Eternal Sins



Última atualização em: 28/01/2026
Prólogo | 01 | 02




Eles não nasceram para o amor.Isso foi a primeira coisa que o tempo fez questão de ensinar.
Entre noites longas demais e silêncios pesados demais, eles aprenderam a viver com a ausência. De esperança, de futuro, de redenção…
As maldições vieram antes dos sentimentos.
Vieram como punição. Como sentença. Como cicatriz que o tempo não apagava.
Cada um deles carregava o próprio fardo.
A solidão.
A ira.
A sede.
O vazio.
A culpa.
O impulso.
E… aquele que sempre observava… em silêncio.

Por anos, séculos talvez, eles aprenderam a sobreviver assim: Distantes. Frios. Intocáveis.
Mas foi quando o destino resolveu cruzar os caminhos deles com o improvável… Com corações humanos, frágeis, confusos… e perigosamente vivos demais, que tudo começou a desmoronar.
Porque o problema nunca foi a eternidade. O problema… sempre foi sentir.
Eles seguiam suas rotinas como sempre fizeram.
O primeiro, como sempre, evitava laços. Mantinha distância de tudo que respirava… de tudo que pulsava.
O segundo afogava a raiva em treinos, golpes e explosões de energia… mas nunca conseguia se livrar dela por completo.
O terceiro se escondia atrás de sorrisos e provocações noturnas, mascarando o vício que o consumia.
O quarto… bom… o quarto já tinha aceitado que nada mais o tocaria. A frieza era a única constante.
O quinto carregava um peso invisível, ajudando os outros… sempre na tentativa inútil de perdoar a si mesmo.
O sexto… continuava correndo, quebrando regras, buscando qualquer coisa que o fizesse sentir vivo… nem que fosse o perigo.
E o sétimo… apenas observava. Sempre soube mais do que os outros. Sempre soube que o ciclo uma hora iria se repetir.
Naquela noite em especial, o céu parecia mais pesado. O vento estava diferente. Como se o próprio mundo respirasse mais fundo… se preparando para algo que vinha chegando.
Eles ainda não sabiam. Mas os caminhos estavam traçados.
Na manhã seguinte, um deles ouviria uma frase que o desmontaria.
Outro trocaria farpas com uma desconhecida de olhos afiados.
Um terceiro, atrás de um balcão, entregaria mais do que um simples drink.
Haveria um olhar trocado em meio a uma sessão de fotos…
Um toque inesperado em uma oficina bagunçada…
Uma troca de palavras em um parque…
E uma conversa breve… onde um pedido de ajuda se transformaria em tudo.
Nada daquilo foi planejado. Nenhum deles escolheu.
Mas como sempre acontece com as maldições… A escolha nunca foi deles.
E a partir dali…Sentir se tornaria inevitável.

🩸🩸🩸


— O que foi agora? — Jay bufou, largando o saco de sangue sobre a bancada da cozinha como se fosse lixo comum. — Não me diga que vamos ter outra reunião de terapia em grupo.

Jake, jogado de qualquer jeito no sofá, girava uma moeda entre os dedos, entediado.

— Se for pra ouvir o discurso do "precisamos nos controlar", já deixo avisado que tô fora.

Do outro canto da sala, Sunghoon nem se deu ao trabalho de levantar os olhos do livro que fingia ler há horas.

— Como se algum de vocês soubesse o significado da palavra "controle" — murmurou.

Ni-ki riu, aquele riso curto e debochado que sempre vinha antes de alguma provocação:

— Falou o morto por dentro — respondeu, enquanto equilibrava uma garrafa de vidro nas pontas dos dedos, como se desafiasse a gravidade.

Jungwon, sentado perto da janela, só suspirou.

— Vocês sabem que a cada século essa palhaçada só piora, né? — Ele falou baixo, mas com um cansaço que parecia vir de séculos. — Estamos rodando em círculos.
— Século… década… ano… dia… — Jay deu de ombros, os olhos escuros fixos no teto como se já tivesse decorado cada rachadura. — Pra mim, tudo já parece igual.
— Porque é. — Heeseung finalmente quebrou o silêncio, a voz baixa e arrastada, como quem fala mais pra si mesmo do que pros outros. — Sempre foi.

Por um segundo, ninguém disse nada.
O ar na sala ficou pesado. Como sempre ficava quando alguém tocava naquele assunto.

Na maldição.
Na eternidade.


Na fome disfarçada, no tédio sufocante, na culpa que cada um carregava de um jeito diferente.
Sunoo, do canto mais escuro do cômodo, apenas os observava em silêncio.
Ele não ria, não provocava, não reclamava.
Só… via.
Como sempre fazia.
Os outros podiam fingir. Podiam brincar com as próprias feridas, zombar da fome, da solidão, da culpa… Mas ele? Ele já sentia. Sentia tudo.
Antes mesmo de acontecer.
Foi Jay quem quebrou o silêncio de novo, com um sorriso torto nos lábios:

— Só pra constar… quando a próxima tempestade vier… não digam que eu não avisei.

Jake soltou uma risada baixa, sarcástica.

— Que tempestade?

