Indigo



Finalizada: 12/12/2025.


— E eu sei que você se preocupa à noite, que eu não vou encontrar meu caminho…
— E como eu não me preocuparia? Apesar que eu não deveria. Não depois de tudo.

Meus olhos arderam, as lágrimas começando a brotar no canto dos mesmos, a memória voltando… não que ela me abandonasse. Mas com ali à minha frente, tudo vinha com mais intensidade.

— E eu tô cansado de mentir pra mim mesmo só pra passar mais um dia. Minha cabeça diz que eu nunca deveria ter ido embora e que meus pés logo vão me levar à morte.
— Não diga bobagens, ! — deu dois passos impulsivamente, cortando a distância entre nós dois.

Foi o suficiente para que a ponta de meus dedos traçasse a linha de seu maxilar, pedindo permissão. Uma permissão que eu sabia não me pertencer mais.

— E eu não entendo por que sempre me sinto morto e sozinho.

Silêncio enquanto ela fecha os olhos cedendo ao meu toque.

— Bom, eu costumava brilhar como ouro, agora tô todo em indigo. Eu entreguei um pedaço do meu coração, aí eu saí correndo… Minha cabeça tá nas nuvens, mas não me sinto perto do sol.

Um suspiro cansado saiu dos lábios de e então ela abriu os olhos, se afastando, deixando minha mão pendurada no vazio por alguns segundos antes de cair ao lado do meu corpo febril.

— A culpa não foi sua por não ter dado certo, a culpa foi minha. Por achar que você daria conta do recado.

Eu engoli em seco, passei as mãos pelo rosto atônito. Ela não deixava de ter razão. Eu não dei mesmo conta do recado. As lágrimas antes presas, desataram. Vieram em ondas, o meu corpo se retraindo em espasmos de dor e arrependimento.

— E a luz vai sumindo do meu rosto, e as lágrimas caem como chuva. Então eu transformo minhas palavras em fé, espero que seja eu que eles salvem. — Pausei apenas para reunir fôlego. — Tô começando a questionar se Deus tá tentando me ensinar uma lição. O Senhor sabe que tô começando a me perguntar se minhas verdadeiras cores mudaram desde que te deixei.
— Te vejo através da lágrima que brota no canto dos olhos quando te reconheço como alguém que já amei muito. Mas hoje eu odeio você .

Agora eram as lágrimas dela que escorriam livremente por seu rosto bonito. Eu tentei me aproximar outra vez, mas ela recuou mais dois passos, aumentando ainda mais a distância entre nós dois.

— Eu odeio você por desistir de nós. Eu odeio você por me machucar. Eu te odeio por me fazer chorar, por me deixar, por não estar lá quando mais precisei de você. Eu te odeio pelo que você fez, por arruinar tudo, por me fazer confiar em você quando você estava prestes a destruir essa confiança. Eu te odeio mais por me fazer odiar a mim mesma que apesar de tudo que você me fez ainda levo o sentimento de me preocupar com você.

Apertei os olhos deixando as lágrimas quentes voltarem a cair pelo meu rosto.

— Eu não sei o que fazer … eu não sei o que pensar, como agir, como viver sem você. Mas eu sei que não te mereço, que não sou o suficiente. Você merece alguém inteiro e não alguém quebrado como eu.
— A hora de consertar o telhado é quando o tempo está bom. Enquanto chove, cuide de você. Volte para casa , tá na hora.
— Eu costumava brilhar como ouro, agora tô todo em índigo. Minhas cores tão mais escuras e frias, acho que tá na hora de eu voltar pra casa… você volta comigo? Você fica, ?

Me aproximei só o suficiente para que ela sentisse minha respiração quebrada.

— Ficar seria tolerar suas mancadas. Você precisa perder pra entender onde errou, que isso que você faz é um erro, um dos feios. Que evitar e não tocar mais no assunto não é perdão ou esquecimento. É sufocar. E eu estava sufocando… Partes de mim querem ir embora, partes de mim querem ficar. Ainda não terminei de gostar de você. Mas consegui. Agora fui. Porque comecei isso querendo ser sua companheira, passei a cúmplice das suas maldades, e ficar dessa vez vai me fazer sua comparsa. Não é um “até amanhã” nem “até breve” e nem “até mais”. É um “até você mudar” ou “até você não ser mais quem você é”. Até nunca, então.

