E se for Natal?



Finalizada em: 28/12/2025.





As mãos de Rosana tremiam, enquanto seus olhos tentavam em meio a folhagem localizar a silhueta do marido. Por algum motivo o italiano havia saído no meio da noite para ir até ao bosque nos arredores do chalé onde viviam.
Ela e Matteo estavam casados há pouco menos de um ano, o pedido de casamento partiu do italiano e foi comemorado com uma bela festa recheada de quitutes típicos feitos por dona Leonora. Tudo ia bem, eles eram felizes e continuavam apaixonados, como no momento em que se conheceram, todavia esse seria o primeiro final de ano que passariam juntos, como marido e mulher, e isso, por algum motivo, parecia estar deixando Matteo estressado. Nos últimos dias ele estava agindo de forma estranha, afastado, e quando ela tentava puxar o assunto, ele se esquivava. Por essa razão, ela decidiu segui-lo, depois de o ouvir levantando no meio da noite, dessa forma quem sabe encontraria as respostas que procurava. A ideia de que seu casamento pudesse estar em risco fazia seu peito tremer, pois a jovem empresária não conseguia mais imaginar a vida sem o italiano que com seu mau humor e espontaneidade, havia ganhado seu coração. Mesmo que não há muito tempo, ela fosse uma loba solitária, agora não se enxerga dessa forma, ainda mais…
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de um tronco de uma árvore caindo, era um pinheiro pelas grossas e firmes mãos de Matteo. No mesmo instante ela se lembrou da primeira vez em que tiveram ali, naquele mesmo bosque, teimosa como ela, havia convencido o italiano a pegar lenha para o seu quarto frio… sua mente foi invadida por memórias daquela época que mesmo tendo sido há apenas um ano, parecia tão distante, enquanto sentia as lembranças a invadirem, a mulher de cabelos castanhos ondulados esfregou os dedos pelo rosto até de forma lenta os descer pelos braços até chegar a barriga. O som de outro tronco caindo, no entanto, a fez voltar ao momento presente. Dessa vez, ela não se aguentou, saiu de trás do arbusto onde estava escondida e indagou horrorizada.
— Matteo, que pensa que está fazendo?
O italiano saltou sentindo seu coração disparado.
Ma que isso Rosana, quer me matar de susto? Io até ho pensado que podia ser un dos mafiosos que corria atrás do meu pai.
— Deus que me livre! Mas, eu devia te matar mesmo por sair no meio da noite para o bosque e ainda para cortar árvores, Matteo para que tudo isso? É um desperdício, nós podemos sair para comprar uma árvore, a cidade não é longe. Quer que os arredores da nossa casa fiquem feios sem árvores.
Ma Io gosto de fazer assim! — Explicou o italiano, enquanto carregava os dois pinheiros arrancados e evitava olhar para a esposa.
Mesmo amando seu italiano, às vezes ele conseguia tirar a filha de Gumercindo do sério.
— Seu teimoso, eu sei que sua família até podia não conseguir comprar uma árvore e por isso precisava fazer dessa forma, mas, nosso café já está ganhando mercado e…
Ma tu non entende mismo no é Rosana, também como poderia?
— O que? Eu tenho que entender? É você quem está agindo estranho, calado e ainda sai no meio da noite para fazer essa estupidez. — As palavras saíram de forma automática e logo ao ouvi-las Rosana quis nunca as ter dito.
Me desculpa amore mio, é só que é nosso primeiro natal juntos, como casados, e eu queria que tudo desse certo, mas aí vem você com essas ideias…
Matteo suspirou, ele também havia sido grosso, contudo era porque mesmo depois de casado, e por mais que amasse Rosana, às vezes as lembranças do passado ainda o incomodavam e ele não queria perturbar a esposa, porém lá estava ela, linda como sempre, mesmo com os fios despenteados e disposta a ouvi-lo. Por essa razão, decidiu que era o momento certo:
Questa era una tradicione mia e de mio padre. quando io era picollo noli dua sempre iamo aos bosques perto da nossa casa e ele me deixava escolher a meglio árvore para enfeitar nostra casa. Io pense que poderia fazer esso qui, para sentir il mio padre ma perto de me…
Rosana engoliu seco ao perceber o quanto havia sido insensível, esse não era apenas o primeiro natal que eles passariam como cônjuges, mas também era a época em que a ausência do pai mais pesava. afinal não era segredo o quanto Matteo era ligado ao falecido Bartolo Batistella.
— Eu sinto muito Matteo, não tinha percebido… Quer saber, eu vou te ajudar a levar a árvore que você escolher lá para dentro e podemos decorá-la depois, o que acha?
O italiano sorriu diante do pedido de desculpas da esposa marrenta.
Ta bene! É una buona ideia, ma tem certeza que consegue carregar una árvore dessas até a nostra casa? — Seu tom era provocador. Rosana colocou as mãos na cintura antes de responder:
— Como é? Está me chamando de fraca? Pois você vai ver!
Cierto! — Matteo apontou para um dos pinheiros. A empresária então caminhou até ele e começou a levá -lo com dificuldades.
— E então, vai ficar parado ai italiano, ou vai me ajudar?
Matteo não pode evitar soltar uma leve risada, como ele amava aquela mulher.
No entanto, mesmo tendo cedido ao desejo do marido, Rosana ainda se sentia culpada ao pensar no amado com saudade de casa, lembrando de seus antigos natais e principalmente dos momentos com o pai… agora ela entendia porque ele estava tão distante… sentia saudade de casa e de tudo que costumava viver nessa época. Bom, agora eles eram uma nova família, sem dúvidas iriam criar novas tradições, contudo, isso não significava que ela quisesse que seu italiano largasse as que costumava ter antes de se conhecerem. Ela precisava fazer algo para fazer o marido se sentir melhor e mostrar que se solidarizou com a dor dele, então teve uma ideia!
A princípio, ela havia pensado em fazer um pavê de sobremesa para a noite da ceia, contudo a fim de agradar o marido e aliviar sua saudade, decidiu mudar os planos. Assim, naquela manhã, tratou de procurar a pessoa que poderia ajudar.
— Dona Leonora! — Exclamou ao ver a sogra já cedo tomando seu café da manhã.
— Bon Giorno, Rosana!! — Ela correspondeu ao carinho dando um beijo na bochecha daquela que agora considerava como uma filha.
— Eu estou bem! Mas posso falar com a senhora sobre um assunto particular?
Ma claro! Que se passa?
— É o Matteo, ele andava distante e ontem a noite saiu para o bosque a fim de cortar pinheiros. Leonora sorriu diante da revelação.
Questa era una tradizione delle com il mio Bartollo.
— Ele me contou, e por isso o ajudei a trazer a árvore para dentro.
Queta é una bella atitude!
— Mas, eu gostaria de ir além, dona Leonora, o Matteo sente falta do pai, de casa e eu queria que tudo fosse especial, então, será que a senhora poderia me ensinar a fazer alguma sobremesa que ele costumava comer nas ceias da Itália? Vai ser uma surpresa!
Ma claro Rosana! Con piacere! Vou te ensinar a fazer il panetone tracicionale de la mia famiglia! Isso seria ótimo, dona Leonora!
Rosana anotou a receita no celular e foi até ao supermercado comprar os ingredientes. Seu rosto exibia um enorme sorriso, afinal ela estava empolgada para surpreender o amado.
Voltando para casa, Dona Leonora se ofereceu para ajudar, contudo a jovem recusou, pois queria provar ao marido e a si mesma que era capaz de fazer essa sobremesa, quando eles fizessem uma ceia com a própria família e seus filhos… a ideia fazia o coração da empresária se encher de alegria! O doce ficou pronto algumas horas depois, Rosana esfregou as mãos sujas de farinha e suspirou aliviada, porém orgulhosa de si mesma.