Ninguém respondeu. Mas, de algum jeito… todos sabiam.
Por alguns segundos, o silêncio reinou de novo. Aquele tipo de silêncio que só existe entre quem já viu demais… perdeu demais… e sobreviveu tempo demais.
O relógio na parede marcou meia-noite com um estalo seco. Do lado de fora, o vento mudou de direção. E, em algum lugar da cidade, seis corações humanos batiam… alheios ao fato de que, nas próximas horas, seus destinos seriam permanentemente cruzados com o deles.
Nenhum deles sabia os nomes ainda. Nenhum deles conhecia os rostos. Mas o cheiro da mudança… O gosto do inevitável… Já pairava no ar.
Porque o problema nunca foi a sede… Ou a maldição…Ou a eternidade.
O problema… Era que, mais uma vez… eles estavam prestes a sentir.
E dessa vez… Ninguém sairia ileso.




e Jungae-in aguardavam pelo professor já dentro do estúdio. Os olhos atentos dela passearam pelo local, observando o estúdio.
O local era amplo, com iluminação suave e paredes cobertas por painéis de espuma acústica preta, absorvendo até o som da respiração.
No canto esquerdo, três microfones de estúdio pendiam de suportes articuláveis, rodeados por fones de ouvido grandes e cabos enrolados com precisão.
Um piano de cauda ocupava parte do fundo da sala, com a tampa aberta, revelando as cordas internas em ordem perfeita.
Ao lado dele, uma bateria eletrônica descansava sob uma luz tênue, quase como uma sombra contida. Havia guitarras e baixos dispostos em suportes de chão, alguns com acabamento brilhante, outros desgastados pelo tempo.
Perto da parede envidraçada que dava vista para a cabine de gravação, uma prateleira abrigava partituras, livros antigos e pedais de efeitos empilhados com descuido meticuloso.
O cheiro era uma mistura sutil de madeira envernizada, metal e silêncio.
Era o tipo de lugar onde cada objeto parecia ter uma história — e cada história, uma trilha sonora.
andou pelo pequeno local, enquanto a amiga mexia no telefone. Passou então delicadamente a ponta dos dedos sobre o piano… como quem cumprimenta um velho conhecido. Seus olhos passearam pelas teclas com respeito — não ousou pressionar nenhuma delas. Apenas sentiu.

— Ele não gosta que mexam nas coisas dele. — avisou a amiga, sem tirar os olhos da tela.

Mas já era tarde.

— Exatamente. — disse uma voz firme atrás dela.

se virou devagar.
Heeseung estava parado na porta, alto, de expressão neutra, o olhar levemente abaixado como quem analisa antes de reagir. Ele vestia preto dos pés à cabeça, os cabelos bagunçados como se o sono ainda estivesse colado neles.
Ela recuou um passo, mas não pediu desculpas. Só o encarou com a mesma serenidade com que havia tocado o piano.
Ele não disse mais nada. Apenas a observou por um segundo a mais do que deveria.
O olhar… esse, ao contrário da voz, não era frio. Era um tipo de silêncio carregado demais para passar despercebido.
Então ele desviou os olhos e cruzou a sala em passos lentos.

— Vocês são as novas alunas? — perguntou, sem olhar de volta.

assentiu com um movimento de cabeça. Mas a sensação no ar… Essa ainda não tinha ido embora.

🩸🩸🩸


Heeseung puxou uma das banquetas próximas ao piano e sentou-se com a mesma leveza com que se fecha uma porta: sem pressa, mas sem permitir brechas.
A amiga de se adiantou, colocando a bolsa sobre a cadeira e se acomodando com pressa. Ele trocou poucas palavras com ela — nome, idade, nível musical — tudo em frases curtas, econômicas.
permaneceu de pé por alguns segundos, esperando que ele a notasse. Não disse nada. Não queria interromper.
Mas ele… notou.

— Você também vai ter aula? — perguntou sem levantar os olhos, folheando uma partitura qualquer como se não se importasse com a resposta.
— Não. — respondeu , suavemente. — Só estou acompanhando minha amiga.

O olhar dele subiu devagar, encontrando o dela. Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
A sala, tão silenciosa por conta dos painéis acústicos, parecia ampliar o som do próprio ar.
Ele assentiu com um movimento quase imperceptível e virou de volta para o piano.

— Então sente-se. Se quiser. Só... não toque em nada. — disse, num tom seco, mas sem real dureza.

sentou-se no canto, sem tirar os olhos dele.
A forma como ele tocava o piano para demonstrar a técnica era precisa, quase matemática. Cada movimento era limpo, controlado — como se emoções fossem proibidas ali.
Mas ela percebia. Os ombros tensos. Os dedos que hesitavam por um milésimo antes de tocar certas notas. A forma como ele nunca olhava diretamente pra ninguém... a não ser por breves segundos.
Como quando olhou pra ela…

🩸🩸🩸


A aula seguia com a amiga de tentando repetir uma sequência de acordes, enquanto Heeseung corrigia a postura dela ao piano com instruções objetivas.

— Mais leve. — dizia, sem emoção. — O tempo está quebrado, ouve o que você está tocando.

permanecia no canto, quieta, os olhos ora na partitura esquecida sobre a mesa, ora nas mãos dele ao tocar. Foi então que ela cantarolou, baixinho. Quase inaudível. A melodia que ele acabara de tocar — mas com um detalhe: ela seguiu a sequência da maneira como ele não tocou. A maneira… emocional.
Heeseung parou.
Não bruscamente. Apenas cessou o movimento dos dedos e deixou o silêncio preencher o estúdio outra vez.
Virou-se na direção dela.

— Você conhece essa música? — perguntou, o tom ainda contido, mas havia algo novo ali. Um pequeno incômodo.

ergueu os olhos, tranquila.

— Não. Mas acho que ela queria subir no final. Você não deixou.

Ele piscou uma vez. Só uma.
E então desviou o olhar.

— A música… não tem vontade própria.
— Talvez não. Mas você tem. E às vezes... segura demais.

