O coração de batia descompassado, forte, alerta e ao mesmo tempo desarmado.
Sabia muito bem o motivo de estar ali, sabia que precisava decidir, mas a decisão não dependia só dela. Jihoon.
Jihoon e ela estavam juntos há quase quatro anos, ela ansiava por um pedido de casamento para que finalmente pudesse se mudar para Incheon. E inclusive estava na cidade para contar á ele da possível vaga de emprego em um hospital de lá.
Aquela possível mudança era uma luz no fim do túnel, uma esperança que a fez respirar aliviada diante da quantidade de problemas que estava enfrentando em Jangheung. O vício do pai em jogos de azar estava acabando com o restante de paz que ela havia lutado tanto para conseguir após a faculdade. A violência na pacata cidade aumentava dia após dia, e ela temia pela vida do pai.
Quem sabe se mudando para Incheon e conseguindo o emprego no hospital, Jihoon poderia finalmente segurar as pontas enquanto ela pagava a dívida do pai?
Foi aí que seus olhos pularam para a porta do ônibus, parando em mais um ponto. Um homem, com alguns machucados, foi o primeiro a subir. reparou rapidamente nos arranhões dispersos pelo rosto do estranho, até que ele se sentou a seu lado no ônibus.
só percebeu que algo estava errado quando o corpo dele se inclinou minimamente em sua direção. Foi um movimento pequeno demais para chamar atenção, quase casual. Então veio o frio.
Não era o frio do ar-condicionado velho do ônibus, nem o arrepio comum de ansiedade — era um gelado preciso, firme, pressionando sua cintura por baixo do casaco. Um metal liso, impiedoso, que fez todo o seu corpo enrijecer no mesmo instante.
Ela prendeu a respiração.
O coração pareceu falhar uma batida antes de disparar de vez, martelando tão alto que teve certeza de que qualquer pessoa ao redor poderia ouvir. Seus dedos se fecharam com força contra a bolsa em seu colo, as unhas cravando no tecido, enquanto a mente corria em desespero, tentando entender se aquilo estava mesmo acontecendo.
O homem não a olhava. Mantinha o rosto virado para frente, como qualquer passageiro comum. Foi isso que mais a apavorou.
— Não grita — a voz dele veio baixa, quase um sopro, perto demais do seu ouvido.
O metal pressionou um pouco mais, o suficiente para lembrá-la de que não era imaginação.
engoliu em seco, sentindo o gosto amargo do medo se espalhar pela boca. Todos os planos, Incheon, Jihoon, o hospital — tudo pareceu distante demais naquele momento. Restava apenas o agora… e a lâmina fria prometendo silêncio.
O homem virou finalmente o rosto na direção dela, aproximando os lábios de seus ouvidos outra vez:
— Me abraça, ou eu vou ter que levar você comigo…
Os olhos de se arregalaram com o pedido totalmente inusitado para um momento como aquele, e num lapso de consciência ela pensou em gritar, ou dizer que não o faria.
Mas a entrada de mais alguns homens no ônibus fizeram o rapaz intensificar o toque da arma branca em sua cintura, e ela enfiou a mão na bolsa retirando o pózinho de canela em pó que carregava desde o café da manhã — um hábito antigo, quase esquecido. O papel amassou sob sua pressão nervosa.
Com o coração aos pulos, ela rasgou a ponta do envelope com o polegar, sentindo o pó fino se espalhar entre seus dedos. Bastaria um movimento errado para tudo acabar ali.
Quando ele a puxou mais perto, exigindo o abraço, obedeceu. Envolveu o braço em torno do tronco dele, como se estivesse rendida… e então deixou o pó escorrer discretamente entre o casaco e a pele do homem.
Em poucos segundos, a reação começou.
A pele exposta dele foi ficando vermelha, quente, irritada de forma súbita. O homem tensionou o corpo, confuso, respirando fundo, como se algo estivesse fora do lugar.
manteve o rosto enterrado no ombro dele, rezando para que aquele breve caos fosse suficiente para quebrar o controle que ele acreditava ter.
