Era a sexta ou sétima xícara de café que ele engolia rapidamente antes de chamar o próximo paciente. Não foi surpresa para Jimin quando ele encontrou por lá.
Ela era uma paciente com crises de ansiedade recorrentes. Jimin já havia decorado o nome, o sobrenome, o diagnóstico e os remédios que deveria tomar. Todo plantão dele, lá estava ela.
— Alves. — Chamou Jimin da porta de sua sala de triagem.
suspirou pesadamente e então se levantou, indo até a pequena sala. Fechou a porta atrás de si e então Jimin, já sentado em sua mesa, reparou no uniforme que ela usava. O da Cafeteria Aurora, lugar que ele frequentava bastante para buscar seus cafés, mas ele não se lembrava de vê-la por lá. Só pelo hospital.
Mas também, com tanto cansaço pesando os olhos e ombros, como ele se lembraria das garçonetes de lá?
se sentou, respirando devagar e soltando pelo nariz. Jimin a observou com calma e atenção. Ela tinha um rosto delicado, quase etéreo, mas havia algo nele que denunciava cansaço constante. A pele clara parecia sempre à mercê da luz do ambiente, ressaltando as olheiras suaves sob os olhos grandes e escuros, que carregavam uma mistura de alerta e vulnerabilidade. O olhar era inquieto, como se estivesse sempre esperando que algo desse errado, mesmo quando tudo parecia em ordem.
Os cabelos castanhos escuros caíam de forma despretensiosa ao redor do rosto, presos de maneira frouxa, com algumas mechas escapando e emoldurando suas feições. A franja fina repousava sobre a testa, dando-lhe um ar juvenil, quase frágil. Os lábios eram cheios, naturalmente rosados, geralmente pressionados um contra o outro num gesto contido, típico de quem tenta manter o controle da própria respiração.
Ela usava acessórios simples — pequenos brincos dourados e colares delicados que repousavam sobre o colo — detalhes discretos que contrastavam com a tensão evidente em seus ombros. Havia nela uma beleza silenciosa, nada chamativa, mas impossível de ignorar; o tipo de beleza que não pedia atenção, apenas permanecia.
Jimin percebeu, mais uma vez, que parecia sempre à beira de dizer algo… e de desistir logo em seguida.
— Crise de ansiedade, senhorita Alves? — Jimin perguntou baixinho e então direcionou o olhar para o computador.
— Isso mesmo. Você já deve saber de cor e salteado os sintomas, apesar de hoje eu ter conseguido vir sozinha… parece que hoje só meu coração tá batendo de forma muito descompassada e minhas mãos, tremendo demais, eu mal consigo segurar o celular.
Jimin começou a digitar os sintomas descritos por ela no computador
— Mas a senhorita deveria estar sempre acompanhada… suas crises de ansiedade são sempre muito fortes.
Marina umedeceu os lábios, concordando com ele.
— Hoje eu não quis dar trabalho para ninguém. — Um riso fraco saiu dos lábios de , mas Jimin não riu.
— Sua boca está seca? A senhorita está bem pálida.
fez que sim com a cabeça, afirmando estar com a boca seca.
— Bem seca, e parece que nada faz passar. Nem mesmo os mil chicletes que já chupei.
Jimin voltou a digitar no computador.
— O que mais a senhorita está sentindo além da boca seca, dos tremores e da arritmia?
respirou fundo antes de responder, como se organizar os próprios pensamentos fosse tão difícil quanto controlar o corpo.
— Falta de ar… — confessou, levando a mão ao peito por um instante. — Não chega a ser aquela sensação de que vou desmaiar, mas é como se o ar não fosse suficiente. E minha cabeça tá… barulhenta. Pensamentos demais ao mesmo tempo.
Jimin ergueu o olhar do computador por alguns segundos, analisando-a com atenção clínica. O jeito como ela mantinha os ombros tensos, os dedos se mexendo nervosos sobre o próprio colo, denunciava muito mais do que as palavras.
— Náusea? Tontura? — perguntou, a voz ainda calma, quase anestésica.
— Um pouco de tontura quando eu levantei da cadeira da recepção. Náusea não… só esse aperto aqui. — Ela pressionou o centro do peito, logo afastando a mão, como se tivesse medo de parecer exagerada.
Jimin anotou mais algumas coisas, depois girou levemente a cadeira em sua direção.
— A senhorita tomou a medicação hoje?
— Tomei. No horário certinho. — respondeu rápido demais. — Eu juro que não pulei nenhuma dose.
