Intertwined



Última atualização: 28/12/2025.
01 | 02





Era a sexta ou sétima xícara de café que ele engolia rapidamente antes de chamar o próximo paciente. Não foi surpresa para Jimin quando ele encontrou por lá.
Ela era uma paciente com crises de ansiedade recorrentes. Jimin já havia decorado o nome, o sobrenome, o diagnóstico e os remédios que deveria tomar. Todo plantão dele, lá estava ela.

Alves. — Chamou Jimin da porta de sua sala de triagem.

suspirou pesadamente e então se levantou, indo até a pequena sala. Fechou a porta atrás de si e então Jimin, já sentado em sua mesa, reparou no uniforme que ela usava. O da Cafeteria Aurora, lugar que ele frequentava bastante para buscar seus cafés, mas ele não se lembrava de vê-la por lá. Só pelo hospital.
Mas também, com tanto cansaço pesando os olhos e ombros, como ele se lembraria das garçonetes de lá?
se sentou, respirando devagar e soltando pelo nariz. Jimin a observou com calma e atenção. Ela tinha um rosto delicado, quase etéreo, mas havia algo nele que denunciava cansaço constante. A pele clara parecia sempre à mercê da luz do ambiente, ressaltando as olheiras suaves sob os olhos grandes e escuros, que carregavam uma mistura de alerta e vulnerabilidade. O olhar era inquieto, como se estivesse sempre esperando que algo desse errado, mesmo quando tudo parecia em ordem.
Os cabelos castanhos escuros caíam de forma despretensiosa ao redor do rosto, presos de maneira frouxa, com algumas mechas escapando e emoldurando suas feições. A franja fina repousava sobre a testa, dando-lhe um ar juvenil, quase frágil. Os lábios eram cheios, naturalmente rosados, geralmente pressionados um contra o outro num gesto contido, típico de quem tenta manter o controle da própria respiração.
Ela usava acessórios simples — pequenos brincos dourados e colares delicados que repousavam sobre o colo — detalhes discretos que contrastavam com a tensão evidente em seus ombros. Havia nela uma beleza silenciosa, nada chamativa, mas impossível de ignorar; o tipo de beleza que não pedia atenção, apenas permanecia.
Jimin percebeu, mais uma vez, que parecia sempre à beira de dizer algo… e de desistir logo em seguida.

— Crise de ansiedade, senhorita Alves? — Jimin perguntou baixinho e então direcionou o olhar para o computador.
— Isso mesmo. Você já deve saber de cor e salteado os sintomas, apesar de hoje eu ter conseguido vir sozinha… parece que hoje só meu coração tá batendo de forma muito descompassada e minhas mãos, tremendo demais, eu mal consigo segurar o celular.

Jimin começou a digitar os sintomas descritos por ela no computador

— Mas a senhorita deveria estar sempre acompanhada… suas crises de ansiedade são sempre muito fortes.

Marina umedeceu os lábios, concordando com ele.

— Hoje eu não quis dar trabalho para ninguém. — Um riso fraco saiu dos lábios de , mas Jimin não riu.
— Sua boca está seca? A senhorita está bem pálida.

fez que sim com a cabeça, afirmando estar com a boca seca.

— Bem seca, e parece que nada faz passar. Nem mesmo os mil chicletes que já chupei.

Jimin voltou a digitar no computador.

— O que mais a senhorita está sentindo além da boca seca, dos tremores e da arritmia?

respirou fundo antes de responder, como se organizar os próprios pensamentos fosse tão difícil quanto controlar o corpo.

— Falta de ar… — confessou, levando a mão ao peito por um instante. — Não chega a ser aquela sensação de que vou desmaiar, mas é como se o ar não fosse suficiente. E minha cabeça tá… barulhenta. Pensamentos demais ao mesmo tempo.

Jimin ergueu o olhar do computador por alguns segundos, analisando-a com atenção clínica. O jeito como ela mantinha os ombros tensos, os dedos se mexendo nervosos sobre o próprio colo, denunciava muito mais do que as palavras.

— Náusea? Tontura? — perguntou, a voz ainda calma, quase anestésica.
— Um pouco de tontura quando eu levantei da cadeira da recepção. Náusea não… só esse aperto aqui. — Ela pressionou o centro do peito, logo afastando a mão, como se tivesse medo de parecer exagerada.

