rosto, criando um ar de mistério — como se ele estivesse completamente entregue ao próprio mundo, inalcançável. A cabeça inclinada para baixo e a mão fechada ao lado do corpo davam a sensação de que ele estava no exato segundo entre um movimento e o próximo, quase imóvel… mas não parado.
Havia algo bruto e íntimo naquela imagem. Algo que parecia capturar não só o dançarino, mas o momento em que ele esquecia que existia alguém além dele e da música.

Profano porque havia algo quase indecente em testemunhar aquilo.

A foto capturava um momento que não era para ser visto — a entrega total, o corpo exposto não pela pele, mas pela vulnerabilidade. O jeito como ele inclinava a cabeça para baixo, o modo como os músculos do braço se estendiam sob a luz, a firmeza da postura que sugeria força e fragilidade ao mesmo tempo… tudo isso dava a sensação de estar violando um espaço privado.
O dançarino parecia despido de qualquer máscara, revelado não por roupas faltando, mas por emoção demais.
E havia algo de proibido nisso.
Algo que fazia sentir como se tivesse cruzado um limite invisível: o limite entre observar arte e observar alguém sem que esse alguém soubesse.
Era profano porque a imagem deixava claro que aquele instante era dele — só dele. E, mesmo assim, o havia roubado para si com um simples clique.
Nada havia preparado para aquilo. Para aquela sensação… o nó na garganta, o coração batendo forte no peito, descompassado como nunca antes. A boca seca como se ele estivesse vagando num deserto e de repente tivesse encontrado um oásis.
Voltou os olhos para o garoto dançando outra vez, o corpo se movendo num ritmo que não sabia exatamente qual, mas que mesmo assim sentia no próprio corpo, sem nem sequer saber que música estava tocando. A forma como o moreno dançava era totalmente hipnotizante, como se ele ele dominasse todo o espaço com os movimentos, com o corpo.
Aquilo prendeu os olhos de por mais tempo do que deveria.

Click…click…click…

Ele fotografou mais, as costas tensionadas, as pernas flexionadas, o boné tampando o rosto impedindo que enxergasse totalmente seus olhos. Que cor eles teriam?
voltou a piscar os olhos por três vezes seguidas, e levou a lingua aos lábios finalmente, voltando a olhar as fotos na câmera. Precisava sair de lá o mais rápido o possível, não podia ser visto pelo dançarino misterioso.
Ainda relutante, como se seus pés estivessem fincados no corredor das salas de prática da faculdade, ele deu dois passos para trás, mas antes tirou uma última foto, que acabou saindo tremida e sem qualidade.
Foi embora.

⭐⭐⭐


— Eu deveria ter perguntado a ele antes de tirar essas fotos, droga!

olhava da câmera para o melhor amigo, e do melhor amigo para a câmera. As fotos haviam ficado sensacionais, isso era um fato. era um fotógrafo incrível. E mais do que ninguém sabia disso, ele ainda servia de modelo para o portfólio do amigo.

— Isso é verdade. Você não pode sair por aí tirando foto das pessoas sem que elas saibam, .

Os dois se encararam em silêncio. tomou a câmera das mãos do melhor amigo e a abraçou contra o peito, como se estivesse protegendo algo frágil demais para o mundo tocar — ou como se tentasse impedir que aquela imagem escapasse dele de alguma forma.
deixou um sorriso involuntário escapar com a atitude infantil e quase maternal do amigo com relação à câmera.

— O que será que ele estava pensando? — voltou a olhar para a primeira foto que havia tirado do dançarino misterioso.

deu de ombros, e fez uma espécie de beicinho.

— Isso importa? — cruzou os braços.
— Claro que importa! Fotografar é uma arte, eu sempre quero dizer alguma coisa com as minhas fotografias, .
— E o que você quer dizer com essa foto dele?
— Que ele é visto.

e ele se encararam profundamente e ficaram em silêncio.

— Você está pensando em procurá-lo?
— Como vou achá-lo no meio desse tanto de aluno, ?

soltou um muxoxo, encarando a foto mais uma vez. O coração ainda batia forte no peito dele.