Ele assentiu, sem demonstrar julgamento.
— Dormiu bem essa noite?
desviou o olhar, fixando um ponto qualquer da parede.
— Dormir… dormir mesmo, não. Acho que umas três horas, no máximo.
Jimin suspirou baixo, passando a mão pelo rosto antes de voltar a encará-la.
— Falta de sono piora bastante os sintomas. — disse, com suavidade. — Algum fator diferente hoje? Algo que possa ter desencadeado a crise?
Ela hesitou. Por um segundo, pareceu considerar mentir.
— Trabalho. — acabou dizendo. — O movimento na cafeteria foi maior que o normal, muito barulho, muita gente… eu tentei aguentar até o fim do turno, mas meu corpo simplesmente não colaborou.
Jimin observou o uniforme mais uma vez, agora ligando os pontos. O nome no crachá invisível, os cafés que ele pegava apressado sem nunca prestar atenção em quem os servia.
— Entendo. — murmurou. — Vamos fazer o seguinte: vou aferir seus sinais vitais e depois quero que a senhorita fique em observação por um tempo. Nada de ir embora correndo hoje, combinado?
assentiu devagar.
— Tá bom, enfermeiro Park.
Ele fez uma breve pausa antes de completar, num tom um pouco mais humano do que profissional:
— E … pedir ajuda não é dar trabalho.
Ela levantou os olhos para ele nesse instante, surpresa com o uso do seu primeiro nome. Por um momento, o coração pareceu errar o compasso por um motivo completamente diferente.
Taehyung bufou alto assim que se sentou na mesa da cafeteria Aurora. A câmera nas mãos, que tremiam, ainda estava na última foto que ele havia tirado.
A imagem era simples demais para causar aquele nó em seu peito: a vitrine embaçada pelo frio da manhã, o reflexo das luzes quentes do interior e, quase imperceptível, a silhueta de uma mulher passando do lado de fora. Mesmo borrada, havia algo nela — a postura, talvez — que o fizera apertar o botão do obturador sem pensar.
— Droga… — murmurou, deslizando o polegar pela tela.
Ele sabia que não era uma foto extraordinária. Não era técnica, não era perfeita. Mas era exatamente esse tipo de imagem que o perseguia ultimamente: instantes incompletos, pessoas que não ficavam, histórias que ele não conseguia terminar.
Taehyung apoiou os cotovelos na mesa e passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso da frustração se acomodar em seus ombros. Fotografar costumava ser refúgio. Agora parecia cobrança.
— Café preto? — a voz suave o trouxe de volta.
Ele ergueu os olhos e assentiu, encontrando o sorriso discreto da atendente. A cafeteria Aurora era um dos poucos lugares onde ele ainda conseguia respirar. Talvez porque ali ninguém o conhecesse como “o fotógrafo promissor que não entregou o esperado”. Ali, ele era só mais alguém tentando sobreviver aos próprios pensamentos.
Quando a xícara foi colocada à sua frente, o aroma forte subiu, quente, quase reconfortante. Taehyung fechou os olhos por um segundo antes de beber, tentando se convencer de que aquele dia podia ser diferente.
Do outro lado da cafeteria, uma risada ecoou — baixa, mas genuína. Ele abriu os olhos no mesmo instante, o olhar sendo puxado quase contra a vontade para a mesa próxima à janela.
E então, pela primeira vez naquela manhã, Taehyung sentiu algo além do cansaço.
Curiosidade.
Ele não levantou a câmera. Ainda não. Mas soube, no fundo, que aquela não seria a última vez que seus olhos insistiriam em encontrar alguém antes mesmo de sua lente.
E talvez — só talvez — aquela história também não fosse para ser capturada em uma única fotografia.
Jungkook estava de folga, então os dois resolveram se encontrar, e depois dariam uma passada no hospital comunitário para verem rapidamente Jimin, que estava mais sumido do que o normal.
Não demorou muito para que o amigo chegasse, com suas roupas pretas e largas, o boné na cabeça e os grandes olhos de jabuticaba procurando por Taehyung.
O amigo sorriu e discretamente elevou algumas dezenas da voz, chamando por ele:
— Ei, Jungkook! — Acenou na direção do amigo, que logo suavizou a expressão ao reconhecê-lo.
— Que milagre é esse? Você não escolheu uma mesa escondida da multidão hoje.
— Peguei a primeira mesa vaga que consegui enxergar hoje. Nem reparei que ela é bem no meio da cafeteria.