Silêncio.
A amiga olhou de um para o outro, confusa, mas sem entender o que exatamente havia acontecido ali.
Heeseung voltou para o piano, mas as mãos não tocaram imediatamente. Ele hesitou. Pela primeira vez em muito tempo… ele hesitou.

🩸🩸🩸


O sol estava quente naquela manhã, e soltou um sorrisinho de canto, gostando do clima. Tapou levemente a visão com uma das mãos sobre o rosto enquanto caminhava para o local que havia marcado com sua aluna.
As aulas de inglês iam de vento em poupa e não tinha do que reclamar. Era o começo do ano e a maioria dos alunos que ela estava tendo eram estudantes universitários aproveitando as férias do início do ano para começarem seus cursos.
Muitos intercambistas também haviam a procurado para aperfeiçoar o inglês antes de realmente viajarem.
Ela gostava de dar aulas em lugares públicos, evitava que pessoas estranhas adentrassem seu apartamento — que era bem pequeno, diga-se de passagem. E também evitava ficar sozinha na casa dos alunos.
Desconfiada e introspectiva. Suas aulas eram objetivas e diretas. não era de falar muito e muito menos era expansiva. Discreta, bem discreta. Mas quando falava…
Quando chegou ao local que encontraria com a aluna, ela retirou da mochila um pedaço de pano, que sempre levava quando as aulas eram no parque. Esticou o mesmo na grama e então se sentou, colocando os livros e a caixa de som sobre o pano.
Ajeitou tudo milimetricamente e então seus olhos bateram nele.
Algum editorial de moda estava sendo feito no parque. Não era raridade, as pessoas e as marcas gostavam muito de lá para isso.
Mas havia algo diferente naquele em específico.
Não pela modelo, nem a equipe que se movia ao redor com roupas estilosas e câmeras sofisticadas. Era pelo fotógrafo.
O homem era alto, magro, de postura impecável, mas havia algo rígido demais nele. Os movimentos calculados, o semblante sem qualquer traço de empolgação.
Ele parecia comandar tudo com um simples olhar — seco, preciso, afiado.
Era como se as fotos fossem só um ritual mecânico, algo que ele fazia por obrigação… ou por hábito.
Ele não sorria.
Não dava instruções com gentileza.
Não elogiava a modelo, não conversava com a equipe.
percebeu isso porque, mesmo querendo ignorar, não conseguiu. Seus olhos voltavam para ele com uma frequência desconfortável. Não por interesse. Mas por uma inquietação que não sabia nomear.
Quando se deu conta, já o observava há tempo demais.
Baixou os olhos para os próprios livros, sem alterar a expressão.
Tentou se concentrar no que faria com a aluna naquela manhã.
Mas, por alguma razão, a presença dele seguia ali — como uma nota dissonante numa melodia bem ensaiada.
E então, como se sentisse que estava sendo observado, o fotógrafo levantou os olhos. E os olhares se cruzaram.
Só por um segundo.
Mas foi suficiente.

🩸🩸🩸


O coração gelado de Sunghoon bateu rápido. Rápido demais, e aquilo definitivamente não era comum, muito menos normal, já que o coração deles batia em ciclos lentos, jamais como o de um humano.
E era isso que estava acontecendo exatamente agora, enquanto ele olhava para aquela garota. O coração morto acelerou, como se quisesse voltar a viver.
Era ela. Só podia ser ela.
Ele desviou o olhar rapidamente, como se aquilo fosse suficiente para calar o que sentia.
Mas não foi.
O coração continuava batendo — lento, irregular, pesado. Como um tambor antigo sendo reativado depois de séculos. Aquilo o incomodava. Não porque doesse, mas porque era real.
Sunghoon voltou a ajustar a lente da câmera, dando ordens secas para a modelo que se preparava ao longe.

— Tira o casaco. Inclina um pouco o rosto. Isso, não olha pra mim — ele disse, sem emoção.

Mas sua mente… não estava mais ali.
Porque do outro lado do parque, sentada sobre um pano claro na grama, ela continuava em silêncio.
Com um livro no colo, os olhos fixos nas páginas, e a expressão serena.
Mas ele sabia — ela havia sentido também.
O olhar dela não foi curioso. Não foi admirado, foi... direto. Como se ela o conhecesse de algum lugar que ele não lembrava.
Como se ela enxergasse aquilo que ele passava a vida escondendo.
E aquilo — aquilo sim — o apavorava.
A câmera tremeu entre seus dedos.
Irritado com a própria reação, ele a recolheu.

— Chega por hoje. — avisou à equipe. — Podem ir.
— Mas ainda temos mais duas trocas de roupa, senhor Park — protestou o assistente.

Sunghoon apenas olhou para ele, com aquele olhar frio que dispensava explicações.
O assistente não insistiu.
Ele recolheu os equipamentos em silêncio e se afastou antes que a sensação aumentasse.
Antes que o coração decidisse bater mais uma vez.
Mas, antes de ir, permitiu-se olhar para ela uma última vez por cima do ombro.
E ela… ainda estava ali. Como se esperasse por algo que nem sabia nomear.

🩸🩸🩸


Quando ele começou a se aproximar, para começar a guardar as coisas, também sentiu o coração começar a acelerar. Não entendeu muito bem o porque, e mais uma vez, ela não cosneguia desviar os olhos dele.
Ele havia percebido, é claro, e agora caminhava com os olhos cravados nela.
Ela deveria ter desviado. Baixado os olhos. Mas não o fez.
Manteve o olhar firme, como se desafiasse a si mesma a sustentar aquele instante. Era uma batalha muda entre dois estranhos. Mas, de alguma forma, ela sentia que não era a primeira.
Ele passou por ela devagar. Sem pressa. Sem sorrir.
E quando cruzou por onde ela estava sentada, os olhos dele se fixaram nos dela por tempo demais para ser educado — e tempo de menos para ser suficiente.
Ela prendeu a respiração.

