Entre o começo e o fim



Última atualização: 16/01/2026.
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Fevereiro, 2028


O vento gelado tocava seu rosto, não como um dia normal de inverno, mas com a melancolia arrastada. apertou o tecido em volta do pescoço, tecido fino oferecendo uma proteção pífia contra a poeira que se infiltrava em tudo e razão de não saber o que havia no ar. Acima dele, os esqueletos dos arranha-céus rasgavam o céu cinzento como dedos retorcidos de um gigante morto. As fileiras de janelas quebradas, outrora espelho para o sol, eram agora apenas orifícios vazios.
Seus cabelos não eram mais os loiros de antes, agora estavam em um tom castanho escuro por conta da sujeira que predominava em seu corpo. Ele vivia em um bunker, um local seguro subterrâneo, no entanto, os banhos eram escassos.
Com uma mochila nas costas, caminhava por aquilo que, um dia, foi a avenida principal. O afasto, antes liso e polido, estava dilacerando em fendas profundas, onde a grama rala e teimosa começava a brotar, desafiando a desolação. Carcaças de veículos enferrujados jaziam espalhados, túmulos metálicos de uma era de velocidade e consumo. Agora, eram apenas mais um entulho esquecido para trás no desespero de fugir.
— Finalmente! – disse baixo ao avistar o lugar no qual queria chegar.
A guerra os pegou desprevenidos da noite para o dia. Todos os jornais falavam a respeito, o governo pedia para que a população fugisse para um local afastado das cidades, um lugar seguro. Todavia, nem todos conseguiram fugir. A maioria morreu tentando. e sua mãe optaram por ficar na floresta, onde tinham uma casa, era o local mais seguro.
O que restava do portão de ferro forjado do cemitério rangeu em protesto agudo e metálico, um som que parecia alto demais. Seus músculos tensos sob o pano gasto da camisa, doeram. Não havia mais cadeados, nem correntes, a guerra os havia levado.
Ao transpor o limite que separava o mundo exterior dos mortos, sentiu uma mudança no ar. Não era apenas a temperatura; era o próprio cheiro. Um aroma pesado e melancólico pairava ali, uma mistura sufocante de mofo e terra úmida.
Seus olhos foram tomados pelas lágrimas assim que se aproximou do túmulo da mãe, respirou fundo, tentando contê-las, mas era impossível. A dor se encontrava enclausurada em seu peito, como uma tatuagem. Engoliu seco e limpou as lágrimas que insistiam em cair.
Respirou fundo ao se agachar e levar uma das mãos, com luvas, até o túmulo.
— Prometo descobrir quem fez isso com você. – Sua voz saiu embolada.
Por muito tempo, a vida de foi marcada pela presença constante de sua mãe. Eles eram inseparáveis, convivendo apenas os dois, especialmente em uma época em que a cidade ainda mantinha seu vigor, cheia de gente e movimento. Esse ambiente repleto de energia fazia parte do cotidiano deles, mas eram aos finais de semana que encontrava o verdadeiro refúgio e felicidade: sempre visitava a mãe.
A residência situada próxima ao lago, dentro da floresta, era um local especial. Ali, longe do burburinho e das preocupações da cidade, ambos desfrutavam de momentos tranquilos. A paz do ambiente natural permitia que as inquietações urbanas se dissipassem, tornando aquele espaço um abrigo para o relacionamento entre mãe e filho, livre de interferência externas.
estava pronto para ir embora. Passou bons minutos conversando com a mãe, como se ela estivesse de fato a sua frente. Contou as novidades, como se houvesse algo importante para contar. No entanto, só não entrou em um assunto que a sua mãe nunca aprovaria, se estivesse viva.
De soslaio, o loiro notou uma sombra. Aquilo fez com que seu coração disparasse, passou a língua pelo lábio superior e iniciou movimentos rápidos para sair do local. Conforme andava, a sensação da presença atrás de si aumentava e seu coração batia mais forte, passou entre jazigos e antes de chegar ao portão, os pensamentos confusos sobre o que poderia ser, e querer saber o que era, se acumulavam em sua mente.
— Que caralho?
Considerou levar uma das mãos trêmulas até o cós da sua calça, onde guardava uma arma, no entanto hesitou. Franziu o cenho para o homem diante de si, que vestia terno, gravata e segurava uma pasta, parecia estar pronto para começar o expediente em um escritório. Seus cabelos grisalhos denunciavam a sua idade mais avançada e as marcas evidentes em seu rosto também.
— Quem é você? E por que está me seguindo?
Sua voz saiu tremida, e fitou o homem, que soltou uma risadinha.
— Sei quem você é e o que faz, Senhor do Tempo.
Aquelas últimas palavras entraram pelo ouvido de e ricochetearam dentro do seu cérebro, causando-lhe tontura momentânea. Ele prometeu para si mesmo que nunca mais faria esse tipo de coisa.
— Você não faz ideia de quem eu sou. – Sua voz saiu baixa, mas tentou mantê-la firme.
Deu as costas para aquele indivíduo, suas pernas tremeram e as mãos ficaram suadas. Soltou um suspiro entre os lábios, e foi para andar, no entanto a voz do outro ecoou de novo.
— Ah é? Não sei que você tem uma máquina do tempo e a usa para viajar, matar pessoas que são indicadas por outras e você é bem pago para isso?
O loiro fechou os olhos ao passo que seus punhos faziam o mesmo. Com a mandíbula travada, se virou, passando seus olhos pelo corpo do homem. Tentou decifrá-lo, mas era péssimo nisso.
— O que você quer? Eu não faço mais isso. Não depois...
Piscou algumas vezes, pois seus olhos arderam com a lembrança de ter visto o corpo da sua mãe amarrado em uma cadeira, coberta por sangue.
— Só... pensa a respeito.
Um papel, que parecia pesar toneladas, foi colocado no bolso de . Ele acompanhou aquele ato, em câmera lenta e engoliu seco. Olhou mais atentamente para aquele ser diante de si, os olhos azuis dele eram como os seus e por um instante um arrepio percorreu a sua espinha.
Acenou com a cabeça antes de virar-se para sair dali o mais rápido possível. Havia sido a maior troca de palavras que tivera com alguém em meses. Até mesmo as mulheres com quem ele faz sexo, não havia a necessidade de ter troca de palavras.