Taehyung girou a cabeça para os dois lados, finalmente reparando que ele estava praticamente no olho do furacão.
— Vamos trocar? Me sinto sufocado em lugares assim quando me sinto cercado de gente por todos os lados
Jungkook conhecia o amigo bem demais, sabia o quanto ele poderia ficar inquieto se se sentisse acuado.
— Claro, vamos sentar naquela mesa ali perto da janela, hyung.
Jungkook apontou para o lugar vago.
— Vamos rápido antes que alguém chegue primeiro.
Jungkook saiu em disparada rumo à mesa, como se sua vida dependesse disso e arrancou uma gargalhada sincera de Taehyung, que se levantou pegando a câmera e a bolsa e indo atrás do amigo.
Quando se sentaram, ele viu a garçonete que havia feito seu pedido quando chegou. Taehyung se levantou depressa, já puxando a alça da bolsa por sobre o ombro.
— Ah, droga! Eu já havia feito meu pedido, vou lá pegar com ela.
Ele deu dois passos apressados e quase não percebeu quando ela virou ao mesmo tempo, vindo na direção oposta. O choque foi leve, mas suficiente para fazê-los parar.
— Me desculpa! — os dois disseram juntos.
O pedido de desculpas saiu automático, quase engasgado. Quando Taehyung tentou se afastar, sentiu algo roçar seus dedos. A mão dela. Foi rápido, um toque quase inexistente — mas o bastante para fazê-lo congelar por um segundo a mais do que o normal.
Ele deu dois passos apressados e quase não percebeu quando ela virou ao mesmo tempo, vindo na direção oposta. O choque foi leve, mas suficiente para fazê-los parar.
— Me desculpa! — os dois disseram juntos.
O pedido de desculpas saiu automático, quase engasgado. Quando Taehyung tentou se afastar, sentiu algo roçar seus dedos. A mão dela. Foi rápido, um toque quase inexistente — mas o bastante para fazê-lo congelar por um segundo a mais do que o normal.
Ele baixou o olhar instintivamente, tentando entender por que aquele contato tão simples tinha causado um arrepio tão estranho. Foi então que leu o nome costurado no uniforme, logo acima do bolso:
.
— Eu… — ele pigarreou, ajeitando a câmera que ainda segurava. — Eu tinha feito um pedido naquela mesa ali.
sorriu de leve, um sorriso educado, mas com algo tímido no canto dos lábios.
— Ah, sim. Café preto, né?
Taehyung piscou, surpreso por ela lembrar.
— Isso.
Enquanto ela se virava para pegar a bandeja, os dedos deles se tocaram de novo, dessa vez por um segundo a mais. Nenhum dos dois puxou a mão imediatamente. Quando finalmente se afastaram, Taehyung sentiu o peito apertar — uma sensação estranha, familiar e totalmente inesperada.
Ele voltou para a mesa com o pedido nas mãos e a cabeça longe dali.
— Demorou, hein — Jungkook comentou, desconfiado.
Taehyung apenas deu de ombros, tentando ignorar o calor que ainda sentia na ponta dos dedos.
— Trânsito humano — respondeu, antes de dar o primeiro gole no café… que, pela primeira vez em muito tempo, parecia diferente.
— Você ainda vai colapsar, viu? O burnout vai te mandar lembranças!
V entregou o café para o melhor amigo, que não recusou, apenas aceitou o mesmo em silêncio.
Levou a xícara aos lábios e tomou do líquido preto e quente. O líquido quente deslizou pela boca com suavidade, espalhando um amargor reconfortante antes de descer pela garganta. O calor percorreu o caminho lentamente, aquecendo por dentro, como se afrouxasse a tensão acumulada no peito. Por um instante breve, tudo pareceu desacelerar — o corpo respondendo ao conforto simples, quase automático, daquele gole.
— Esse café vai salvar meu plantão.
Jimin sorriu na direção dos amigos e esfregou os olhos com as duas mãos logo em seguida, como se aquele gesto fosse levar todo o cansaço para longe de seu corpo e mente.
— De quantos plantões seguidos você vem, Jimin-ssi?
Jungkook piscou os grandes olhos na direção do amigo, esperando pela resposta que ele já sabia que viria: “Isso importa mesmo?”
— Aish! Isso importa mesmo? Eu tô feliz aqui no hospital, como nunca estive.
Jungkook revirou os olhos e V bufou alto, cruzando os braços abaixo do peito. Jimin nunca sabia quando parar, a não ser que o corpo realmente entrasse em colapso ou quase isso, e pelo que conheciam do amigo, aquilo não estava muito longe de acontecer.