— Talvez o destino cruze o caminho de vocês outra vez. piscou os olhos. Três vezes.
— O destino não vai muito com a minha cara.

soltou um sorrisinho ladino.

— Não provoque o destino .

estreitou os olhos mirando o dançarino misterioso mais uma vez.

— Quem é você?




encarava o próprio reflexo no espelho. O suor escorria por seu pescoço e costas, ele estava ofegante, o peito subia e descia descompassado. Havia sido intenso o ensaio que ele havia feito sozinho na sala de práticas, e ele estava satisfeito. Pelo menos até o momento em que revisse a gravação, nesse momento ele sempre encontrava mil defeitos que na verdade nem existiam.
era o aluno mais competitivo do curso de dança da faculdade de Seul, consequentemente ele era um poço de perfeccionismo. O que era bom, e ruim na mesma medida.
se aproximou do amigo, colocando uma das mãos sobre seu ombro, também ofegante.

— Uau, foi intenso hoje! Você mandou muito bem, cara! Como sempre.

balançou a cabeça para o amigo e então começou a assistir a gravação da aula no celular, com ao lado.

— Você também mandou bem tampinha, olha só esse movimento e o seu controle corporal. Insano!

sorriu satisfeito com o elogio do mais novo. Mesmo sendo de períodos diferentes, os dois ainda se encontravam em algumas aulas, e assim a amizade surgiu. meio fechado, observador demais, demorou um pouco para confiar em .

— Acho que quanto mais perto da nossa participação no festival universitário vai ficando, mais nervoso eu fico. Não quero deixar isso transparecer na minha dança… alguma dica? Como você consegue?

respirou fundo antes de responder, apoiando as mãos na cintura enquanto também encarava o próprio reflexo no espelho.

— Eu não consigo — disse, sincero. — Só aprendi a não lutar contra isso.

desviou o olhar da tela do celular, finalmente encarando o amigo.

— Como assim?
— O nervosismo. A pressão. O medo de errar. — deu de ombros. — Se você tenta esconder, ele aparece no corpo. No ombro duro, na respiração curta. Mas se você aceita… ele vira energia.

franziu o cenho, pensativo.

— Você dança com o nervosismo, não apesar dele — completou , com um meio sorriso. — Deixa ele te empurrar, não te travar.

voltou os olhos para a gravação. Pela primeira vez, não procurando erros, mas sensações.

— Eu sempre tive medo de não ser suficiente — admitiu, quase num sussurro. — De chegar até aqui e ainda assim falhar.

apertou levemente o ombro dele.

— Você já é suficiente. Só esquece disso quando começa a se cobrar demais.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que acolhe.

— Ei — acrescentou, quebrando-o com suavidade. — No festival, dança como se estivesse sozinho naquela sala. Sem plateia. Sem julgamento.

assentiu devagar.

— Vou tentar.

E, pela primeira vez naquele dia, ele acreditou que talvez fosse possível.

⭐⭐⭐


chegou em casa e largou a mochila sobre a pequena mesa de centro e depois se livrou do moletom acinzentado, abrindo o zíper. Jogou o mesmo sobre o sofá e então caminhou pelo corredor escuro, sem se dar ao trabalho de acender as luzes. Acendeu apenas a do banheiro, retirou o restante das roupas suadas das aulas e dos ensaios e então ligou o chuveiro, ajustando a temperatura.
Deixou que a água quente descesse pelos músculos de suas costas, começando a relaxar. O vapor logo tomou conta do pequeno banheiro, embaçando o espelho e abafando qualquer som que viesse de fora. Era ali, naquele silêncio interrompido apenas pelo barulho constante da água, que seus pensamentos sempre encontravam espaço para se espalhar.
Fechou os olhos, apoiando uma das mãos na parede fria, sentindo o contraste com o calor do chuveiro. O corpo pedia descanso, mas a mente insistia em voltar aos mesmos pontos: a coreografia, os passos que poderiam ter sido melhores, o festival se aproximando rápido demais.
Inspirou fundo, deixando a água escorrer pelo rosto, como se pudesse levar embora a tensão acumulada no dia. Ainda assim, uma imagem insistente surgia sem ser convidada — a sensação de estar sendo observado, mesmo quando dançava sozinho. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, não de medo, mas de algo que ele não soube nomear.
Talvez fosse só cansaço, pensou. Ou talvez fosse o incômodo estranho de saber que, em algum lugar, havia um olhar que o tinha visto de verdade.
Ele afastou a ideia, passando a mão pelos cabelos molhados, decidido a não pensar mais nisso. Amanhã seria outro dia. Outro ensaio. Outra chance de acertar.
Mas, mesmo com a água quente caindo sobre si, não conseguiu afastar completamente a sensação de que algo havia mudado.