O cheiro de suor misturado a algo cítrico que vinha do pescoço dele invadiu as narinas dela, e por um instante ela se permitiu relaxar sob o toque dele, o corpo vacilando de forma automática.
Passou os braços em volta dele, aprofundando o abraço, enquanto ele afundava o rosto em seu pescoço, escondendo o rosto totalmente.
Os outros homens obviamente buscavam por alguém, que logo raciocinou ser o homem que estava agarrado à ela.
O coração dela batia descompassado, o medo tomando conta de tudo conforme eles se aproximavam deles, até que o confronto inevitável aconteceu.
— Peça ao seu namorado para erguer o rosto, rápido! — O homem tinha uma arma prateada apontada na direção deles.
Bum, bum, bum, bum.
O coração de deu mais alguns saltos dentro do peito, ela precisava pensar rápido.
— Meu namorado está com febre, adormecido. E pode ser contagioso… Está vendo o quanto ele está vermelho?
O homem passou o cano da arma sobre o pescoço dele, mirando por dentro do casaco, vendo a pele toda manchada de vermelho escarlate.
— Ew! Saiam logo daqui, vão! Rápido antes que eu perca a paciência.
O homem passou para o banco de trás, e , que já não sentia mais a faca encostada em sua cintura e sim caída no banco, pensou em como faria para sair dali com aquele homem tão pesado, já que ele havia adormecido de repente. “Porque o efeito do pó de canela foi tão forte assim nele?”
O ônibus voltou a se mover, como se nada tivesse acontecido.
permaneceu imóvel por alguns segundos, o corpo ainda colado ao dele, esperando algum sinal de que tudo aquilo tinha sido apenas um blefe. Nada. O peso morto recostado em seu ombro era real demais.
A faca escorregara do colo dele e agora jazia no banco, esquecida. Com cuidado extremo, ela a empurrou para debaixo do assento com a ponta do pé, o coração disparando a cada pequeno movimento.
— Ei… — murmurou, quase sem voz.
Nenhuma reação.
O cheiro forte da canela misturado ao suor continuava ali, sufocante. O rosto dele estava anormalmente quente quando ela tocou de leve, a pele ainda vermelha, os lábios entreabertos. Não era um sono comum — o corpo estava pesado demais, solto demais. “Talvez tenha inalado…”, pensou, tentando racionalizar enquanto o pânico ameaçava subir.
O ônibus reduziu a velocidade mais uma vez, aproximando-se de outro ponto. sentiu um impulso súbito, quase instintivo. Se ficasse ali, quando ele acordasse… não queria pensar nisso.
Ela se levantou com esforço, segurando-o por baixo do braço, o corpo dele pendendo contra o seu como um fardo impossível. Alguns passageiros olharam, curiosos, mas ninguém disse nada. Para todos, parecia apenas uma namorada ajudando o parceiro doente a descer.
— Com licença… ele não está bem — ela murmurou, a voz trêmula, enquanto o motorista abria a porta.
O ar frio da rua bateu em seu rosto assim que desceram. Foi só então que suas pernas ameaçaram falhar. O ônibus partiu, levando consigo o último vestígio de “segurança”.
Ela o apoiou contra o poste do ponto, respirando fundo, o corpo inteiro tremendo agora que a adrenalina começava a baixar. Precisava se afastar. Precisava de ajuda.
Foi quando seus olhos, ainda marejados, captaram a placa da rua à frente.
O nome fez algo se encaixar dentro dela.
Era perto. Perto demais.
O endereço que Jihoon havia mandado naquela manhã — o prédio em Incheon onde ele estava temporariamente hospedado — ficava a poucos quarteirões dali.
O coração de voltou a acelerar, mas agora por outro motivo. Uma esperança frágil, urgente.
Sem pensar duas vezes, ela passou o braço dele novamente por sobre seus ombros e começou a caminhar, arrastando-o pela calçada estreita, cada passo um esforço sobre-humano.
— Aguenta só mais um pouco… — sussurrou, sem saber se falava para ele ou para si mesma.