— Cuidado com o sol. — ele disse, com a voz baixa e fria. — Queima mais do que parece.

E seguiu andando, como se não tivesse dito nada.
Como se o mundo não tivesse acabado de entortar um pouco.
piscou devagar, como quem acorda de um lapso. Passou a mão pelo rosto, tentando recuperar o foco. Mas as palavras dele ficaram. A sensação também.
E o som do próprio coração batendo ainda ecoava em seus ouvidos… Alto demais para ignorar.

🩸🩸🩸


O cheiro de desinfetante e pelos molhados preenchia o pequeno corredor da ONG. O som de latidos ao fundo e o ranger das portas metálicas deixavam o ambiente caótico para quem não estava acostumado. Mas para , aquele lugar tinha algo de reconfortante.
Com as caixas nas mãos, ela empurrou a porta com o ombro, equilibrando os sacos de ração, toalhas e medicamentos que havia arrecadado com os colegas da faculdade.

— Com licença! — chamou com a voz doce, mas firme.

Uma voluntária mais velha apareceu do fundo do corredor com um sorriso caloroso.

— Pode deixar aqui, querida, obrigada. A maioria deixa na recepção e já vai.

sorriu de volta, mas não se moveu.

— Eu posso ajudar com alguma coisa? Não tenho compromisso agora. Posso organizar as doações, limpar ou… — ela hesitou, olhando para uma sala entreaberta.

Foi quando o viu.
Um garoto agachado no chão, o cabelo escuro caindo sobre os olhos, enquanto cuidava das patas de um cachorro de porte médio com um corte feio no dorso. Ele não percebeu a presença dela de imediato. Estava concentrado em limpar os ferimentos com precisão quase clínica, os movimentos delicados demais para quem parecia tão… fechado.
Ela se aproximou devagar, sem querer assustar o animal — nem o garoto.

— Posso ajudar?

A voz dela foi baixa, mas clara.
Jungwon ergueu o olhar. Os olhos dele a acertaram como um soco silencioso: profundos, escuros, cansados… e tão tristes que teve vontade de recuar.
Mas não recuou.
Ele apenas balançou a cabeça em negativa.

— Não precisa. Já estou terminando.
— Mesmo assim, posso ficar? — ela perguntou, sentando-se de joelhos ao lado do cachorro, sem tocar em nada.
— Às vezes é bom ter alguém por perto. Mesmo que não vá fazer nada.

Ele hesitou.
E isso, para alguém como ele, já era muito.
Depois de alguns segundos, Jungwon voltou os olhos para o curativo que fazia. Mas o ritmo dos dedos… diminuiu. Como se, com ela ali, o mundo finalmente tivesse desacelerado um pouco.
Ela o observava de soslaio. Não fazia perguntas, não se impunha. Só ficava.
E ele… Pela primeira vez em muito tempo, não quis que alguém fosse embora.

🩸🩸🩸


O silêncio entre os dois não era desconfortável.
Era um daqueles silêncios cheios — de atenção, de cuidado, de presença.
manteve os olhos no cachorro, que agora descansava com a cabeça apoiada sobre as patas, os olhos cansados, mas calmos. Ela soltou um suspiro leve, como se estivesse agradecendo por aquela pausa no mundo.

— Ele parece mais tranquilo agora. — comentou. — Deve confiar em você.

Jungwon não respondeu de imediato. Apenas ajeitou a faixa sobre o curativo, prendendo com fita adesiva.
Quando terminou, se afastou um pouco, sentando-se contra a parede. Os olhos fixos no chão.

— Os animais sentem. — ele murmurou. — Eles sabem quem é perigoso.
— Ou… — ela respondeu com suavidade — sabem quem está tentando se perdoar.

Ele ergueu o olhar devagar.
ainda não o encarava diretamente. Brincava com a manga do moletom entre os dedos, como se não tivesse consciência do que acabara de dizer.
Mas Jungwon a olhava agora. Como se ela tivesse invadido um lugar onde ninguém mais ousava entrar.
Ela finalmente virou o rosto em sua direção e sorriu — pequeno, delicado, quase tímido.

— Desculpa. Às vezes eu falo demais.
— Não… — ele disse, pela primeira vez sem parecer em defesa. — Você fala… o necessário.

Ela inclinou a cabeça, surpresa pela resposta. E ele desviou o olhar novamente.
Mas já era tarde.
A luz que ela carregava havia deixado uma rachadura. E ele sentia. Pela primeira vez em muito tempo… ele sentia.




bufou, irritada ao tentar dar partida na moto pela terceira vez. Mas nada, o motor nem roncava direito, havia apagado. Morreu. E não era a primeira vez que isso aconteceu, ela vinha ficando na mão muito mais do que gostaria de admitir.

— Já passou da hora de você trocar essa moto. — colocou uma mão no ombro da amiga. — Ela tem te deixado muito na mão.
— É, to percebendo. — Bufou de novo enquanto desabotoava o capacete.
— Deve ter alguma oficina aqui perto do campus, vamos procurar.

se colocou atrás da motocicleta e juntas elas começaram a empurrar a mesma que fazia um barulho bem característico das rodas raspando contra o chão.
O sol batia forte no asfalto, e o calor subia em ondas quase visíveis, fazendo o capacete de balançar pendurado em sua mão.
Os pneus da moto pesavam como se tivessem dobrado de peso só de birra.