⭐⭐⭐


— Vai queimar as panquecas ! Presta atenção! — puxou levemente os cabelos da melhor amiga, para chamar sua atenção.
— Ai, seu veadinho! — levou uma das mãos até a cabeça, no ponto onde havia ficado dolorido pelo puxão.
— Sou mesmo!

Os dois gargalharam alto, jogando as cabeças para trás e se virou para o fogão, deixando de mexer no celular antes que as panquecas realmente se queimassem.
Os dois moravam juntos desde o primeiro período de faculdade, a afinidade foi quase instantânea e desde então um não existe sem o outro. Os dois costumavam dizer que um era a versão feminina/masculina um do outro e por isso davam tão certo. Eles eram a “alma gêmea da amizade” um do outro.

— Já conseguiu as fotografias perfeitas para o festival ? Você disse que faltava só uma… eu ainda estou empacada em três. Nada tem me chamado a atenção desde ontem.

engoliu seco ao pegar a jarra de água de dentro da geladeira.

— Preciso conversar com você sobre isso.
— Porque, o que houve?

Os dois trocaram um olhar e levou o copo cheio d’água até os lábios, tomando a água toda numa grande golada.

— Tirei uma foto perfeita de um aluno do curso de dança que nunca vi na minha vida, mas não falei com ele sobre a fotografia. Uso ela no festival ou não?
— Me mostra essa foto assim que a gente jantar, te digo se usa ou não.

piscou travessa para o melhor amigo, que sorriu para ela.

⭐⭐⭐


analisou a fotografia em silêncio por longos segundos.

— Ai ! Anda logo! O que tanto você analisa?

ergueu os olhos da câmera para ele.

— Vai me dizer que você já não babou horrores nessas fotos? Olha só esse gatinho, !
— É nisso que você tá reparando sua safada? E não no quanto essa foto exala… — parou no meio da frase, procurando a palavra certa. — Verdade. Entrega. Alma.

inclinou a cabeça, um sorriso lento surgindo nos lábios.

— Ah, então é pior do que eu pensei.
— Pior como?
— Você não só achou ele bonito. Você sentiu algo. — Ela apontou para a tela da câmera. — Essa foto não é só técnica, . Ela é íntima.

desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos.

— Eu sei. É exatamente por isso que eu tô em dúvida.
— Porque você viu algo que não era pra ver? — perguntou, mais séria agora.
— Porque eu capturei algo que ele não me deu permissão pra tocar.

suspirou, apoiando os cotovelos na mesa.

— Olha… como fotógrafa em formação, eu diria que essa imagem merece ser vista. Como sua melhor amiga, eu digo que você precisa falar com ele antes. — Ela deu de ombros. — Se você usar essa foto sem consentimento, isso vai te corroer por dentro.

mordeu o lábio inferior.

— E se ele odiar?
— Então você apaga. — respondeu, simples. — Mas se ele entender… — o sorriso travesso voltou — …talvez essa foto seja só o começo de alguma coisa.

voltou a olhar para a imagem na tela.
O dançarino parecia distante, perdido em si mesmo.

— Eu nem sei o nome dele — murmurou.

sorriu.

— Ainda.




Terminou de arrumar a foto na exposição e se pôs a observá-la. Aquela foto tinha algo que prendia de um jeito que ele não sabia como explicar. Talvez fosse a postura do dançarino misterioso, talvez fosse a aura que exalava do corpo e do jeito dele, talvez fosse a maneira como aquela fotografia parecia querer dizer algo…
não sabia quem ele era, mas sabia que aquela foto era uma das mais incríveis que ele havia tirado em anos de fotografia amadora. Os olhos de passeavam pela foto sem pudor e pigarrou quando o primeiro grupo de estudantes chegou no stand deles.

