Nada estava sendo fácil. Nem as amigas conseguiam ajudar quando o assunto era Choi San. Desde o término, mal saia de casa, até os conteúdos na internet estavam pausados e a agência dela já começava a entrar em desespero. A mulher cogitou inclusive abandonar tudo e voltar para o Brasil, quem sabe isso apagaria tudo?
As luzes da cafeteria certamente dariam uma foto linda para ela postar nos stories do Instagram, mas ela se sentia apagada, sem brilho, como se a luzinha interna que ela tinha desde pequena tivesse se apagado. Precisava sair dessa, ela pensou enquanto apertava a xícara de café entre as mãos, sentindo o quente do café nas palmas.
Eunbin chegou logo em seguida e procurou por ela na cafeteria lotada. levantou um dos braços e começou a acenar para o agente, rapidamente, esperando que ele a visse, assim ela não precisaria pegar o telefone na bolsa, e ver a foto de San, que ainda era seu papel de parede.
Por sorte, Eunbin a encontrou com rapidez e caminhou a passos largos e rápidos na direção da mesa dela. Ao chegar, depositou um beijo rápido na bochecha da brasileira e puxou uma cadeira para se sentar.
— Tenho uma novidade incrível, e uma notícia não tão boa assim. Péssima na verdade. — Os olhos de Eunbin e se encontraram.
— A agência quer rescindir o contrato? É isso? — Os olhos de se arregalaram, saltando levemente para fora.
O coração também deu um salto dentro do peito.
— , você precisa reagir, sabe disso não sabe? Os seus contratantes têm reclamado da falta de conteúdo, seus seguidores já notaram que tem algo de errado. O San também sumiu, e os fãs estão começando a ligar os pontos.
— Acho que fazer qualquer pronunciamento sobre nosso término vai tornar tudo muito real para mim mesma, e por isso não falei nada publicamente ainda.
— E nem precisa… — Eunbin pigarreou.
O homem abriu a pasta e colocou os papéis na frente de Eunbin, que colocou a xícara branca de lado para pegar os mesmos. As mãos dela tremiam um pouco.
Passou os olhos pelo contrato, lendo cada linha com atenção, sentindo o coração bater mais forte a cada palavra.
O título do documento parecia brilhar em negrito, como se zombasse dela:
“Contrato de Campanha – Fragrância Dual ‘Éternel’ – Vigência: 12 meses.”
Logo no início, um item já fez o estômago de se revirar.
Cláusula 2 – Representação da Marca: A contratada, influencer Alves, e o contratado, artista Choi San, atuarão como dupla oficial de divulgação da fragrância Éternel, nas versões masculina e feminina, por um período de 12 (doze) meses a contar da assinatura deste documento.
Os olhos dela correram pela página. O texto era nítido, direto, impossível de ignorar.
Cláusula 3 – Imagem e Presença Obrigatória: Ambas as partes deverão comparecer juntas a todas as ações presenciais de marketing, incluindo: sessão de fotos, filmagens, eventos públicos, entrevistas e lançamento oficial. A química entre o casal é essencial para a narrativa da campanha, sendo parte intrínseca da estratégia de branding aprovada pelo presidente da marca.
A respiração de falhou.
Cláusula 4 – Narrativa Oficial: Durante o período da campanha, a marca solicita manutenção da imagem pública do casal, uma vez que estratégias de marketing já foram previamente alinhadas ao relacionamento dos contratados. O não cumprimento poderá acarretar rescisão contratual por quebra de imagem e multa estipulada no item 9.1.
A última frase parecia pesar toneladas.
E então, a bomba final:
Cláusula 5 – Motivo da Contratação: O presidente da marca ‘Éternel Fragrances’ reforça seu apreço pelo casal Choi San & , considerando-os símbolo perfeito da dualidade da fragrância. Acredita-se, inclusive, que preservar a narrativa romântica entre ambos potencializará significativamente os resultados da campanha na Ásia e na América Latina.
sentiu o mundo girar.
Eles queriam ela.
Eles queriam o San.
Juntos.
Por um ano inteiro.
— Tá brincando com a minha cara, Eunbin? Isso aqui não vai ser assinado nem sob meu cadáver. Eu e o San, numa campanha juntos? Por um ano inteiro?
Eunbin umedeceu os lábios, visivelmente nervoso.
— Ai que tá o problema , o San já assinou o contrato dele.
— O que? Que porra é essa? Ele tá maluco de assinar um bagulho desses sem falar comigo?
Eunbin suspirou pesadamente, provavelmente já prevendo a minha reação.
— O San foi estratégico , você viu o valor do contrato por uma campanha tão simples como essa?
— Simples, Eunbin? Simples é o meu pau.
— Fala baixo ! — Ele sussurrou, olhando ao redor. — Estamos em público, deixe para usar sua boca suja quando encontrar o San. Você não tem outra opção a não ser assinar esse contrato. Vai ser fácil fingir, vocês foram namorados por anos, e nem tem tanto tempo assim que estão separados.
