“Green was the color of the grass where I used to read at Centennial Park. I used to think I would meet somebody there… Teal was the color of your shirt, when you were sixteen at the yogurt shop. You used to work at to make a little money.”
Austrália, dezembro de 2019
— Azul petróleo? — O atendente franziu o cenho e então olhou para a própria camiseta debaixo do avental que compunha o uniforme.
— Sim. É uma cor um tanto quanto peculiar, e eu adorei a escolha. — Sorriu sem mostrar os dentes e depois levou a colher até os lábios.
Os dois trocaram um olhar. Longo demais para ser apenas um olhar de curiosidade ou de cliente e atendente. Mas aí alguém da mesa ao lado chamou por ele, e ele foi. Não quebrou o olhar até chegar até a outra mesa e aquilo despertou algo dentro de . Ela não sabia exatamente o que, mas aquele simples olhar havia revirado tudo dentro dela.
Ela ficou ali, com a colher ainda suspensa no ar e o gosto doce do frozen dissolvendo na boca. As vozes ao redor pareciam mais baixas, como se o som tivesse se recolhido por um instante. Só o coração, acelerado e teimoso, preenchia o espaço.
“Azul petróleo…” repetiu mentalmente, tentando gravar o nome que agora parecia ter ganhado outro significado.
Ele voltou minutos depois, limpando as mãos em um guardanapo, o cabelo caindo um pouco sobre os olhos. desviou o olhar tarde demais. Ele notou.
— Então… gostou mesmo da escolha? — perguntou, com um sorriso discreto, como quem tenta manter uma conversa casual, mas carrega uma curiosidade maior nas entrelinhas.
— Gostei. — respondeu rápido demais, e logo se corrigiu, rindo de si mesma. — Quer dizer, não é uma cor comum, sabe? É… calma, mas tem algo meio profundo também.
Ele encostou o quadril no balcão, interessado.
— Calma, mas profunda? Nunca tinha pensado nisso. Normalmente o pessoal só diz “bonita” ou “estranha”.
— Acho que depende do que a gente vê quando olha, não? — Ela brincou com o canudo, olhando para o copo.
Ele assentiu devagar.
— Pode ser.
Um silêncio confortável se instalou por alguns segundos. Lá fora, o sol australiano queimava preguiçoso, tingindo tudo de dourado. Dentro, o ar condicionado mantinha o ambiente fresco, mas sentia um calor estranho subir pelo corpo.
— Eu sou o , aliás. — disse ele, estendendo a mão por cima do balcão.
Ela olhou para aquela mão — simples, um pouco manchada de calda de chocolate — e sentiu algo diferente no peito.
— . — respondeu, aceitando o aperto.
O toque durou o suficiente para ser sentido.
E talvez, mais tarde, ela ainda lembrasse exatamente da temperatura daquela mão.
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“Time, curious time, gave me no compasses, gave me no signs… Were there clues I didn't see? And isn't it just so pretty to think, all along there was some invisible string tying you to me?”
Austrália, Janeiro de 2025
O café em Byron Bay estava quase vazio, o som suave das ondas ao longe se misturava ao tilintar das xícaras. observava mexendo o açúcar no cappuccino, distraído, o olhar perdido por trás dos óculos escuros.
— Sabe o que é engraçado? — ela começou, apoiando o queixo na mão. — Se alguém me dissesse lá em 2019 que a gente ainda estaria aqui… eu não acreditaria.
riu de canto.
— Eu também não. Na verdade, achei que você nem lembraria de mim depois daquele dia.
— Eu lembro. — ela respondeu, sorrindo. — Lembro da cor da sua camiseta, do jeito que você olhou pra mim. Azul petróleo.
Ele ergueu o olhar, e havia algo nos olhos dele — um brilho silencioso de quem também lembrava de cada detalhe.
abriu o celular, procurando algo na playlist antiga.
— Olha isso. — Ela deu play, e os primeiros acordes soaram no ambiente.
arqueou a sobrancelha, reconhecendo a melodia.
— Taylor Swift?
— Sempre Taylor Swift. — ela riu.
— Me lembro da primeira vez que dormimos separados, e ruim era o sangue da música no táxi, na sua primeira viagem a Los Angeles. Você jantou no meu restaurante favorito…
Ele ficou em silêncio por um instante, deixando as palavras pairarem no ar.
— E o resto? — perguntou.
Ela continuou, a voz suave, como se cada lembrança estivesse viva ali entre eles:
— Ousada era a garçonete, no nosso aniversário de três anos, quando almoçamos perto do lago. Ela disse que eu parecia uma cantora americana.
sorriu, lembrando.
— Eu lembro disso. Você ficou toda sem graça.
— E você, claro, concordou com a garçonete. — ela provocou, rindo.
— Óbvio. Eu teria mentido se dissesse que não parecia.