— Você precisa parar de encarar essa foto como se esse boyzinho fosse se materializar aqui na sua frente! — sussurrou entre dentes, disfarçando e sorrindo para o grupo de alunos.

também deu um sorriso forçado na direção do grupo que andava livremente pelo stand, admirando as fotografias. Os trinta e cinco alunos do curso estavam atraindo olhares e cada vez mais grupos de estudantes começavam a entrar no stand.
O mesmo era um mosaico de olhares e histórias. As paredes brancas estavam tomadas por fotografias de todos os estilos: retratos em preto e branco de rostos marcados pelo tempo, paisagens urbanas capturadas ao amanhecer, cenas cotidianas congeladas em instantes quase imperceptíveis — uma mão soltando um balão, um casal rindo sob a chuva, o reflexo distorcido de prédios em uma poça d’água.
Algumas imagens eram técnicas, impecáveis na luz e na composição; outras eram mais cruas, quase experimentais, brincando com sombras, movimento e desfoque. Havia fotos que arrancavam comentários baixos, sorrisos discretos, expressões pensativas. Os alunos se aproximavam, inclinavam a cabeça, apontavam detalhes uns aos outros, trocavam impressões em murmúrios animados.
Mas, entre todas elas, certas fotografias pareciam exigir mais tempo do olhar. Faziam as pessoas parar por alguns segundos a mais, como se algo ali estivesse tentando ser decifrado.
E, sem que precisasse admitir em voz alta, ele sabia exatamente qual delas fazia isso.
A foto do dançarino não gritava. Ela chamava.

⭐⭐⭐


— Vamos buscar café, ? Pra mim, para você, para a e pro ?

terminou de olhar a fotografia do bailarino e mirou , que agora estava a seu lado.

— Essa foto hipnotiza as pessoas. Até você, príncipe de gelo? — lhe deu um breve empurrão com o cotovelo antes de gargalhar.
— Esse bailarino tem alguma coisa nele que prende as pessoas, você tem razão. Fez bem em ter capturado essa foto, mesmo que ele não saiba da existência dela. É uma obra de arte. — Foi a vez de olhar para o melhor amigo. — Vamos pegar os cafés.

Os dois saíram, deixando sozinha com . Os dois se olharam, um sorrisinho de canto brotou nos lábios de .

— Que dia o Hoon vai ter coragem hein? Às vezes eu me sinto traindo o por saber da informação e guardá-la. Fico remoendo isso a noite de vez em quando, você não?

observou a tal fotografia do dançarino misterioso e depois olhou para . Os olhos pequeninos dela brilhavam, e o brilho parecia com algo bem familiar: lágrimas.

— Eu também me sinto mal escondendo do , não é só você. E aposto que o também se sente mal, mas é complicado. Uma faca de dois gumes, se não traímos um, traímos o outro.
— Falando nisso, precisamos ir no stand dele, né? Ele deve estar uma pilha de nervos.

assentiu que sim com a cabeça e logo mais uma leva de alunos adentrou o stand.

⭐⭐⭐


As fotografias com certeza chamavam atenção, especialmente as de pessoas. Pelo menos aos olhos de , que observava as fotografias como se pudesse ler através delas. Como se conseguisse saber exatamente o que cada uma delas estava pensando na hora em que a fotografia era batida, e para aquela era a verdadeira beleza daquele tipo de arte.
Os seres humanos e até os inanimados eram capturados sempre em sua forma mais bruta, pelo menos nas fotografias que ele havia analisado até agora.

— Uau, o pessoal da fotografia caprichou mesmo. — passou um dos braços em volta do pescoço de .
— Tudo muito interessante mesmo. — Resumiu enquanto passeava os olhos pela fotografia de uma das grandes árvores da faculdade com alguns estudantes embaixo dela.
YAH! NI-KI-AH, É VOCÊ AQUI! CORRE PARA VER. UAAAH, A FOTOGRAFIA FICOU INCRÍVEL!

gritou, atraindo a atenção, não somente do grupo deles, mas do restante dos alunos presentes.
sentiu o corpo inteiro enrijecer no instante em que seu nome ecoou alto pelo espaço.
Ele virou o rosto no mesmo instante. estava alguns metros à frente, perto de uma das paredes laterais do stand, parado demais para alguém que normalmente não conseguia ficar quieto. acompanhou o olhar do amigo.