A cada esquina, ela reconhecia algo da foto que Jihoon havia enviado. O mercadinho, a farmácia, o prédio antigo com a fachada azul descascada.
Estava chegando.
E, pela primeira vez desde que o homem se sentara ao seu lado no ônibus, sentiu que talvez… só talvez… sobrevivesse àquela noite.
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— O que eu estou fazendo carregando você comigo para a casa do meu namorado? — murmurou, mais para si mesma do que para ele.
parou a alguns metros do prédio de Jihoon. O coração apertou no peito ao reconhecer a fachada, as luzes acesas em algumas janelas, o lugar que deveria significar segurança — e que ela se recusava a manchar com aquilo.
Com cuidado, ela deslizou o braço dele para fora de seus ombros e o deixou escorregar até se sentar no chão, encostado no muro frio do beco lateral. O corpo caiu pesado, a cabeça tombando para o lado, ainda adormecido.
Ela deu um passo para trás. Depois outro.
Por um segundo, pensou em checar se ele respirava. Não o fez.
Afastou-se sem olhar novamente, os passos rápidos, o coração ainda disparado, levando consigo apenas o silêncio… e a certeza de que aquela história precisava terminar ali.
Com os dedos trêmulos ela se dirigiu até o interfone do prédio e digitou: 18. O interfone chamou.
Chamou de novo e nada.
Até que a chamada caiu. bufou, temendo que pelo horário ele já estivesse dormindo.
Digitou de novo o número 18.
E aí uma voz feminina atendeu: “Quem está incomodando uma hora dessas da noite?” — foi o que ouviu do outro lado.
O sorriso que havia surgido morreu de repente. As mãos suaram.
— Desculpe, eu gostaria de falar com o meu namorado, o Jihoon.
A risada esganiçada do outro lado fez as mãos de suarem ainda mais.
— Como ele pode ser seu namorado se ele é meu marido, sua maluca?
sentiu como se um buraco estivesse se abrindo lentamente debaixo de seus pés enquanto as palavras da mulher do outro lado da linha ecoavam em sua mente. As pernas vacilaram, e ela se apoiou na parede para não perder o equilíbrio e cair ao solo.
Umedeceu os lábios numa tentativa falha de recuperar o controle sobre o próprio corpo e mente.
Do outro lado ela ouviu a mulher chamar com um ‘alô?’ e em seguida um ‘eu vou desligar, já é tarde da noite.’
— Meu nome é , e preciso urgente falar com o Jihoon.
— Tá, mas de onde você é? O que você quer com o meu marido à essa hora da noite? — Uma pausa e sussurros ao fundo — Essa tal de quer falar com você, conhece?
“Conhece?” soltou uma risada nervosa ao ouvir a sentença. Se eles se conheciam? Quase quatro anos de namoro será que eram o suficiente para a tal mulher?
— Jihoon, o que tá acontecendo? Quem é essa? — A voz desesperada de soou agora mais próxima ao interfone.
— O que você tá fazendo na minha casa ?
Uma faca, de novo, dessa vez uma faca emocional, e não o metal frio que havia sentido minutos antes dentro do ônibus ao ser ameaçada pelo desconhecido, que aliás ainda estava jogado ali perto do mesmo jeito que havia o deixado.
— Como o que eu to fazendo na sua casa Jihoon? Eu vim ver você, conversar, contar as novidades. Você é meu namorado caramba.
Ao fundo ela pode ouvir a mulher bufar.
— Mais uma que você engana dizendo ser solteiro, Jihoon? Achei que essa sua fase de flertes e conquistinhas baratas já tivesse passado.
— Então é verdade? Você é casado com essa mulher, Jihoon?
O silêncio do outro lado da linha foi longo demais.
sentiu algo se romper dentro do peito, como se o ar tivesse sido arrancado à força dos pulmões. A mão que segurava o interfone começou a tremer, os dedos dormentes, incapazes de soltar ou apertar qualquer coisa. Casado.
A palavra se espalhou por ela devagar, venenosa, descendo pela garganta, queimando o estômago, deixando um gosto metálico na boca. Tudo fez sentido rápido demais — as viagens adiadas, as ligações curtas, as desculpas cansadas, o pedido de casamento que nunca vinha.