— Isso aqui devia contar como exercício físico. — resmungou, o rosto já vermelho de calor.
— Já conta como castigo divino por não ter feito a revisão. — respondeu, rindo, enquanto ajeitava os óculos no rosto.

Alguns pedestres passaram por elas com olhares curiosos. Outros tentavam ajudar com informações:

— Tem uma oficina na próxima rua!
— Vocês precisam de ajuda?

Elas agradeciam, mas continuavam, uma empurrando pelo guidão, a outra pela traseira, fazendo força e reclamando ao mesmo tempo.

— Juro que se essa moto me deixar na mão mais uma vez, eu abandono ela na porta da próxima lixeira. — grunhiu.
— A moto não é um namorado, Hee. Não precisa drama, só precisa conserto.
— O que dá no mesmo, às vezes. — rebateu, sem conter o riso.

Depois de alguns metros, dobraram a esquina e avistaram uma fachada escura com letreiro vermelho e uma fileira de motos encostadas.
Era uma oficina. Pequena, meio bagunçada, mas claramente movimentada. O som de ferramentas ecoava lá de dentro, junto com o ronco breve de um motor sendo testado.

— Finalmente. — disse, ofegante. — Que seja rápido, barato e não envolva eu tendo que empurrar essa desgraça de volta.

riu.

— Tá com sorte. O mecânico daqui é conhecido por ser rápido.
— Melhor ainda se for bonito.
— Aí você já tá pedindo demais.

Mal sabiam elas que a bagunça começaria exatamente ali.

🩸🩸🩸


Assim que entraram na oficina, o cheiro de graxa, gasolina e metal queimado invadiu o ar.
Era um espaço estreito, com peças espalhadas em bancadas, pneus empilhados em cantos e um ventilador de teto que girava devagar, mais pelo hábito do que por eficiência.
torceu o nariz.

— Nossa, que lugar... organizado. — murmurou com sarcasmo.

segurou o riso, apontando discretamente para o fundo da oficina, onde um garoto de macacão amarrado na cintura mexia em uma moto escura, de costas para elas.
O som da chave inglesa batendo ecoava ritmado, como se fosse música para ele.

— Com licença? — chamou.

O garoto ergueu os olhos e então se levantou devagar, girando o corpo com preguiça, como se odiasse ser interrompido. A luz do sol entrou pela lateral da porta e bateu contra o rosto dele, destacando os olhos escuros, a pele levemente suja de óleo e o sorriso torto que apareceu no canto da boca.

— Problemas com a moto? — ele perguntou, com a voz grave e calma.

Depois olhou diretamente para .

— Ou com a dona?

arqueou uma sobrancelha.

— A moto morreu. E eu não vim aqui pra ser analisada. Só quero um orçamento.

Ni-ki sorriu, não se ofendendo nem um pouco.

— Vai ser difícil te ajudar se você for tão simpática assim o tempo todo.

Ela cruzou os braços, firme.

— E vai ser difícil eu voltar se o atendimento for baseado em piadinhas baratas.

Ele riu. De verdade.

— Beleza. Já gostei de você.

tossiu ao lado, tentando segurar o riso.
revirou os olhos.

— A moto tá ali fora. Ela falha direto na partida. Já passou por três mecânicos e ninguém resolveu.

Ni-ki passou por elas com passos largos, sem dizer nada por um instante.
Mas, antes de sair pela porta, virou-se por cima do ombro:

— Então talvez o problema não seja a moto… só os mecânicos errados.

E saiu.
ficou parada por um segundo, os olhos fixos na entrada da oficina.

— Metido. — murmurou.
— Mas bonito. — completou, rindo.

não respondeu. Mas seu coração, aquele ingrato… respondeu por ela.

🩸🩸🩸


Ni-ki percorreu a motocicleta de com os olhos e então se virou para ela.

— Pode dar partida para mim? Quero ouvir o barulho que tá fazendo…
— Aí é que tá. Não tá fazendo barulho nenhum, morreu.

Ela entregou o capacete para que segurou-o no peito como quem recebe uma armadura. pegou a chave, colocou na ignição e girou. Nada. Nenhum barulho, nadinha.
Ni-ki franziu o cenho. Apoiou uma das mãos no guidão e se agachou do lado esquerdo, os olhos escaneando cada parte como se conseguisse ouvir o motor só com o olhar.

— Bom… — murmurou, enquanto estalava os dedos e se levantava devagar — pelo menos agora eu tenho certeza de uma coisa.
— De que eu tô ferrada? — rebateu, cruzando os braços.

Ele sorriu de canto, sem pressa, e limpou as mãos numa flanela velha que tirou do bolso.

— De que essa moto é teimosa. Igual a dona.

tentou conter o riso e virou o rosto, fingindo olhar outra coisa.
manteve a expressão firme, mas os olhos brilharam com um misto de irritação e surpresa.

— E você é sempre assim? — ela perguntou, encarando-o. — Não consegue consertar nada sem comentar sobre a vida pessoal do cliente?

Ni-ki deu de ombros, dando a volta na moto com calma.

— É um talento. Eu arrumo as máquinas… e cutuco os egos.

Ele se agachou novamente e começou a desconectar uma das tampas do motor.

— Vai levar tempo? — perguntou, impaciente.
— Depende. — ele respondeu, sem olhar. — Se você parar de ficar me observando como se eu fosse um experimento científico, talvez eu até trabalhe mais rápido.
— Eu tô esperando o diagnóstico. — rebateu.
— E eu tô tentando trabalhar com um cheiro absurdo de café e um olhar julgador queimando minha nuca.