— Eunbin! — Minha voz se elevou algumas dezenas. — Fácil? É fácil fingir ser namorada do San quando eu ainda to na fossa? Meu Deus!
esfregou os olhos e depois levou a xícara de café aos lábios.
— O que acontece se eu não assinar essa porra?
Eunbin respirou fundo, como se estivesse prestes a pisar em um campo minado.
— Se você não assinar… — Ele ajeitou os óculos, claramente desconfortável. — A marca rescinde o acordo com você, mas mantém o do San, porque ele já está comprometido. E aí, além de perder o contrato, você perde três campanhas futuras que estão atreladas a esse acordo.
arregalou os olhos.
— Três? TRÊS, Eunbin?
— E tem mais… — Ele engoliu seco. — Sua agência já avisou que não vai conseguir segurar a pressão dos patrocinadores se você recusar. Vai parecer instabilidade emocional. E nesse meio… — ele fez um gesto vago com a mão — você sabe, qualquer rumor vira uma avalanche.
— Então é isso? — deu uma risada amarga, sem humor. — Além de ter que fingir que não quero enfiar o pé no cu do San, eu ainda tenho que fazer pose romântica do lado dele por um ano inteiro senão eu perco tudo?
— Basicamente… sim. — Eunbin deu um sorriso tímido, quase culpado. — E você sabe que San é… profissional. Ele vai levar isso como trabalho. Ele sabe que vocês não precisam se amar pra fazer fotos bonitas.
bateu a xícara na mesa com força suficiente para Eunbin pular na cadeira.
— A gente não faz fotos bonitas, Eunbin, a gente faz fotos que parecem capa da porra de um romance! — Ela esfregou o rosto com as duas mãos. — Meu coração ainda parece purê de batata e você quer que eu faça caras e bocas abraçada no ex que me fez chorar por semanas?
— … — Eunbin colocou a mão sobre a dela, baixinho. — Se isso consola… o San perguntou de você quando assinou.
Ela travou.
— Perguntou o quê?
Eunbin hesitou.
— Só… se você estava bem.
Por um segundo, odiou o fato de isso ainda mexer com ela.
— Foda-se ele. — murmurou, virando o café goela abaixo. — Fala logo. O que acontece exatamente se eu não assinar?
Eunbin soltou o ar devagar, como quem entrega a sentença final.
— Você perde o contrato, perde três campanhas futuras, perde a estabilidade com a agência… e provavelmente perde metade dos seus patrocinadores nos próximos três meses. — Ele deu de ombros, quase pedindo desculpas. — E a mídia vai inventar mil teorias sobre você estar “descontrolada” depois do término.
Silêncio.
Barulhos de xícaras, pessoas conversando ao fundo, música baixa na cafeteria… tudo pareceu longe demais.
Até que afundou na cadeira, os olhos fixos no papel.
— Um. Ano. — Ela sussurrou para si mesma, incrédula. — Fingindo que não estou quebrada.
— Uma aprendiz? — Hongjoong sussurrou para Gaeyeon. — Eu realmente tenho que ficar tomando conta de uma pirralha enquanto tenho tanta coisa para fazer?
Gayeon riu baixinho, sem tirar os olhos do computador.
— Joong! Ela vai vir justamente para te desafogar. — Gayeon sorriu, ainda trabalhando focada no computador. — Tudo bem que no começo com você precisando auxiliar nisso ou naquilo, você fique um pouquinho mais ocupado. Mas vai ela vai te ajudar com as demandas que você quiser.
Hongjoong bufou discretamente, e olhou no relógio.
— Ela não está atrasada?
Gayeon riu e então levou os olhos até o subordinado.
— Nós que estamos, ela já está nos esperando há quinze minutos, eu só queria terminar isso aqui antes.
Hongjoong ergueu uma sobrancelha.
— Uma gen-z, pontual? Tem certeza?
Gayeon riu da desconfiança do amigo.
— Tenho certeza absoluta, Joong. Agora vamos? — Ela bloqueou o computador e se levantou.
Enquanto caminhavam pelos corredores da Pulse Lab, Hongjoong pensou em tudo que ainda teria que produzir no decorrer do dia, e em como a tal aprendiz poderia ajudá-lo logo naquele primeiro dia de trabalho.
— Como é o nome dela mesmo? — Hongjoong sussurrou assim que eles chegaram à recepção lotada de jovens.
— Song .
— Song … — Ele testou o nome nos lábios. Soou bem, ele pensou.
Depois de passarem pela catraca, Gayeon foi até a recepcionista e Hongjoong passou os olhos pelos jovens que lá estavam. Qual das garotas seria a aprendiz?
Gayeon voltou com um crachá nas mãos e então chamou:
— Senhorita Song ?
Uma jovem magra e de cabelos castanhos e compridos se levantou de uma das poltronas, erguendo a mão e caminhou na direção deles. Hongjoong a observou com precisão.