————

No cubículo que chamava de casa, com o chão sem azulejo e as paredes sem pintura, tirou a mochila das costas e a deixou em um canto qualquer. Passou as mãos pelos cabelos, os jogando pra trás e seus olhos percorreram um calendário que estava pendurado, com marcações em X com uma caneta vermelha conforme os dias passavam.
— 20 de fevereiro... – tocou a folha envelhecida.
Diminuiu a distância do seu corpo e da parede, em letras minúsculas, dizia: “dia do banho”, mordeu a parte interna da sua bochecha com o alívio tomando conta do seu corpo. Caminhou pelo local, onde era a sala, também era seu ‘quarto’, e uma pia, armários e fogão.
Conforme os minutos passavam, o papel parecia pesar toneladas em seu bolso. Colocou a mão sobre o tecido, enfiando os dedos no buraco e trazendo o bilhete pra si. Teve medo de abrir, com seu coração palpitando, o fez.
Um número. E com muitos zeros. Muitos. Engoliu seco, com o pensamento de que, se aceitasse poderia morar em um local um pouco melhor — não iria aceitar, — poderia comer comidas melhores, tomar mais banhos e ter uma vida mais digna. Amassou o papel entre os seus dedos, sem antes ver que havia um recado no fim.
“Me encontre amanhã às 17h perto do cemitério”
Suas mãos tremeram ao deixar que o papel caísse no chão. Havia feito uma promessa para a sua mãe, no leito da sua morte. Não existia a possibilidade de voltar a fazer o que antes ele não se orgulhava.
Amanhã seria um dia derradeiro. Ele colocaria um ponto final nisso e voltaria a sua vida pacata, sem graça e normal.



Continua...



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Nota da autora: Sem nota.








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