— Importa quando sua pálpebra direita não para de piscar. Meu Deus, você é teimoso às vezes, sabia? — V resmungou, ainda com os braços cruzados abaixo do peito.
— Especialmente quando se trata do hospital. Parece que você precisa salvar todas as vidas da Coreia do Sul!
Jimin sorriu, quase travesso, com o comentário de Jungkook.
— Ninguém morre no meu plantão, mesmo que eu seja só um simples enfermeiro de triagem.
— Nós três sabemos que você faz bem mais que isso, não é? — V ergueu uma das sobrancelhas.
Jimin era muito mais do que um simples enfermeiro plantonista responsável pela triagem. Ele nunca ficava só na triagem, sempre estava pelos corredores, sempre andando atrás dos outros enfermeiros, verificando onde poderia ajudar. E ele sempre podia, já que era o enfermeiro mais antigo do hospital e o mais experiente.
— Vocês vieram me ver ou ficar me dando lição de moral? — Jimin cruzou os braços, como uma criança mimada.
Jungkook lhe bagunçou os cabelos.
— Sabemos que seu tempo de intervalo nos plantões é curto. Só queríamos ver se você ainda estava vivo e te trazer um café.
— E eu aprecio a visita de vocês. São sempre bem vindos nos meus plantões e fora deles também.
Os três se despediram com abraços rápidos e promessa de se verem novamente fora do hospital no próximo final de semana em que os três estivessem livres, como sempre faziam.
De lá Jungkook olhou no relógio e viu que ainda não eram dez da noite, resolveu que trabalharia o restante da noite e quem sabe madrugada também.
🍕🍕🍕
Mais um plantão que precisaria vencer na clínica veterinária da tia. Ela não era nenhum pouco noturna, e as madrugadas acordadas eram um suplício. amava o curso de veterinária, mas detestava os plantões.
Acompanhava o entregador do aplicativo pelo GPS do mesmo, as unhas batendo na mesa fazendo o barulho delas ecoarem pela clínica no espaço de internações.
O pontinho no mapa avançava devagar demais para o gosto dela.
— Vamos, pelo amor de Deus… — murmurou, inclinando-se sobre o celular como se isso pudesse acelerar o trajeto.
suspirou e se levantou, andando até uma das baias. Um cachorro de porte médio dormia encolhido, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo. Ela passou os dedos com cuidado entre as grades, fazendo um carinho leve na cabeça do animal. O toque ajudou a aliviar um pouco da inquietação que se acumulava em seus ombros.
Voltou para a mesa quando o celular vibrou. Seu pedido está chegando.
O alívio veio imediato. Ela se jogou na cadeira, esticando as pernas e apoiando a cabeça no encosto, fechando os olhos por alguns segundos. Plantões sempre pareciam eternos até aquele momento específico: a comida chegando, marcando uma pequena vitória contra o cansaço.
Pouco depois, a campainha da clínica tocou, estridente demais para o horário. quase pulou da cadeira. Caminhou até a porta e a abriu, encontrando o entregador com a mochila térmica pendurada nos ombros e uma expressão igualmente exausta.
— ? — ele perguntou, conferindo o nome no aplicativo.
— Sou eu. — sorriu, já estendendo a mão para pegar a sacola.
Quando os dedos deles se tocaram ao trocar a embalagem, ela sentiu o calor escapando da caixa de pizza e percebeu que aquele pequeno detalhe era, estranhamente, a melhor parte da madrugada até então.
— Bom plantão — ele desejou antes de se afastar.
fechou a porta, apoiando a testa nela por um segundo, respirando fundo. Ainda tinha horas pela frente. Mas, com comida quente e alguns pacientes dormindo tranquilos, talvez aquela madrugada fosse um pouco mais suportável.
🍕🍕🍕
Jungkook pensou um pouco, franzindo o cenho. De onde ele a conhecia? Ou será que só estava cansado por estar acordado há duas noites? Piscou os olhos algumas vezes, tentando buscar na memória. Apesar do rosto familiar, ele sentia que a conhecia de algum lugar.
— Aish! Devo estar enlouquecendo, já que estou fazendo igual ao Jimin-ssi e trabalhando há duas madrugadas ao invés de descansar. É só mais uma cliente com fome durante a madrugada, de onde eu poderia conhecê-la?