Ela deu um passo pra trás, cruzando os braços com mais força.

— Você é impossível.
— Não. — ele ergueu os olhos, e dessa vez a voz veio mais baixa, quase grave. — Eu sou perigoso. Tem diferença.

Por um instante, o ar entre eles pesou.
franziu o cenho, percebendo o clima.
Mas não recuou. Nem sorriu. Nem piscou.
E foi ali, exatamente ali, que Ni-ki percebeu: ela era o tipo de garota que não fugia do perigo. Pelo contrário…
Ela parecia querer desafiá-lo.
🩸🩸🩸


O psicólogo disse que ela precisava de exercício físico, só a terapia não seria capaz de ajudá-la com a raiva de anos guardada dentro do peito. precisava literalmente de algo para descontar toda a raiva, algo que não fossem as pessoas em sua volta, já que era por isso que ela havia começado a terapia.
Desde muito novinha ela se metia em encrenca por ser solta demais, expressiva demais, sincera demais, tudo demais. Nunca levava desaforo para casa, vivia se metendo em confusão na escola e até na faculdade, apesar de mais controlada um pouco — bem pouco, na vida adulta.
O temperamento difícil havia dificultado muitas coisas, inclusive a convivência com os pais, que na verdade eram os causadores daquela raiva toda que ela sentia desde novinha.
A terapeuta foi direta: "Você precisa de algo que envolva o corpo, não só a mente."
E contra sua própria vontade, procurou a academia que ficava a poucos quarteirões do campus.
Não gostava de academias.
Gente suando, música alta, egos inflados.
Mas aquela parecia diferente.
Mais silenciosa, mais escura, mais... bruta.
Na fachada, letras desgastadas em vermelho diziam apenas “Combat Room”.
Perfeito.
Empurrou a porta com a mochila pendurada no ombro e os cabelos presos num coque malfeito.
Do lado de dentro, o som abafado de socos contra o saco de areia.
O cheiro de couro e suor.
Pele marcada. Vozes baixas. O som de respiração ritmada.
Era exatamente o que ela precisava.
Uma mulher musculosa e séria na recepção a recebeu com um formulário e explicou os horários da aula experimental.

— A próxima começa em cinco minutos. É com o treinador principal. Tá com sorte. — disse, entregando as luvas e um protetor bucal.
— Sorte, é? — resmungou. — A gente vai ver.

Entrou no tatame meio sem saber o que esperar… Até que o viu.
Ele estava de costas, camisa preta justa colada ao corpo, braços marcados, tatuagens discretas nos antebraços. O som dos punhos dele socando o saco de areia era ritmado, brutal. Ele não estava lutando contra o saco. Estava punindo.
parou sem perceber. Alguma coisa nele a fez prender o ar.
Como se sentisse os olhos dela, ele parou o movimento e virou o rosto devagar. Os olhos escuros a encontraram num único olhar.
Era como se reconhecessem algo nela.
Raiva, fúria, farpas...
Ele não sorriu. Ela também não.
Mas os dois souberam, naquele instante, que o inferno começaria ali.

🩸🩸🩸


— Posição. — a voz dele soou firme, sem espaço pra discussão. — Guarda alta. Olhos no alvo.

copiou a postura dos outros alunos, mas com uma expressão entediada. Jay passou por trás dela e observou. Parou, olhou de novo…

— Você tá torta. — ele disse.
— E você é sempre tão delicado com os alunos? — ela rebateu, sem olhar pra ele.

Jay não respondeu. Apenas caminhou até ela e, com a ponta dos dedos, ajustou sua postura com firmeza, mas sem grosseria.

— Aqui. Se continuar assim, vai deslocar o ombro antes de acertar alguém.
— E quem disse que eu vou errar?

Ele parou por um segundo. E então deu um meio sorriso, frio, lento.

— Confiança demais. Você tem certeza que entrou na aula de iniciante?
— Entrei na aula que me disseram que descontava raiva. — ela respondeu, encarando-o pela primeira vez. — A sua cara não tá ajudando.

Jay deu uma risada baixa, carregada de sarcasmo.

— Cuidado. A última pessoa que me disse isso terminou com o nariz quebrado.
— E você terminou com um processo nas costas?
— Não. Terminei mais leve.

Por um momento, os dois se encararam. Ninguém sorriu. Ninguém recuou.
Jay soltou o ar com um sorrisinho de canto e deu dois passos para trás.

— Vem pro centro, valentona. Vamos ver o que você sabe fazer.
— Você quer lutar comigo? — ela arqueou uma sobrancelha.
Quero ver se a sua boca é tão rápida quanto os seus punhos.

Ela caminhou até o centro do tatame com passos firmes.

— Então prepara o que sobrou do seu ego. Eu vou adorar quebrar ele pra você.
— Guarda alta. — Jay disse, erguendo os próprios punhos. — E tenta não me odiar muito quando eu te derrubar.
— Se você conseguir encostar em mim, já vai ser muito. — rebateu, ajustando a postura, os olhos fixos nele como se estivesse prestes a invadir um território inimigo.

O grupo ao redor deles se afastou um pouco. Ninguém interrompeu. Era como se todos soubessem que aquilo ali não era uma aula comum. Era uma disputa. Uma colisão inevitável.
Jay atacou primeiro — rápido, preciso — e esquivou com o reflexo de quem já passou a vida se defendendo. Ela girou o corpo, tentou um contra-ataque, ele desviou e riu.