Por um momento, o riso deles preencheu o espaço, mas logo deu lugar a um silêncio doce. olhou pela janela, o sol refletindo no mar.
— É estranho, né? Como tudo parecia tão aleatório… e mesmo assim, tudo foi nos levando de volta um pro outro.
estendeu a mão por cima da mesa, tocando a dela.
— Como se tivesse uma linha invisível, amarrando a gente desde o começo.
Ela sorriu.
— An invisible string.
E naquele instante, parecia que o universo inteiro fazia sentido outra vez.
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“Time, mystical time, cutting me open, then healing me fine. Were there clues I didn't see? And isn't it just so pretty to think, all along there was some invisible string
tying you to me? Ooh-ooh-ooh-ooh”
Austrália, Março de 2025
— Sabe o que eu acho? — começou, olhando para o líquido âmbar no copo. — Às vezes, parece que foi alguma coisa… ou alguém, sei lá… que me puxou pra fora de todos os braços errados, direto pra esse bar.
levantou o olhar, intrigado.
— Todos os braços errados?
Ela riu com leveza.
— É. Eu insisti em caber em lugares que não eram meus, . Pessoas, planos, versões de mim que só me machucavam. Mas, de algum jeito, algo me trouxe de volta pra você.
Ele ficou quieto por um instante, como se as palavras dela o tivessem atingido em cheio. Depois, respirou fundo.
— Engraçado… eu também tive que me desenrolar de muita coisa pra chegar até aqui.
Passou a mão pelos cabelos, pensativo.
— Era como se meus erros tivessem sido embrulhados em arame farpado. Cada lembrança, cada arrependimento… eu me cortava toda vez que tentava tocar neles.
— Eu entendo. — Ela o observou com ternura. — Mas, no fim, a gente aprende a cobrir as feridas.
— Correntes em volta dos meus demônios. — ele murmurou, ecoando a tradução da canção que era deles. — E um pouco de lã pra aguentar as estações ruins.
sorriu.
— Bonito isso.
Ele a olhou com uma intensidade calma, como quem finalmente entende o que o tempo quis dizer.
— E no meio de tudo isso… tinha um fio. Fino, quase invisível. Vermelho. — Ele fez um gesto pequeno com os dedos, como se segurasse algo entre eles. — E esse fio me amarrou a você.
Ela não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dele.
— Talvez a gente nunca tenha se perdido de verdade, né? Só estava… seguindo o caminho até o outro lado da linha.
apertou de leve a mão dela.
— E olha só onde a linha terminou.
— Ou começou. — corrigiu ela, sorrindo com os olhos marejados.
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“Time, wondrous time… Gave me the blues and then purple-pink skies, And it's cool! Baby, with me and isn't it just so pretty to think, all along there was some invisible string tying you to me? Ooh-ooh-ooh-ooh, mem ooh-ooh-ooh-ooh.”
Austrália, Abril de 2025 — Centennial Park
O outono tingia tudo de dourado. As folhas caíam lentamente, pintando o chão com tons de ouro envelhecido. caminhava ao lado de , o mesmo parque onde, anos antes, ela costumava ler sozinha, imaginando quem encontraria ali.
— É engraçado, né? — ela começou, chutando de leve uma folha seca. — O tanto de raiva que eu já carreguei no peito.
Fez uma pausa curta e sorriu sem humor.
— Cold was the steel of my axe to grind for the boys who broke my heart.
olhou para ela, curioso. — O aço frio do seu machado de vingança?
— Exato. — riu. — Eu achava que precisava pagar cada decepção com a mesma moeda. Mas agora… — ela deu de ombros, olhando o céu entre as árvores. — Agora eu mando presente pros bebês deles.
— Acho que sim. — respondeu com serenidade. — Gold was the color of the leaves when I showed you around Centennial Park…
Ela olhou ao redor e sorriu.
— E olha só, continua sendo.
a observou em silêncio. O vento brincava com o cabelo dela, e por um instante, tudo pareceu exatamente no lugar certo.
— Hell was the journey… — ele disse, completando em voz baixa. — “Mas me trouxe o paraíso.”
o encarou.
— E você ainda acha que o paraíso existe?
Ele deu um meio sorriso.
— Acho que tô olhando pra ele agora.
Ela parou de andar. O coração acelerou do mesmo jeito que naquela tarde de 2019, na loja de frozen yogurt. Mas agora havia paz, não incerteza.
— Você é péssimo com clichês. — murmurou, sorrindo.
— Eu sei. — ele respondeu, já se aproximando. — Mas você sempre gostou deles.
E então, antes que ela pudesse retrucar, inclinou-se devagar e a beijou.
Um beijo calmo, sem pressa — como quem finalmente encontra o fim da linha vermelha que os uniu por tanto tempo.
O vento levou às últimas folhas douradas pelo ar, e pensou que talvez, só talvez, o universo tivesse mesmo amarrado tudo exatamente como devia.
Fim.
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