Colocou o capacete de volta e então subiu na moto, não sem antes olhar para trás e ver a garota brincando com um filhotinho de doberman.
— Uaaah, esse cachorro é bonito desde filhote, né? — Conversou consigo mesmo enquanto levava uma das mãos até o guidão.
E então seus olhos voltaram a se encontrar com os da veterinária.
Por um segundo a mais do que deveria, Jungkook ficou parado. O capacete já encaixado, a moto ligada, mas o corpo imóvel, como se algo o segurasse ali.
Os olhos dela estavam curiosos, atentos, e havia um sorriso pequeno em seus lábios enquanto o filhotinho de doberman mordiscava distraído o cadarço do tênis. Era uma cena simples demais para ficar gravada na memória — e ainda assim, parecia importante.
Ela ergueu o olhar quando percebeu que estava sendo observada.
O contato visual foi direto. Limpo. Silencioso.
Jungkook sentiu o estômago revirar de leve, uma sensação estranha, como quando você lembra de uma música sem saber de onde ela veio. Não era paixão. Não era nada grandioso. Era só… familiar.
arqueou uma sobrancelha, divertida, e fez um pequeno aceno com a mão livre, sem dizer nada. O gesto simples foi o suficiente para arrancar dele um meio sorriso automático.
— Tá mesmo ficando maluco… — murmurou para si, desviando o olhar.
Girou o acelerador e a moto respondeu de imediato, o som quebrando o silêncio da madrugada. Ainda assim, mesmo enquanto se afastava, Jungkook sentia o peso daquele olhar nas costas, como se tivesse deixado algo para trás sem perceber.
No retrovisor, a clínica ficou menor, a luz branca se tornando apenas um ponto distante. Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
Não era a primeira entrega da noite. Nem a primeira veterinária cansada que encontrava. E, com certeza, não deveria ser a última coisa em que pensaria antes de finalmente dormir.
Mas, mesmo assim, quando o sinal fechou algumas quadras depois, Jungkook se pegou sorrindo de novo — sem saber exatamente por quê.
E isso, mais do que o cansaço, foi o que realmente o deixou inquieto.
Olhou as crianças, uma por uma. Quando ele se inscreveu no projeto para ser voluntário, ainda acreditava na própria carreira como produtor musical. Hoje, olhando para as crianças e sem o seu maior cliente dentro da produtora, ele se sentia tal qual a música de Katy Perry: Como um saco plástico flutuando com o vento.
Agora nada parecia fazer muito sentido quando ele parava para pensar. Min Yoongi estava no auge de seus trinta e três anos, era um produtor musical independente há quinze anos e tinha uma carreira que poderia ser considerada uma das mais consolidadas de São Paulo e fora dela.
Até aquele momento.
Será que ele estava passando pela famosa crise dos trinta? Ou será que realmente havia entrado em decadência depois de quinze anos de sucesso?
Aquelas perguntas — e muitas outras, estavam passando por sua cabeça há dias. E agora sem o principal cliente da produtora a cabeça não parava.
Diante daquelas crianças, que o olhavam como se ele fosse a maior esperança que elas tinham naquele momento, seu coração deu um salto no peito.
Ele não estava sendo esperança nem para ele mesmo, como podia ser a esperança daquelas crianças?
— Você é Min Yoongi? — Uma voz suave o despertou de seus pensamentos, alertando-o de voltar para o mundo real. — Sou a professora de música oficial das crianças.
Ele se virou na direção da voz, apenas para ter a visão de . Professora de música das crianças do Instituto Vozes do Amanhã.
Yoongi definitivamente não esperava que a tal professora fosse tão jovem e bonita. Bonita até demais…
tinha uma beleza silenciosa, daquelas que não pedem atenção, mas acabam prendendo o olhar mesmo assim. Os cabelos longos e lisos, de um preto profundo, caíam retos sobre os ombros, emoldurando o rosto pálido de traços suaves. Havia algo quase etéreo nela — como se estivesse sempre um pouco distante, mesmo estando ali.
Os olhos grandes e atentos carregavam uma expressão calma, observadora, como quem escuta mais do que fala. O olhar não era duro, tampouco ingênuo; era sereno, mas firme, como alguém que já aprendera a sustentar o próprio silêncio. Os lábios tinham um tom natural, discreto, raramente curvados em sorrisos largos — ainda assim, havia neles uma gentileza contida.