— Isso foi um chute? Já vi crianças de cinco anos com mais firmeza.
— Eu tô aquecendo. — ela disse entre dentes.

O segundo movimento foi mais direto. Ela tentou atingi-lo com um soco de esquerda, ele segurou o pulso dela com uma mão e girou levemente o corpo, desequilibrando-a.
Por um segundo, ela quase caiu — mas usou o próprio impulso para empurrá-lo com o ombro. Ele recuou meio passo.

— Melhor. — ele admitiu. — Ainda não impressiona, mas me faz querer continuar.

Os dois estavam ofegantes agora, mas nenhum dos dois recuava.

— Eu não tô aqui pra te impressionar. — ela disse.
— Não? — Jay deu um sorriso de canto. — Então por que seus olhos estão me desafiando desde que entrou por aquela porta?

Ela não respondeu.
Apenas avançou de novo.
Dessa vez, ele a deixou chegar perto.
Ela o empurrou. Ele girou. Ela tentou derrubá-lo.
Mas quando ele a segurou pela cintura para impedir a queda, a aproximação foi inevitável.
Ficaram próximos demais.
Respiração contra respiração.
O olhar dele fixo no dela.
As mãos dele, ainda firmes na cintura dela.

— Vai me soltar ou tá gostando do aperto? — ela provocou, o rosto a centímetros do dele.

Jay não respondeu.
Apenas inclinou a cabeça ligeiramente, os olhos escurecendo com algo que não era mais raiva.

— Acho que você é mais perigosa do que eu pensava.
— E você é menos resistente do que eu imaginei.

Ele riu, e então a soltou.
Mas o toque permaneceu como uma memória recente, elétrica, imprudente.

— Aula encerrada. — ele disse, com a voz baixa.
— Já? — ela ergueu uma sobrancelha. — Vai fugir?
— Tô indo me recompor. — respondeu, andando de costas por alguns passos. — Você me bagunçou demais por hoje.

E ela ficou ali, com o coração disparado, o rosto quente… E uma vontade absurda de bagunçar tudo de novo.

🩸🩸🩸


— Eu deveria ter arrebentado a cara dele, isso sim!

deu um soco no ar assim que elas chegaram na porta do pub e as amigas riram.

— Você também ia levar um socão, tenho certeza. Imagina , seu narizinho quebrado pelas mãos do professor bonitão? — apertou o nariz dela antes de abrir a porta do pub.
— Quem disse que ele é bonitão? — piscou algumas vezes, se lembrando de Jay.
— Você nem precisou dizer! A gente já entende que ele é bonitão, se não porque você estaria tão irritada?

piscou o olho direito na direção dela, mas foi interrompida por .

— Bom isso aí eu vou ter de discordar, porque a fica irritada por absolutamente tudo, né? Não significa que seja por causa da tensão sexual que está rolando entre ela e o professor.

parou de andar abruptamente, fazendo todas as outras pararem também, no meio do salão.

— Que mané tensão sexual o que? Eu senti foi ódio da cara bonita dele isso sim, da prepotência, da arrogância, da falta de tato dele com gente que tava ali para aprender. Abusado!

cruzou os braços abaixo do peito, o mesmo subindo e descendo pela raiva crescente só de lembrar.

— Tensão sexual. — As outras cinco repetiram em uníssono, olhando umas para as outras.
— Não falem besteira, aish! Ou eu vou embora e largo vocês sozinha.
— Sendo que a ideia foi sua de a gente sair para você espairecer a raiva que o professor bonitão te fez passar. E bom, agora você disse sim que a cara dele era bonita, não dá para fugir!

apontou a língua para ela que apertou os olhos, sentindo a raiva fumegar pelo corpo.

🩸🩸🩸


— Já repararam que nós sempre pegamos as mesas do canto? Incrível isso. — pontuou enquanto puxava uma cadeira ao lado de para se sentar.
— Lá vem você daqui a pouco dizer que isso deve ser sinal do Universo de alguma coisa, querem ver? — revirou levemente os olhos antes de rir, acompanhada de .

As seis se sentaram na mesa escolhida, uma a uma, as bolsas foram colocadas nos colos ou no chão mesmo, abaixo da mesa, e os olhos delas voraram para os cardápios.
Lá dizia que os pedidos de drink deveriam ser feitos diretamente no balcão, enquanto as comidas diretamente a um dos garçons.

— Estou a fim de um blood mary hoje! Quem mais? — se levantou, depositando o cardápio sobre a mesa, já pronta para se dirigir ao bar para fazer o pedido.
🩸🩸🩸


O bar estava com uma luz quente, as garrafas alinhadas em prateleiras atrás do balcão refletindo tons âmbar, e o som grave da música misturado ao burburinho dos clientes criava aquele cenário que Jake conhecia bem. Era o seu reino noturno.
Ele secava um copo com desatenção, encostado no balcão de sempre, distraído demais pra se importar com os casais rindo ou os pedidos repetitivos.
Até que viu ela.
A garota atravessou o salão com um andar leve, como se flutuasse sem esforço, e os cabelos soltos acompanhavam o movimento despreocupado dos quadris.
Não estava produzida demais. Nem chamativa demais.
Mas algo nela… chamava.
Chamava de um jeito que incomodava.
Jake endireitou a postura sem perceber. Os dedos pararam de girar o pano no copo. Os olhos… cravaram nela.
Ela chegou ao balcão, apoiou as mãos na madeira e soltou:

— Um Bloody Mary bem feito, por favor. E sem miséria na pimenta, hein.