As últimas palavras dela pareciam atravessar meu peito com a precisão lenta e cruel de uma lâmina que já conhecia o caminho.
respirou fundo, como quem reúne toda a força que restou apenas para não desabar ali mesmo. Ela virou o rosto um pouco para o lado, evitando meus olhos, como se olhar para mim fosse o mesmo que se queimar.

— Adeus, .

Não houve grito. Não houve raiva. Apenas a devastadora firmeza de quem finalmente escolheu sobreviver.
Eu dei um passo trêmulo na direção dela, mas levantou a mão — um gesto pequeno, silencioso, porém definitivo. Um muro entre nós dois que eu mesmo ajudei a construir.

— Não vem atrás de mim. — A voz dela saiu como um sussurro quebrado. — Não dessa vez.

E então ela se virou.
O som de seus passos foi a coisa mais alta do mundo. Cada passo dela ecoava dentro do meu peito, abrindo espaços vazios onde antes havia promessa, riso, vida.

… — chamei, rouco, mesmo sabendo que não tinha mais o direito de dizer o nome dela assim, como se ainda me pertencesse de alguma forma.

Ela hesitou por menos de um segundo. Eu vi. O ombro dela tremeu, como se houvesse uma batalha silenciosa acontecendo dentro de si. Mas não olhou pra trás. Continuou andando.
E eu fiquei ali, parado, sentindo meu mundo se afastar em passos humanos.
Quando a porta se fechou atrás dela, o silêncio caiu pesado demais para ser suportado. Meus joelhos fraquejaram. O chão parecia distante, como se eu estivesse caindo sem parar.
Eu levei a mão ao rosto, tentando apagar as lágrimas que não paravam de nascer.
“Até você mudar.”
Mas e se eu nunca conseguisse?
“Até você não ser mais quem você é.”
E se eu tivesse me tornado algo irreversível?
Deixei o peso do meu corpo ceder e sentei no chão frio, o peito arfando. A respiração curta, desesperada, como se eu tivesse corrido por quilômetros atrás de algo que jamais conseguiria alcançar.
Porque não havia corrida que me levasse até ela. Não agora.
E pela primeira vez, entendi.
nunca tinha pedido perfeição. Nunca pediu grandiosidade. Ela queria apenas honestidade, presença, gentileza… coisas simples, que eu transformei em fardos impossíveis.
Eu enxuguei o rosto com o dorso da mão e olhei para a porta fechada — o portal que ela atravessou para enfim respirar longe de mim.
Meu coração latejava, doía, gritava o nome dela dentro da caixa torácica como se pudesse forçar o universo a trazê-la de volta. Mas do lado de fora, a casa estava silenciosa. Vazia. Intocada.
E talvez fosse isso o que eu precisava: silêncio. Para entender.
Me levantei com dificuldade, o corpo pesado como se tivesse envelhecido anos em minutos. Fui até a janela e olhei o céu tingido de um azul doentio, quase tão escuro quanto o que eu carregava por dentro.
Indigo.
Sim. Era a cor que me restava agora.
As lágrimas que ainda escorriam não eram mais tempestade — eram confissão. Eram consequência.
E então, pela primeira vez desde que tudo começou, eu sussurrei a única promessa que ainda fazia sentido:

— Eu volto pra casa. Mas dessa vez… eu volto pra mim.

Porque talvez, só talvez, era isso que queria que eu entendesse antes de qualquer coisa.
Ela não pediu para eu correr atrás dela.
Ela pediu para eu me encontrar.
E enquanto a noite caía lenta lá fora, percebi que aquele adeus… não era um ponto final.
Era uma fronteira.
E eu ficaria deste lado até que um dia — quem sabe — eu tivesse luz suficiente para atravessar.
Ou força para seguir outro caminho.
Mas naquele instante, sozinho, vazio, ardendo de saudade e remorso, tudo que eu conseguia fazer era admitir:
Eu ainda brilhava como ouro.
Só tinha esquecido como.



Fim.



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Nota da autora: Sem nota.





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