Vestia-se com simplicidade elegante: roupas escuras, cortes retos, nada chamativo. Ainda assim, tudo nela parecia intencional, como se cada detalhe fosse escolhido para não gritar mais alto do que sua presença tranquila. Brincos finos balançavam levemente quando ela se movia, acrescentando um toque sutil de delicadeza.
Não era uma beleza óbvia ou espalhafatosa. Era daquelas que se revelam aos poucos — e talvez por isso mesmo, difícil de ignorar.
Yoongi percebeu, com um leve incômodo no peito, que não era apenas surpresa o que sentia. Era curiosidade.
E, naquele momento, isso parecia mais perigoso do que qualquer crise criativa.
— Sim, sou eu! Muito prazer, senhorita Sanguinetti. — Yoongi ergueu a mão na direção dela.
sorriu sem mostrar os dentes, e segurou a mão dele, sentindo o calor de sua palma contrastar com o frio da sua.
— O prazer é todo nosso de recebê-lo como voluntário em nosso Instituto. Alguém com tanto renome disposto a ajudar as crianças com a música é muito bonito.
A frase caiu pesada sobre os ombros de Yoongi. “Alguém com tanto renome”
Como ele explicaria que agora, naquele exato momento ele se sentia um completo fracasso? Aliás, ela não precisava saber daquilo.
Ninguém precisava. Nem os melhores amigos, Seokjin e Namjoon.
— Estou um pouco nervoso, confesso. Não sou de aparecer muito em público assim, gosto mais dos bastidores.
sorriu, dessa vez mostrando os dentes e Yoongi sentiu o incômodo no peito ficar um pouco mais intenso.
— São apenas crianças curiosas e cheias de vontade de aprender senhor Min. Aqui o seu status não importa, sabe? Somente seu tempo e dedicação.
— Prometo dar o meu melhor.
Aquela afirmação saiu de forma espontânea. Porque Yoongi era assim. Ele podia estar no fundo do poço — ou quase chegando lá, que mesmo assim daria seu melhor.
Ele sempre dava o máximo em tudo o que fazia. Tanto na vida profissional, quanto fora dela. E mesmo que estivesse se sentindo o pior dos produtores em todo o mundo, ali no Instituto ele daria sim o seu melhor.
— Vou apresentá-lo às crianças.
caminhou alguns passos à frente, batendo palmas duas vezes para chamar a atenção.
— Crianças, atenção um pouquinho! — a voz dela saiu doce, mas firme o suficiente para silenciar o burburinho da sala.
Yoongi ficou logo atrás, as mãos nos bolsos do casaco, sentindo um frio estranho no estômago. Não era palco, não era estúdio, não era plateia exigente. Ainda assim, parecia mais intimidante do que qualquer premiação que já tivesse pisado.
Os olhinhos curiosos se viraram para ele quase ao mesmo tempo.
— Esse é o senhor Min Yoongi — começou, pousando a mão levemente em seu braço, como se o ancorasse ali. — Ele é produtor musical e vai passar um tempo com a gente, ajudando nas aulas e criando músicas com vocês.
— Ele é famoso? — uma das crianças perguntou sem cerimônia, arrancando algumas risadinhas.
Yoongi abriu a boca, pronto para negar, mas foi mais rápida.
— Ele é experiente — respondeu com um sorriso tranquilo. — Mas aqui, ele é só o Yoongi.
Algo naquela frase fez o peito dele apertar.
— É… só Yoongi tá bom — ele completou, coçando a nuca, um pouco sem jeito. — Eu não sou muito bom falando, mas sou bom ouvindo. E prometo ensinar tudo o que eu souber, se vocês tiverem paciência comigo.
Houve um breve silêncio.
Até que uma garotinha levantou a mão.
— Você sabe fazer música triste?
A pergunta o pegou desprevenido.
Yoongi piscou uma vez, depois duas. Então sorriu de canto, pela primeira vez desde que chegara.
— Sei — respondeu com honestidade. — Mas também sei fazer música feliz. A gente escolhe juntos qual tocar.
Os rostos se iluminaram.
observava a cena em silêncio, percebendo algo que talvez nem ele tivesse notado ainda: pela primeira vez em muito tempo, Min Yoongi não parecia perdido.
Ele parecia… necessário.
Continua...
Encontrou algum erro de script na história? Me mande um e-mail ou entre em contato com o CAA.
Nota da autora: Oi amigas! O bloqueio criativo me pegou esse mês, por isso o capítulo bem curtinho, perdão! Conheçam Yoongi e Lívia, espero que gostem dos dois.
Nota da scripter: Nunca vai ser "só Yoongi", né hehehee