O tom era brincalhão. O sorriso, afiado. A voz, quente demais pro fim de tarde.
Jake precisou de dois segundos a mais do que o normal pra responder.
E isso, pra ele, já era sinal de alerta.

— Com esse nome, você sabe que tá pedindo uma bebida meio... fatal, né? — ele disse, servindo gelo no copo com precisão.

arqueou uma sobrancelha, os olhos dançando entre ele e os rótulos atrás do balcão.

— Se eu quisesse segurança, teria pedido água.

Ele soltou uma risada baixa. E aquilo… doeu. Porque fazia tempo que ele não ria de verdade. E fazia tempo também que não sentia o sangue esquentar assim, tão rápido, tão intenso.
Ela observava o preparo da bebida como se analisasse cada movimento dele, como se entendesse que havia mais ali do que um bartender bonito.

— Você trabalha aqui sempre? — perguntou casualmente, como quem não está nem aí pra resposta.
— Só à noite. Sou um cara noturno. — ele respondeu, derramando o suco de tomate com cuidado no copo.
— Hum. — ela mordeu o canto do lábio. — Combina com você.

Jake ergueu os olhos para ela. E por um momento… esqueceu que precisava manter o controle.
O cheiro dela era leve. Fresco.
Mas havia algo por baixo. Algo que o instinto dele reconheceu como perigoso.
Sangue quente demais. Coração batendo forte. Vontade demais de se aproximar.
Ele deslizou o copo até ela.

— Toma cuidado. Essa bebida pode viciar.

o encarou com um sorriso enviesado.

— Eu sou péssima com vícios.
— Eu também. — ele respondeu, quase num sussurro.

E quando ela deu o primeiro gole, os olhos dele seguiram cada movimento da garganta dela. O som. O calor. O perigo.
Ela era exatamente o tipo de garota que ele jurou evitar. E, por isso mesmo, exatamente o tipo que ele não conseguiria ignorar.

🩸🩸🩸


— Vocês vão mesmo ignorar o que nós já sabemos?

A voz de Sunoo no topo da escada ecoou pela sala da casa. Jake sentado com o pacote de sangue nas mãos, sentiu as mesmas trêmulas demais. Sunghoon continuou mantendo os olhos no livro que ele fingia ler, mas o pensamento dele voltou para a garota do parque. Jay continuava sentado no sofá enrolando a fita nas mãos para voltar a treinar, Ni-ki retirou os fones do ouvido, mas não se moveu. Heeseung continuou no piano, tocando uma melodia qualquer enquanto encarava as teclas pretas e brancas. Jungwon mexia nas cartas de tarot, mas sem de fato se concentrar nas energias que deveria.

— Não precisamos de nenhuma carta para isso, Jungwon. — Sunoo começou a descer as escadas. — Vocês já as conheceram. Não é?

Silêncio.
Sunoo bufou alto quando chegou ao último degrau da escada.
— Não tem para onde correr. Vamos encarar os fatos.
— Que fatos Sunoo? — Jay se levantou do sofá abruptamente, e se aproximou de Sunoo. — Não me faça querer socar você, você é muito delicado.

Sunoo revirou os olhos, sentindo zero medo do amigo.

— Obrigada, sei que sou uma florzinha pronta para ser semeada no campo. — Ele piscou, fazendo os enormes cílios baterem uns nos outros. — Você conheceu ela hoje no ringue.

Sunoo repetiu, agora olhando diretamente para Jay.

— E não venha me dizer que não sentiu nada. Todo o prédio sentiu seu humor quando você voltou.

Jay cerrou os dentes, mas não respondeu. Voltou para o sofá, jogando a fita de mão de lado, irritado com a própria inquietação.
Sunoo seguiu caminhando pelo cômodo, olhando um a um como se os estivesse desmascarando só com o olhar.

— Jungwon voltou com cheiro de sangue fresco e não bebeu nem um mililitro. — comentou, sem ironia. — E antes que alguém fale besteira, era dela. Da humana.

Jungwon engoliu em seco, as mãos parando sobre as cartas de tarot. Não precisava confirmar. O silêncio já dizia tudo.

— E você, Jake? — Sunoo virou-se com um leve sorriso debochado. — Vai mesmo fingir que não ficou estranho desde que voltou do bar?

Jake não respondeu, mas apertou com mais força o pacote de sangue nas mãos, como se tentasse se convencer de que ainda era o suficiente.

— Eu vi o jeito como você olhou pra ela. — completou. — Tentação à primeira vista. Vai lá, diz que não foi.
— Você se acha tão engraçado… — Jake murmurou, desviando o olhar.
— E você? — Sunoo voltou o rosto para Ni-ki. — Vai dizer que aquela garota certinha com cheiro de lavanda não te tirou do eixo?

Ni-ki mordeu a lateral da bochecha e tirou um fone do bolso, girando-o entre os dedos.

— Ela é certinha demais. Vai quebrar logo. — disse, mas não com convicção.

Sunoo deu um passo em direção a Heeseung, que ainda estava ao piano, mas agora com os dedos parados sobre as teclas.

— E você? Vai me dizer que foi só curiosidade o que sentiu quando ela encostou naquele piano? Que foi só... acaso?

Heeseung não respondeu. Mas tocou uma nota.
Baixa. Única. Triste.

— Não é coincidência. — Sunoo concluiu, olhando ao redor. — É padrão. Ciclo. Chamem como quiserem.

Ele respirou fundo, os olhos mais sérios agora.
— As humanas chegaram.
— E com elas... o começo do fim.



Continua...



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Nota da autora: Sem Nota.








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