— Ele está bonito, só resta saber se está bom, pena que não posso provar até a noite de Natal…
Naquela noite, a dona dos fios castanhos ficou tão cansada que adormeceu no sofá da sala, Matteo quando voltou, a admirou por alguns instantes, mesmo sentindo falta do pai e das tradições de sua terra, ele não tinha dúvidas de que a esposa era o melhor presente que já havia ganhado!
As primeiras notas de “bate o sino” em italiano invadiam os ouvidos de Rosana, enquanto ela encarava a árvore cortada pelo marido com alegria, agora toda enfeitada com bolas vermelhas e uma estrela no topo semelhante a estrela cadente que viram na primeira noite ali naquele chalé, não estava nem um pouco ruim , na verdade até mesmo lembrava de uma das árvores que ela e sua mãe haviam enfeitado juntas! Desde a morte de dona Maria do Socorro, a garota sentiu as festas de fim de ano perderem a graça, talvez, por isso, tivesse ficado tão revoltada quando viu o marido ter tanto trabalho por um pinheiro, contudo, agora ela entendia, pois Matteo havia trazido um brilho novo a sua vida, pela primeira vez, em tempos ela estava ansiosa por aquela noite e pelo momento da ceia. Angélica e Paola, mesmo sendo pré- adolescentes corriam de um lado para o outro como crianças, as duas garotas haviam se tornado inseparáveis o que deixava Rosana feliz, afinal mesmo que sempre fizesse de tudo pela irmã mais nova, era bom vê-la com uma companhia de sua idade.
A chegada de Matteo a fez mudar o foco, pois estava ansiosa para ver a reação dele quando contasse sobre sua “nova empreitada”.
Amore Mio, feliz natal! que bom que chegou porque eu tenho uma surpresa e… “ A frase foi interrompida, no entanto, pelo semblante tenso de Matteo.
Rosana, Io tenho algo que non vá gostar… Ele mostrou um envelope branco fazendo a esposa cair na gargalhada.
— Uma carta? Ah, Matteo porque eu não iria gostar de uma carta, por acaso é de alguma namorada antiga sua italiana… — Brincou o arrastando para a cozinha.
Matteo suspirou antes de soltar a bomba.
Non, in verità, questa carta è del tuo padre…
Os olhos da empresária se arregalaram diante da menção à Gumercindo.
— Meu pai? Não pode ser, ele nunca se deu ao trabalho de estar presente em nossas vidas, e depois de tudo que fez, porque escreveria uma carta maldita da prisão? — Sussurrou com medo de atrair a atenção da irmã que ainda brincava na sala.
Non vai ler? — Indagou o italiano deixando o objeto em cima da mesa.
— É claro que não, com certeza deve ser algum problema, ou ele deve querer saber notícias da empresa, o que eu não posso dar.
E se lue tiver escrito para desejar un buon natale?
A inocência de Matteo fez Rosana cair na risada, enquanto andava de um lado para o outro tentando disfarçar o nervosismo.
– Até parece. Você não conhece o senhor Gumercindo Pereira, como eu disse, ele nunca se deu ao trabalho de participar de nossas vidas ou demonstrar carinho, mesmo quando estava cercado de luxo, agora na prisão? Quais são as chances? Vamos queimar isso logo, não quero que a Angélica sequer sonhe com a existência dessa carta! — Sussurrou a última parte.
Matteo por sua vez, permaneceu sério e firme antes de dizer:
— Non, me dispachie Rosana ma io non vou te ajudar.
— Seu teimoso. Por favor não me irrite logo no natal, além do mais não é você quem decide se eu leio ou não e porque está instituindo tanto?
— Perché Io daria tudo para receber uma carta del mio padre.
Rosana arregalou os olhos percebendo como mais uma vez foi insensível, Matteo estava certo, mesmo que Gumercindo tivesse cometido erros, e não fosse a melhor figura paterna do mundo, ele era seu pai e estava vivo.
Com essa ideia em mente a jovem reuniu toda a coragem que tinha dentro de si, enquanto seus dedos trêmulos abriram o envelope.