A garota se aproximou com passos firmes, e Hongjoong percebeu isso antes de qualquer outra coisa: ela não andava com pressa, nem com insegurança. Havia uma calma concentrada em seus movimentos, como alguém que já sabia exatamente onde estava pisando.
Ela era magra, alta o suficiente para não parecer frágil, e o cabelo castanho caía longo pelas costas, liso na raiz e levemente ondulado nas pontas, refletindo a luz do saguão conforme se movia. Os fios emolduravam um rosto delicado, mas longe de ser ingênuo.
Os olhos chamaram sua atenção de imediato. Claros, expressivos, atentos demais para alguém que deveria estar nervosa no primeiro dia. Havia algo ali — não arrogância, mas presença. Como se ela observasse o ambiente com a mesma precisão com que estava sendo observada.
O nariz fino, os lábios bem desenhados, a pele uniforme… tudo nela parecia cuidadosamente simples. Sem exageros. Sem esforço.
Quando parou à frente deles, inclinou levemente a cabeça em cumprimento, um gesto educado e discreto.
— Song . — disse, com a voz firme, sem hesitação.
Hongjoong piscou uma vez, desviando o olhar rápido demais para não parecer óbvio. Não é uma pirralha, ele pensou.
Havia algo maduro em sua postura, algo que não combinava com a ideia que ele havia criado minutos antes. Ela não parecia alguém que precisaria ser carregada o tempo todo. Pelo contrário — parecia alguém que observaria, aprenderia… e depois faria sozinha.
Gayeon sorriu satisfeita, como se tivesse previsto exatamente aquela reação silenciosa.
— Joong, essa é a sua nova aprendiz. — disse ela. — , este é Kim Hongjoong.
sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o esperado.
— É um prazer trabalhar com você, senhor.
Hongjoong engoliu em seco.
— …O prazer é meu.
E, pela primeira vez naquele dia, ele pensou que talvez — só talvez — aquela aprendiz fosse mais trabalho do que ele imaginava.
👾👾👾
— Hoje vamos mixar apenas os covers. Você já tem experiência com as mixagens? Ou é leiga? Posso te ensinar.
sorriu e passou uma das mechas do cabelo para trás da orelha.
— Essa sala inteira vai ser só minha? — Hongjoong reparou que os olhos dela brilharam.
Ele não conteve o sorrisinho de canto, achando-a adorável.
— Toda sua… — Ele apontou com o polegar. — A minha é logo ao lado. Se precisar é só sair e bater na porta.
— Quanto às mixagens, pode ficar tranquilo que eu sei fazer, tenho experiência nessa parte, só preciso dos arquivos. Eu até já tenho um e-mail, a Gayeon me passou.
— Ela me passou também, vou te mandar todos os arquivos e direcionamentos, e qualquer dúvida, não hesite em me chamar .
assentiu, ainda sorrindo, e fez uma pequena reverência antes de se sentar na cadeira giratória. Os dedos deslizaram pelo mouse com naturalidade, como quem já conhecia aquele território antes mesmo de pisar ali.
Hongjoong parou na porta por um segundo a mais do que deveria.
Observou enquanto ela abria o e-mail, lia os títulos com atenção e já começava a organizar pastas, criando subcategorias com nomes precisos. Nada de bagunça, nada de improviso exagerado. Tudo metódico. Definitivamente não é leiga, ele pensou.
— Os covers estão separados por tonalidade? — perguntou sem olhar para trás, já conectando os fones.
Hongjoong ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Estão… sim. — respondeu, aproximando-se alguns passos. — Pouca gente repara nisso logo de cara.
— Facilita a mixagem quando a intenção é manter a identidade do intérprete sem apagar a original. — Ela explicou, simples, como se fosse óbvio. — Principalmente quando o público compara versões.
Ele soltou uma risada curta, impressionada.
— Você pensa como produtora, não como aprendiz.
finalmente virou a cadeira na direção dele, apoiando um cotovelo no braço da poltrona.
— Eu prefiro pensar que sou uma aprendiz que observa bem.
Os olhos deles se encontraram por um instante mais longo do que o necessário. Não foi desconfortável — foi curioso. Avaliativo. Como se ambos estivessem recalculando expectativas.
Hongjoong pigarreou, quebrando o momento.
— Vou te mandar os arquivos agora. — disse, já puxando o celular do bolso. — Qualquer coisa, mesmo que ache boba, me chama.
— Pode deixar. — ela respondeu, colocando os fones sobre as orelhas. — E… obrigada por confiar.
Ele abriu a boca para responder, mas desistiu. Apenas assentiu e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Do outro lado, no silêncio controlado da própria sala, Hongjoong sentou-se diante do computador… mas não conseguiu se concentrar de imediato.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele teve a estranha sensação de que aquela rotina tinha acabado de mudar. E que Song não seria apenas mais um nome temporário nos corredores da Pulse Lab.
Continua...
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Nota da autora: Sem nota.
Nota da scripter: Já começou com tudo, essa promete!! (to sentindo cheiro de faking dating.... gosto hehehe