Jimin anotou mais algumas coisas, depois girou levemente a cadeira em sua direção.

— A senhorita tomou a medicação hoje?
— Tomei. No horário certinho. — respondeu rápido demais. — Eu juro que não pulei nenhuma dose.

Ele assentiu, sem demonstrar julgamento.

— Dormiu bem essa noite?

desviou o olhar, fixando um ponto qualquer da parede.

— Dormir… dormir mesmo, não. Acho que umas três horas, no máximo.

Jimin suspirou baixo, passando a mão pelo rosto antes de voltar a encará-la.

— Falta de sono piora bastante os sintomas. — disse, com suavidade. — Algum fator diferente hoje? Algo que possa ter desencadeado a crise?

Ela hesitou. Por um segundo, pareceu considerar mentir.

— Trabalho. — acabou dizendo. — O movimento na cafeteria foi maior que o normal, muito barulho, muita gente… eu tentei aguentar até o fim do turno, mas meu corpo simplesmente não colaborou.

Jimin observou o uniforme mais uma vez, agora ligando os pontos. O nome no crachá invisível, os cafés que ele pegava apressado sem nunca prestar atenção em quem os servia.

— Entendo. — murmurou. — Vamos fazer o seguinte: vou aferir seus sinais vitais e depois quero que a senhorita fique em observação por um tempo. Nada de ir embora correndo hoje, combinado?

assentiu devagar.

— Tá bom, enfermeiro Park.

Ele fez uma breve pausa antes de completar, num tom um pouco mais humano do que profissional:

— E … pedir ajuda não é dar trabalho.

Ela levantou os olhos para ele nesse instante, surpresa com o uso do seu primeiro nome. Por um momento, o coração pareceu errar o compasso por um motivo completamente diferente.




Taehyung bufou alto assim que se sentou na mesa da cafeteria Aurora. A câmera nas mãos, que tremiam, ainda estava na última foto que ele havia tirado.
A imagem era simples demais para causar aquele nó em seu peito: a vitrine embaçada pelo frio da manhã, o reflexo das luzes quentes do interior e, quase imperceptível, a silhueta de uma mulher passando do lado de fora. Mesmo borrada, havia algo nela — a postura, talvez — que o fizera apertar o botão do obturador sem pensar.

— Droga… — murmurou, deslizando o polegar pela tela.

Ele sabia que não era uma foto extraordinária. Não era técnica, não era perfeita. Mas era exatamente esse tipo de imagem que o perseguia ultimamente: instantes incompletos, pessoas que não ficavam, histórias que ele não conseguia terminar.
Taehyung apoiou os cotovelos na mesa e passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso da frustração se acomodar em seus ombros. Fotografar costumava ser refúgio. Agora parecia cobrança.

— Café preto? — a voz suave o trouxe de volta.

Ele ergueu os olhos e assentiu, encontrando o sorriso discreto da atendente. A cafeteria Aurora era um dos poucos lugares onde ele ainda conseguia respirar. Talvez porque ali ninguém o conhecesse como “o fotógrafo promissor que não entregou o esperado”. Ali, ele era só mais alguém tentando sobreviver aos próprios pensamentos.
Quando a xícara foi colocada à sua frente, o aroma forte subiu, quente, quase reconfortante. Taehyung fechou os olhos por um segundo antes de beber, tentando se convencer de que aquele dia podia ser diferente.
Do outro lado da cafeteria, uma risada ecoou — baixa, mas genuína. Ele abriu os olhos no mesmo instante, o olhar sendo puxado quase contra a vontade para a mesa próxima à janela.
E então, pela primeira vez naquela manhã, Taehyung sentiu algo além do cansaço.
Curiosidade.
Ele não levantou a câmera. Ainda não. Mas soube, no fundo, que aquela não seria a última vez que seus olhos insistiriam em encontrar alguém antes mesmo de sua lente.
E talvez — só talvez — aquela história também não fosse para ser capturada em uma única fotografia.
Jungkook estava de folga, então os dois resolveram se encontrar, e depois dariam uma passada no hospital comunitário para verem rapidamente Jimin, que estava mais sumido do que o normal.
Não demorou muito para que o amigo chegasse, com suas roupas pretas e largas, o boné na cabeça e os grandes olhos de jabuticaba procurando por Taehyung.
O amigo sorriu e discretamente elevou algumas dezenas da voz, chamando por ele:

— Ei, Jungkook! — Acenou na direção do amigo, que logo suavizou a expressão ao reconhecê-lo.
— Que milagre é esse? Você não escolheu uma mesa escondida da multidão hoje.
— Peguei a primeira mesa vaga que consegui enxergar hoje. Nem reparei que ela é bem no meio da cafeteria.

Taehyung girou a cabeça para os dois lados, finalmente reparando que ele estava praticamente no olho do furacão.

— Vamos trocar? Me sinto sufocado em lugares assim quando me sinto cercado de gente por todos os lados

Jungkook conhecia o amigo bem demais, sabia o quanto ele poderia ficar inquieto se se sentisse acuado.

— Claro, vamos sentar naquela mesa ali perto da janela, hyung.

Jungkook apontou para o lugar vago.

— Vamos rápido antes que alguém chegue primeiro.

Jungkook saiu em disparada rumo à mesa, como se sua vida dependesse disso e arrancou uma gargalhada sincera de Taehyung, que se levantou pegando a câmera e a bolsa e indo atrás do amigo.
Quando se sentaram, ele viu a garçonete que havia feito seu pedido quando chegou. Taehyung se levantou depressa, já puxando a alça da bolsa por sobre o ombro.

— Ah, droga! Eu já havia feito meu pedido, vou lá pegar com ela.

Ele deu dois passos apressados e quase não percebeu quando ela virou ao mesmo tempo, vindo na direção oposta. O choque foi leve, mas suficiente para fazê-los parar.

— Me desculpa! — os dois disseram juntos.

O pedido de desculpas saiu automático, quase engasgado. Quando Taehyung tentou se afastar, sentiu algo roçar seus dedos. A mão dela. Foi rápido, um toque quase inexistente — mas o bastante para fazê-lo congelar por um segundo a mais do que o normal.
Ele deu dois passos apressados e quase não percebeu quando ela virou ao mesmo tempo, vindo na direção oposta. O choque foi leve, mas suficiente para fazê-los parar.

— Me desculpa! — os dois disseram juntos.

O pedido de desculpas saiu automático, quase engasgado. Quando Taehyung tentou se afastar, sentiu algo roçar seus dedos. A mão dela. Foi rápido, um toque quase inexistente — mas o bastante para fazê-lo congelar por um segundo a mais do que o normal.
Ele baixou o olhar instintivamente, tentando entender por que aquele contato tão simples tinha causado um arrepio tão estranho. Foi então que leu o nome costurado no uniforme, logo acima do bolso:

.

— Eu… — ele pigarreou, ajeitando a câmera que ainda segurava. — Eu tinha feito um pedido naquela mesa ali.

sorriu de leve, um sorriso educado, mas com algo tímido no canto dos lábios.

— Ah, sim. Café preto, né?

Taehyung piscou, surpreso por ela lembrar.

— Isso.

Enquanto ela se virava para pegar a bandeja, os dedos deles se tocaram de novo, dessa vez por um segundo a mais. Nenhum dos dois puxou a mão imediatamente. Quando finalmente se afastaram, Taehyung sentiu o peito apertar — uma sensação estranha, familiar e totalmente inesperada.
Ele voltou para a mesa com o pedido nas mãos e a cabeça longe dali.

— Demorou, hein — Jungkook comentou, desconfiado.

Taehyung apenas deu de ombros, tentando ignorar o calor que ainda sentia na ponta dos dedos.

— Trânsito humano — respondeu, antes de dar o primeiro gole no café… que, pela primeira vez em muito tempo, parecia diferente.



Continua...



Encontrou algum erro de script na história? Me mande um e-mail ou entre em contato com o CAA.

Nota da autora: Sem nota.


Nota da scripter: Já começou com tudo, essa promete!! (to sentindo cheiro de faking dating.... gosto hehehe






© 2023 - Atualmente • Fanfic Connection - Todos os direitos reservados.