“ Rosana minha filha,
Eu sei que você ainda deve estar com raiva de mim e, sinceramente, não te culpo. Se estivesse no seu lugar, talvez sentisse o mesmo ou até pior. Minhas ações não têm defesa, não há justificativa possível para as escolhas que fiz ao longo da vida. Tenho plena consciência de que falhei com você, e falhei também com a Angélica. Não fui o pai que vocês mereciam, nem perto disso.

Carrego essa culpa comigo todos os dias, mesmo quando tento fingir que não. Por isso, se ao terminar de ler você decidir rasgar ou queimar esta carta, eu vou entender. Talvez seja o mínimo que eu mereça.


Ela interrompeu a leitura surpresa pelo pai conhecer seu temperamento tão bem a ponto de prever suas atitudes.

“Não escrevo esperando perdão, porque sei que ele não se pede se concede, quando e se o coração permitir. Também não posso prometer que me tornarei um homem melhor da noite para o dia, ou sequer que conseguirei mudar como deveria. Seria mais uma mentira, e mentiras já foram longe demais entre nós.

O que posso dizer, com toda a verdade que ainda me resta, é que apesar de todos os meus defeitos, erros e fraquezas, eu me preocupo com vocês. Sempre me preocupei, mesmo quando não soube demonstrar, mesmo quando escolhia o silêncio, a distância ou o caminho errado.

Você, como a mais velha, acabou carregando um peso que nunca deveria ter sido seu. Talvez eu nunca tenha te dito isso, mas eu vejo sua força e também as feridas que ajudei a causar.

Escrevo apenas para desejar, de coração, um feliz Natal. Que você esteja em paz, que a Angélica esteja bem, e que aquele italiano… bem, espero que esteja cuidando de vocês como eu não soube cuidar.

Não espero resposta. Só precisava que você soubesse que, mesmo falho, mesmo distante, existe aqui um pai que pensa em vocês e que lamenta profundamente tudo o que não conseguiu ser.

Daquele que espera um dia ser digno de ser pai de duas filhas maravilhosas.

Gumercindo.”

Ao chegar a última palavra, Rosana sentiu as lágrimas escorrerem por sua bochecha sem parar.
Rosana, que se passa? Dio santo Io. Me dispáchie por ter insistido tanto Io ao mon queria que guardasse mágoa dele ainda mais nel natale.”
— Pode parar! — Ela enxugou o rosto. - A carta não foi ruim, na verdade eu fiquei feliz em lê-la! Matteo a encarou confuso.
— Mas, então perché está chorando?
— Porque eu tenho medo de que no futuro nossos filhos sofram uma decepção…
— Ma Rosana, Io sono qui e non vou a lugar nenhum, além do mais perché está pensando nisso, noi due nem sabermos quando iríamos formar na nostra famiglia.
A jovem suspirou antes de revelar.
— Bom, eu não pensaria assim se fosse você. — Ela pousou as mãos na barriga fazendo Matteo entender a notícia.
— Madonna Mia! — Foi a vez de Matteo sentir as lágrimas escorrerem em suas bochechas. — Você está grávida?
Ela fez que sim com a cabeça, enquanto Matteo a gira a de cima a baixo pensando em como era sortudo. Pois o melhor presente que já havia ganhado havia se multiplicado em forma de uma criança!
Rosana bateu os pés de forma automática tentando controlar a ansiedade, até que não aguentou.
— Não vai falar?
Matteo fez uma feição de pensativo antes de levantá-la no ar e a beijava exclamando:
Questo e li meglio dia de la mia vita!
— Então, acho que nem vai querer o panetone que eu fiz…
Panetone?— Ele desviou a atenção da barriga da esposa que guardava seu futuro filho.
— Eu ia te contar, eu sei o quanto sente falta de casa e do seu pai, então sua mãe me deu a receita, só não sei se ficou bom..
— Ah ma vamo provare!
O italiano foi até o forno e pegou um pedaço, sua feição non entanto não era das melhores.
— Mas isso está horrível, me despache Rosana, ma é la veritad.
Ela riu.
— Se não fosse natal eu jogaria esse panetone na sua cabeça.
— Buon, ele deve servir meglio in questa forma.
— Como é? — ela colocou as mãos na cintura como forma de brincadeira antes de correr até o marido que a segurou de forma gentil.
— Se falar mal do meu panetone de novo vou pedir o dovirvio. — Provocou antes de abraçá-lo — E eu posso ou não ter encomendado um reserva naquela sua padaria italiana favorita. — Admitiu envergonhada, antes de ser consolada por seu italiano.
— Grazie a dio! — comemorou antes de receber um. Olhar repreendido da esposa — Non importa, perche tu pode non ser uns buona cozinheira ma se che será una ótima mama!
Rosana encarou o marido emocionada por alguns instantes antes de passar os dedos pela sua barba em um gesto de carinho.
— Feliz natal amore mio!
Buon natale amore mio! E buon natale per questo piccolo ragazzino ou ragazzina!
Ele se abaixou a fim de acariciar a barriga da amada. Rosana riu antes de puxá-lo para si e os dois voltaram para perto da família que logo estaria mais unida do que nunca!



FIM!!!



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Nota da autora: Sem nota. Bjs








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