Ela riu. Um som baixo, quebrado, que não tinha nada de humor.
— Quase quatro anos… — murmurou, mais para si mesma do que para eles. — Quatro anos esperando um futuro que já tinha dono.
Os olhos arderam, mas nenhuma lágrima caiu. Não ainda. Era como se o choque tivesse congelado tudo por dentro, endurecido o coração por alguns segundos preciosos.
— Você deixou eu sonhar, Jihoon — a voz saiu rouca, controlada à força. — Me deixou planejar uma vida inteira… enquanto voltava pra casa de outra mulher todas as noites.
Do outro lado, ele tentou dizer algo, mas as palavras se atropelaram, inúteis.
se afastou um passo do interfone, sentindo as pernas fraquejarem de novo. Aquela dor não cortava como a faca do ônibus. Era pior.
Essa sangrava por dentro.
E não havia canela, mentira ou instinto que pudesse salvar ela dessa vez.
— , escuta… não é assim — a voz de Jihoon surgiu abafada, apressada, como se tropeçasse nas próprias mentiras. — Eu posso explicar.
— Explicar o quê? — ela perguntou, enfim. A calma na própria voz a assustou. — Em que ano você resolveu mentir pra mim? No primeiro ou no segundo?
A mulher ao fundo soltou uma risada curta, sem humor.
— Amor, não perde tempo. Já tá claro o tipo de pessoa que ela é… aparecendo aqui do nada, no meio da noite.
Aquilo foi o golpe final.
fechou os olhos por um instante. Não para se proteger — mas para guardar aquela versão de si mesma que ainda acreditava nele. Quando tornou a abri-los, algo tinha mudado.
— Não — disse, firme. — O tipo de pessoa que eu sou ficou claro agora.
Ela se inclinou levemente para o interfone, a testa encostando no metal frio.
— Eu atravessei cidades por você, Jihoon. Aguentei um pai se afundando em dívidas, medo todos os dias, uma vida inteira em suspenso… porque acreditava que você era meu futuro.
A voz falhou por um segundo. Só um.
— Mas futuro nenhum se constrói em cima de mentira.
Do outro lado, silêncio. Nem ele, nem a mulher.
deu um passo para trás, sentindo o peso da noite cair sobre seus ombros. Foi então que algo chamou sua atenção no canto da visão.
O beco lateral.
E ali, exatamente como ela havia deixado, o homem do ônibus continuava jogado contra o muro, imóvel demais para alguém que deveria apenas estar desacordado.
O estômago dela se revirou.
— Fica com ela, Jihoon — disse por fim, a voz baixa, definitiva. — Eu já perdi tempo demais com quem nunca esteve comigo de verdade.
Ela soltou o interfone. O clique seco ecoou como um ponto final.
se virou, o coração ainda despedaçado… mas os pés a levando de volta para a rua escura, onde uma ameaça diferente — e talvez ainda mais real — a aguardava.
Porque, naquela noite, as mentiras não tinham sido a única coisa deixada para trás.
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O silêncio falava alto demais, continuou encarando o aparelho com os olhos cheios de água. Mas não choraria por Jihoon, ela não se permitiria derramar uma lágrima sequer por um crápula como aquele. Por mais que estivesse despedaçada por dentro.
Ao sair do prédio de Jihoon encarou os olhos, agora abertos, do homem que momentos antes havia pedido sua ajuda.
— Ah, você acordou. — Disse por fim, baixinho.
— Minha namorada foi enganada pelo namorado e acabou de ficar solteira, é isso mesmo?
A voz fraca dele ecoou pelos ouvidos de .
Ela engoliu em seco. O ar pareceu mais frio de repente.
— Ex — corrigiu, a voz firme demais para alguém que acabara de ter o chão arrancado sob os pés. — Ele sempre foi meu ex. Eu só demorei pra perceber.