— O que foi agora? — perguntou, já caminhando na direção dele.

foi atrás, dando apenas alguns passos, desviando de dois estudantes que observavam as fotos. Conforme se aproximava, percebeu que encarava fixamente uma fotografia específica, os braços cruzados, a testa franzida.

? — chamou .
ergueu o braço e apontou, sem dizer nada.

seguiu o gesto… e o chão pareceu sumir sob seus pés.
Era ele.
Não havia dúvida.
A sala de práticas. A luz baixa. O boné escondendo parte do rosto. O corpo capturado no exato instante em que se entregava ao movimento, sem plateia, sem defesa, sem saber que estava sendo observado.
O coração de disparou.

— …essa foto… — murmurou, sem perceber que havia falado em voz alta.

aproximou-se mais um pouco, reconhecendo o amigo no mesmo segundo.

… — a voz saiu baixa, cuidadosa. — É você.

virou-se finalmente para eles.

— Eu disse — falou, ainda encarando a imagem. — Quando eu vi, soube na hora.

deu um passo à frente, depois outro, até estar a poucos centímetros da fotografia. Os olhos percorriam cada detalhe como se tentassem entender quando, como, quem.
Não havia pose.
Não havia controle.
Só verdade.
Ele engoliu em seco.

— Eu não sabia que alguém tinha tirado isso.

desviou o olhar para a pequena placa no canto inferior da moldura.

— O autor… — leu. — Seon Woo.

repetiu o nome em silêncio, sentindo um aperto estranho no peito.
Seon Woo.
Onde quer que ele estivesse naquele momento, tinha capturado algo que jamais entregaria conscientemente.
E agora… estava exposto ali.




— Pois não? Alguma dúvida com alguma fotografia? — sentiu lhe cutucar de leve a cintura, apontando para os alunos na frente do stand com o queixo.

observou um por um, até que seus olhos pararam no loiro de cabelos compridos. Ela piscou uma, duas, três vezes até que abriu a boca.
Nada.
Nenhum som.
Aquele era o garoto da foto de . O bailarino misterioso — e gato, ainda mais gato pessoalmente. desmaiaria e não sabia onde enfiar a cara.

— Eu tenho uma dúvida. Quem é o aluno que tirou essa foto?

simplesmente arrancou a fotografia do mural, virando-a para .

— Ei cara, calma! — se interpôs entre e . — Não foi ela que tirou a fotografia.
— Sim, então quem foi? Porque eu não autorizei uma fotografia minha tão íntima estar exposta aqui. Quero falar com o dono dela. Aliás, o dono da fotografia sou eu! Quero falar com quem expôs sem a minha autorização.
— N-ki, ah! Calma, a garota não tem culpa de nada! — colocou uma mão sobre o ombro tenso de .

concordou:

— É cara, calma! — se pôs ao lado de , não sem antes observá-lo.

Ele tinha os braços cruzados abaixo do peitoral, os braços magros mas definidos estavam marcados na camisa social que ele usava. O maxilar tensionado, e não pode deixar de reparar no quão marcados eles eram. Tal qual a lâmina de uma faca.

— Olha querido, você pode por favor aguardar o lá atrás? Ele já deve estar voltando, eu prometo que eu mesma levo ele lá. Sem escândalos aqui no stand ou o professor nos mata.
— Eu dou cinco minutos para ele aparecer, ou eu volto aqui e fico plantado nesse stand até ele aparecer.

e acompanharam o amigo até o fundo do stand, passando por trás da grande lona.

