Leviticus - Depois do Ritual

Por: Sammy


Capítulo 1 A viagem — Você tem um péssimo gosto musical. – Ryan murmurou desgostoso com o fone em seu ouvido e olhou de relance para Naim com um sorriso maroto em seus lábios.
— Você nem tem gosto musical. – O moreno rebateu prontamente.
O loiro o olhou de fato e abriu a boca para contestar.
— Eu tenho gosto.
— Ah, é? De que?
Ryan abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Naim ergueu as sobrancelhas, satisfeito com a própria vitória, e voltou a encostar a cabeça no banco.
— Foi o que pensei. – Naim tentou encerrar o assunto.
— Você é insuportável. – brincou o loiro.
Não haviam escolhido uma cidade específica. Tampouco sabiam onde desceriam, mas ambos possuíam uma ideia simples: continuar viajando até encontrar um lugar onde pudessem respirar sem que precisassem olhar constantemente por cima dos ombros.
Depois do que passaram, precisavam de paz.
A entidade havia ficado para trás.
Era no que Naim tentava acreditar. E foi o que viu.
O ônibus deu um solavanco, arrancando o moreno dos seus pensamentos. Ergueu a cabeça e olhou pela janela suja. Do lado de fora, havia um posto de gasolina, uma pequena conveniência e algumas mesas postas próxima a entrada. O céu se encontrava encoberto, e o vento fazia as poucas árvores ao redor se agitarem.
O estômago de Naim roncou e ele tentou se lembrar quando foi a última vez que havia comido algo e sua memória falhou.
— Acho que precisamos comer alguma coisa. – Naim olhou para Ryan.
— Você precisa comer. Eu estou perfeitamente bem.
— Seu estômago está roncando desde que saímos.
— Isso é barulho do motor.
O moreno riu, olhando incrédulo para o loiro, que se segurou para não sorrir, mas não conseguiu. Porém, seu sorriso sumiu dos seus lábios ao perceber que estavam parando naquele local.
Outros passageiros começaram a levantar, pegando as suas bolsas e casacos e o casal se entreolhou.
— Preciso fazer xixi. – Naim disse, soltando o próprio cinto.
— Eu vou com você. – Ryan fez o mesmo, e pegou seu casaco antes de se levantar.
E juntos desceram as poucas escadas do ônibus, sendo engolidos pelo vento e a sensação de frio.
— Vou comprar algo para comermos. Vai lá. – Ryan avisou, pronto para sair.
Mas Naim hesitou.
— Eu não quero ficar sozinho. – Sussurrou tão baixo que Ryan teve dificuldade em ouvi-lo por conta do barulho das conversas alheias e motores de ônibus e caminhões.
— Você quer que eu vá fazer xixi com você?
Naim o olhou com o cenho franzido.
— Não seja idiota. Só fica do lado de fora.
— Não sabia que eu era, além de namorado, segurança do banheiro.
— Ryan! – um riso fraco saiu dos lábios do moreno.
Ryan riu e concordou com a cabeça ao bater seu ombro no ombro do outro.
— Andando.
Eles haviam aprendido da pior forma possível que não podiam ficar sozinhos. A entidade não precisava ter o rosto de um estranho para despertar o medo. Pelo contrário, ela assumia a forma de alguém que a vítima amava, transformando o desejo de estar perto daquela pessoa em uma armadilha.
Ryan conhecia bem aquela sensação.
E Naim também.
Havia momentos em que Ryan olhava para Naim e precisava se lembrar de que ele estava realmente ali. De que o rapaz ao seu lado era o namorado que conhecia, e não uma imitação criada para enganá-lo.
No início, Naim demorou para entender. Só depois do ritual de Ryan e Hunter, quando viu Hunter passar pela experiência sobrenatural, que começou a entender a dimensão do que acontecia com eles.
Hunter estava morto agora.
A lembrança atingiu Naim e sentiu um calafrio passar por todo o seu corpo. Iria ignorar aquelas lembranças e não falar disso com ninguém, só assim esqueceria.
Ao chegar no banheiro, Naim estendeu a mão e tentou acender a luz antes de entrar no local. As luzes piscaram no topo, e apenas uma delas acabou acesa.
— Isso parece um filme de terror para você? – um sorriso brotou em seus lábios e ele direcionou seus olhos para o loiro.
— É de dia. Acho que estamos bem. – Ryan suspirou e deu uma espiada dentro do banheiro. – Quer que eu entre com você?
— Não. – Passou por ele, entrando.
— Tem certeza? Eu posso segurar a sua mão.
— Vai se ferrar. – Cantarolou Naim.
Ryan deu risada e fez um bico, suspirou e virou-se de costas na parede. Mordeu o próprio lábio inferior e tentou ao máximo se distrair.
Manteve-se apoiado na parede do lado de fora do banheiro. Seus olhos percorriam o posto de gasolina, e observou uma família chegar em uma van. A mãe abriu a porta da frente, e se apressou para abrir a porta de trás. Uma menina de cabelos loiros saiu, e logo depois dela, um garoto.
O loiro piscou e o garoto continuava parado próximo a van.
Tentou ao máximo afastar a sensação estranha que se apossou do seu peito.
Piscou novamente, e o sorriso que surgiu no rosto do garoto fez com que seu estômago se contrair. Havia algo terrivelmente familiar. Os olhos, o formato da boca, a maneira como inclinava a cabeça.
Era Naim.
Ryan endireitou a postura.
Não podia ser.
Não.
O garoto começou a caminhar em sua direção.
Tentou se convencer de que era apenas uma coincidência. Pessoas parecidas existiam.
Por um instante o estacionamento pareceu ficar distante. O barulho dos carros, as conversas dos passageiros e até mesmo o vento desapareceram sob o som descompassado do seu próprio coração.
Ryan tentou se mover, mas seu corpo parecia ter esquecido como obedecer. Só conseguiu voltar a respirar quando sentiu uma mão pousar em seu ombro e isso fez com que ele se sobressaltasse de forma violenta.
— Ei, sou eu. – Naim tinha um tom de voz calmo.
Ryan se virou, o encarando e piscou. Piscou com os olhos marejados.
— Já terminei. – explicou. – O que aconteceu?
Notou que o namorado estava sem reação e levou suas mãos que estavam em seu ombro, até a sua nuca, acariciando a região entre os seus fios loiros.
— Ryan?
O loiro piscou e a feição de Naim pareceu finalmente se fixar em sua mente. Os olhos eram os mesmos que ele conhecia e a voz também. A mão em sua nuca provava o quanto aquilo era real.
Seus olhos foram até a entrada da conveniência onde a família de antes entrava no local.
— O que foi? – Naim perguntou ainda confuso.
— Nada. – A resposta de Ryan foi rápida demais.
Direcionou seus olhos até o namorado.
— Você está branco.
— Eu estou bem.
— Parece que você acabou de ver um fantasma. – Naim ainda estava com o cenho franzido.
— Preciso dormir. Urgentemente.
Ryan sabia que Naim não acreditaria nele. Não totalmente. E depois teriam que ter a conversa.
Dessa forma, caminharam juntos, com as mãos dadas e os dedos entrelaçados até a entrada da conveniência. Por longos segundos, Ryan fitou a van e se perguntou o que teria acabado de acontecer.
— Ei. – Naim apertou os seus dedos contra os dele. – Vamos entrar?
Concordou com um aceno rápido. E de uma coisa Ryan tinha certeza: aquele garoto ficou parecido com Naim. E se ele não estivesse imaginando coisas, talvez a entidade nunca tivesse ficado para trás.
Continiua...
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