O homem tentou se mexer, mas apenas gemeu baixo, voltando a apoiar a cabeça no muro. Os olhos escuros a observavam com uma atenção estranha, lúcida demais para alguém que deveria estar completamente bem… e cansada demais para alguém perigoso. Aquilo a deixou em alerta.
— Você podia ter me deixado no ônibus — ele murmurou. — Ou chamado aqueles caras. Teria sido mais fácil.
cruzou os braços contra o próprio corpo, como se finalmente sentisse o frio da noite — ou talvez fosse só o vazio.
— Eu não sou boa em abandonar pessoas — respondeu. — Mesmo quando elas colocam uma faca na minha cintura.
Um silêncio pesado caiu entre os dois. O tipo de silêncio que não pedia desculpas, mas reconhecia verdades incômodas.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo.
— Eu não ia machucar você — disse, baixo. — Pelo menos… não como você tá pensando.
Ela soltou uma risada curta, sem humor algum.
— Engraçado — respondeu. — O homem que eu amei por quatro anos também nunca “ia me machucar”.
Os olhos dele se abriram novamente, fixos nela agora com algo que não era pena. Era atenção. Interesse cru.
— Parece que a noite não foi gentil com nenhum de nós — comentou.
desviou o olhar, encarando o prédio atrás de si. As luzes continuavam acesas. A vida de Jihoon seguia intacta lá dentro.
— A diferença — disse ela, por fim — é que você eu posso deixar aqui. Ele não.
O homem respirou fundo, reunindo forças para se levantar um pouco.
— Meu nome é — disse, depois de um instante. — Já que… aparentemente a gente sobreviveu juntos a alguma coisa hoje.
hesitou. O nome ficou suspenso no ar por um segundo antes de assentir.
— . — Fez uma pausa. — E isso não muda o fato de que você me deve respostas.
esboçou um sorriso torto, cansado, mas sincero o suficiente para incomodá-la.
— Justo — respondeu. — Mas acho que primeiro… você vai precisar decidir se vai embora sozinha essa noite.
Ela o encarou de volta, o coração ainda partido, mas agora alerta de outro jeito.
Ele tentou se apoiar melhor no muro, puxando o ar com cuidado demais. O movimento arrancou dele um gemido baixo, involuntário, que quebrou o silêncio da rua.
— Tá tudo bem — disse rápido demais, como se quisesse encerrar o assunto ali.
Mas não estava.
viu quando a mão dele escorregou para a lateral do corpo, os dedos pressionando o casaco com força. O tecido escuro começava a se manchar, encharcado de um vermelho que não deixava margem para dúvida. Sangue.
— Você está ferido — disse ela, num tom que não era pergunta.
Ele tentou rir, um som fraco, falho.
— Não é nada… só um arranhão.
Mentira.
O instinto falou antes que o coração pudesse interferir. já estava ajoelhada à frente dele, afastando o casaco com cuidado, ignorando completamente o frio da calçada ou o turbilhão emocional que ainda a esmagava por dentro.
O ferimento na lateral do abdômen era feio demais para ser “nada”. O sangue escorria quente, lento, denunciando algo mais profundo do que ele queria admitir.
— Você foi esfaqueado — constatou, a voz agora firme, profissional. — E está perdendo sangue.
— Ei… — ele tentou segurá-la pelo pulso. — Não precisa disso. Eu me viro.
Ela afastou a mão dele sem delicadeza, os olhos focados, a mente funcionando num modo automático que ela conhecia bem demais.
— Cala a boca — disse, sem levantar a voz. — Se você continuar falando, vai gastar energia que não tem.
piscou, surpreso. Não pela dor — mas pela autoridade repentina.
pressionou o local com a própria mão, sentindo o calor do sangue atravessar o tecido.
— Respira devagar — orientou. — Olha pra mim. Não fecha os olhos.
Foi só então que ela percebeu: suas mãos não tremiam mais.
O coração ainda estava quebrado, sim. Mas o corpo dela lembrava exatamente quem ela era.
E naquele instante, nada importava mais do que manter aquele homem vivo.
Continua...
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Nota da autora: Leitoras de dark romance, onde vocês estão haha?