— Era uma mulher cara! — esbravejou.
— Eu sei! — bagunçou os cabelos. — Eu não ia fazer nada com ela, caramba! É lógico que não. Meu problema não é com ela, eu só me exaltei. Depois volto lá e peço desculpas.

sentia as extremidades formigarem como se pequenos choques percorressem seus dedos e subissem pelos braços. O peito estava apertado demais, o ar entrando curto nos pulmões, obrigando-o a respirar fundo mais de uma vez para não parecer tão descontrolado quanto se sentia por dentro. O coração batia rápido, quase dolorido, ecoando nos ouvidos como se estivesse fora de ritmo.
Havia calor em sua nuca, uma queimação estranha que subia pelas orelhas e se espalhava pelo rosto. Não era só raiva — era vergonha, confusão, uma sensação incômoda de ter sido exposto sem permissão. Aquela fotografia era como uma ferida aberta diante de desconhecidos, mostrando um pedaço dele que nem ou conheciam.
Os músculos dos ombros continuavam rígidos, prontos para um embate que já não existia mais, mas que o corpo insistia em sustentar. As mãos se fechavam e se abriam sozinhas, num reflexo nervoso, como se ainda quisessem arrancar aquela imagem da parede outra vez.
Por dentro, tudo era barulho. Pensamentos atropelados, lembranças confusas do ensaio, a pergunta insistente de quem tinha visto aquilo antes de mim?
passou a língua pelos lábios secos, sentindo o gosto metálico da ansiedade, e apoiou a testa por um instante na lona fria atrás do stand. Precisava de alguns segundos para se recompor. Para convencer o próprio corpo de que não estava em perigo.
Mas algo nele sabia: aquele encontro ainda não tinha acabado.

⭐⭐⭐


ria de algo que dizia, nas mãos três copos de café. e se entreolharam assim que ele chegou, distribuindo os cafés.

— Você está ferrado. Muito, muito, muito ferrado.
! — interveio. — Olha , aconteceu uma coisa.

A expressão dele mudou na hora, de alegre para preocupado.

— O que foi?
— Ué, cadê a foto do bailarino misterioso? — apontou para o espaço em branco, onde antes a foto ocupava.

Os olhos de foram parar no mesmo lugar, vendo o vazio lá.

— O que aconteceu com a foto ? Onde ela tá?

ficou pálido.

— Está com ele. Com o bailarino misterioso. Bom, agora ele não é mais tão misterioso. Ele está aqui atrás para falar com você, e eu prometi que eu mesma te levaria lá. Ele está bem pistola, viu querido amigo?

concordou com a cabeça.
O mundo de pareceu inclinar levemente para a esquerda.
Por um segundo, ele achou que tinha ouvido errado. Piscou algumas vezes, apertando os copos de café com força demais, até perceber o calor começando a queimar a palma da mão.

— Ele… — a voz saiu fraca. — Ele tá aqui?

assentiu, sem suavizar a notícia. desviou o olhar, claramente desconfortável.
O sorriso de desapareceu por completo. O coração começou a bater rápido demais, uma mistura de nervosismo, culpa e uma pontada de algo que ele não queria nomear. A foto. Ele tinha ultrapassado um limite, sabia disso. Na época parecia inofensivo — agora não mais.

— Eu não queria causar problema — murmurou, mais para si mesmo do que para eles. — Era só uma foto… arte, movimento, inspiração.

cruzou os braços, observando-o com atenção.

, você tá tremendo.

Ele só então percebeu. As mãos sacudiam levemente, o café quase transbordando. Respirou fundo, tentando se recompor, mas o nó no estômago só apertava.

— Ele tá bravo… tipo bravo mesmo? — perguntou, com um fio de esperança boba na voz.
— Pistola — reforçou. — Com razão.

fechou os olhos por um instante, inspirando devagar, como fazia antes de entrar no palco. Quando abriu, havia medo ali — mas também decisão.

— Tá — disse, enfim. — Eu vou falar com ele.

arqueou as sobrancelhas.

— Tem certeza?

engoliu em seco e assentiu.

— Se eu errei, eu vou encarar. Fugir agora só vai piorar tudo.

Ele estendeu os copos de café para , como se aquele pequeno gesto fosse uma forma de se libertar do peso nas mãos.

— Onde ele tá?

soltou um meio sorriso, misto de preocupação e orgulho.

— Vem comigo. E… — fez uma pausa — tenta não desmaiar no caminho.

soltou uma risada nervosa, curta demais para ser real, e começou a caminhar atrás dela, o coração acelerado.
Porque, naquele momento, ele não tinha ideia se estava indo pedir desculpas… ou encarar alguém que mudaria tudo.

⭐⭐⭐


Quando chegou, de mãos dadas com , ele reconheceu o daçarino misterioso de imediato. Mesmo ele estando de costas. respirou fundo e apertou a mão de .

— Como prometido, tá aqui. — apertou a mão de de volta.

virou-se de frente para eles. e colocaram as mãos no ombro do amigo.

— Calma . — sussurrou. — Você já é um adulto funcional de vinte anos, não perca a razão.
— Não vai agredir o menino, hein?

O maxilar tenso de Ni-k fez os amigos temerem.

— Vocês podem nos deixar a sós?

olhou de para .

— Não vou deixar meu amigo sozinho com um brutamontes de quase dois metros de altura, pronto para acertar um soco na boca dele.

levou a mão livre até os lábios, como se tivesse sentido o tal soco imaginário.

— Por favor, não bata no meu rosto! — completou, erguendo as duas mãos em rendição. — Eu sou fotógrafo, preciso dele… e do meu nariz também.

Apesar da tensão, um riso nervoso escapou de .
respirou fundo, fechando os olhos por um segundo antes de voltar a encará-lo. Quando falou, sua voz ainda estava firme, mas não agressiva.

— Eu não vou bater em ninguém. — disse. — Eu só quero entender por que você achou que podia expor uma foto minha sem me perguntar.

engoliu seco.

— Eu… não sabia quem você era. — confessou. — Tirei a foto porque achei que era só um momento bonito. Depois fiquei com medo de não usar… e medo de usar. Fiz a escolha errada.

descruzou os braços, observando atento, pronto para intervir se a conversa desandasse.

— Ele realmente ficou mal com isso — disse , cruzando os braços. — A gente discutiu metade da noite sobre se devia colocar a foto ou não.

desviou o olhar por um instante, sentindo novamente aquele aperto estranho no peito.

— Aquela sala é onde eu fico sozinho. — murmurou. — Não é um palco. Aquela foto… sou eu sem armadura.

O silêncio caiu pesado entre eles.
baixou a câmera que ainda pendia em seu pescoço.

— Eu sinto muito. De verdade. — disse, com a voz baixa. — Se você quiser, eu tiro agora. Não vou usar essa foto em lugar nenhum sem sua permissão.

pigarreou, aliviado.

— Viu? Ninguém vai sair na porrada hoje.

lançou um olhar para ele.

, pelo amor…

voltou os olhos para . Pela primeira vez, reparou melhor nele: o jeito nervoso de segurar a alça da câmera, o sorriso incerto, os olhos cheios de preocupação real.

— Eu não quero que você destrua a foto. — disse depois de alguns segundos. — Eu só não quero que ela esteja aqui… assim.

assentiu imediatamente.

— Eu tiro agora.

Ele deu um passo em direção á foto nas mãos de , mas ele o interrompeu:

— Depois. Quando acabar o fluxo de gente. — respirou fundo. — Eu… só precisava falar com você antes de perder a cabeça.

sorriu de canto.

— Viu? Adulto funcional.

lançou um olhar atravessado para ele, mas o clima já não era de explosão. Era de algo novo. Estranho. Incômodo.
E, sem perceber, e ficaram se encarando por alguns segundos a mais do que o necessário.
foi a primeira a notar.

— Ok, acho que ninguém vai morrer hoje. — disse, batendo palmas uma vez. — Podemos respirar agora.

Mas, para , o ar ainda parecia curto demais. E para , aquela conversa tinha acabado de abrir uma porta que ele nem sabia que existia.



Continua...



Encontrou algum erro de script na história? Me mande um e-mail ou entre em contato com o CAA.

Nota da autora: Oi chuchus! Tivemos o tão aguardado encontro... mas tem mais tá?








© 2021 - Atualmente • Fanfic Connection - Todos os direitos reservados.