— Eu preciso que você diminua o som ou eu vou acabar enlouquecendo, Hoseok!
Hoseok bufou alto com as mãos batendo na lateral do corpo em um claro sinal de irritação. Era a terceira vez que Namjoon aparecia no corredor com a cara emburrada, pedindo que ele diminuísse o som.
— Meu Deus, Namjoon! Caramba, como eu vou ensaiar com o volume no mínimo, é impossível!
Foi a vez do mais novo respirar alto e travar o maxilar. Como se estivesse tentando se segurar para não dar uma resposta atravessada.
— Você precisa ensaiar sempre à noite? Seus ensaios de dia não são o suficiente?
— Não! Não são o suficiente, e esse apartamento também é meu.
Namjoon umedeceu os lábios com a ponta da língua. Incrédulo.
Hoseok tinha o poder de irritá-lo profundamente desde o dia número um. Eles dividiam o aluguel e as despesas do apartamento. O inquilino oficial era Kim Seokjin, que com o tempo acabou virando amigo de Namjoon.
Hoseok veio um mês depois de Namjoon se instalar e fazer o anúncio que procurava um roomate.
— Esse apartamento é nosso. — Corrigiu Namjoon.
— E por ser nosso, eu tenho direito de ensaiar aqui sempre que meus horários permitirem. Seja de dia ou seja de noite.
Aquele era o único aluguel que cabia em seu orçamento no momento como tradutor freelancer, e provavelmente era o único que cabia nos bolsos de Jung Hoseok, o coreógrafo independente que vivia de workshops.
A vida de nenhum dos dois era fácil, ambos lutavam para caramba para pagar os boletos e viver com o mínimo de dignidade possível.
Ser tradutor freelancer não era fácil, nem sempre Namjoon tinha trabalho e ser coreógrafo independente era tão difícil quanto, viver de workshops nem todo mês garantia um dinheiro.
Eles faziam o que podiam (e nem sempre podiam muito).
Namjoon saiu do corredor, finalmente adentrando a sala, sentindo as têmporas latejarem conforme o som pulsava em seus ouvidos.
Um prédio antigo, aluguel barato, paredes finas demais…
— Eu trabalho a noite, Hoseok. Quantas vezes a gente ainda vai discutir por causa disso?
Hoseok esticou o pescoço, sentindo o suor escorrer pelo mesmo. Ele levou as mãos até a toalha de rosto verde-limão que estava sobre o braço do sofá e a pegou. Levou em direção ao suor e o limpou.
— Enquanto você não entender que da mesma forma que você tem a sua rotina eu tenho a minha. Nós coexistimos dentro desse apartamento, infelizmente.
Os dois se encararam em silêncio. O peito de Hoseok subia e descia e os olhos de Namjoon acabaram acompanhando o ritmo, depois subiram para os lábios entreabertos do moreno.
Rapidamente Namjoon se recompôs e subiu os olhos de volta para encará-lo.
— Porque você não muda essa sua rotina? Para de trabalhar de madrugada e começa a trabalhar durante o dia. Isso ainda vai te fazer mal.
Namjoon abriu um sorrisinho de lado, os cantos da boca se repuxando de forma praticamente automática.
— E desde quando você se importa comigo?
Hoseok perdeu a compostura.
Os ombros ficaram tensos, os punhos cerraram, os olhos se arregalaram levemente. As narinas dilatadas conforme ele respirava.
Mas ele se recompôs na mesma hora.
— Eu não me importo. — Deu de ombros. — Pensei alto. Eu não tenho nada haver com a sua vida e com a sua rotina.
— Não tem mesmo. — Namjoon devolveu.
— E nem você com a minha. Me deixa ensaiar em paz, volta para as suas traduções!
Namjoon estreitou os olhos na direção do mais velho com a raiva latejando dentro do peito.
— Vou é dormir que amanhã é outro dia e graças a Deus você não vai estar aqui para me atormentar com esse som.
— Ah, me erra Kim! — Hoseok jogou a toalha na direção dele, que desviou com maestria.
Os olhos de ambos focaram na toalha no chão. Namjoon bufa e vira de costas, pronto para ir pro quarto tentar dormir. Ele ignora o sussurro de um “chato de galocha” vindo dos lábios carnudos de Hoseok.
Os olhos de Hoseok permanecem na toalha verde jogada ao chão. O incômodo dentro do peito dele latejava, era algo impossível de ignorar.
Mas será que era só o incômodo mesmo?
Hoseok se jogou no sofá, retirando o boné da cabeça e esfregando os olhos.
Silêncio. Nenhum barulho sequer era ouvido dentro do apartamento. Namjoon se desvencilhou do grande edredom que o cobria sobre a cama e então sentiu o gelado do chão atingir a planta dos pés quentes.
Se espreguiçou e depois olhou ao redor do próprio quarto, como se estranhasse aquele silêncio todo. Ao se levantar, abriu as cortinas como sempre fazia e olhou a vista da cidade que tinha ali de sua janela.
Era uma vista modesta, apenas o céu e os outros prédios ao redor do que eles moravam.
Provavelmente faria frio naquela manhã, já que o céu estava nublado e não havia sinal dos raios de sol, nem entre as nuvens. Namjoon sorriu sem mostrar os dentes, ele amava dias frios.
Depois saiu do quarto, arrastando os pés. Se Hoseok estivesse ali, ele certamente reclamaria do barulho dos pés de Namjoon arrastando-se lentamente pelo chão do corredor que levaria até o banheiro. “Levante os pés para andar, o que custa?” diria ele.
Um sorriso de canto brotou em seus lábios, ele conseguia ouvir direitinho a voz do roomate.
Fez o que tinha que ser feito e foi para a cozinha. Não sem antes olhar a toalha verde-limão perfeitamente dobrada em cima do braço do sofá…
Balançou a cabeça em negativa, deixando outro sorriso escapar.
— Olha só para esse apartamento… — Namjon girou em volta do próprio eixo. — Nada fora do lugar, tudo milimetricamente organizado. O Hoseok é patético.
Terminou de chegar na pequena cozinha do apartamento e olhou direto para pia: nenhum mísero prato amanhecido para lavar, e ele sabia que mesmo que Hoseok tivesse saído com pressa, a louça estaria lavada, seca e guardada dentro do armário.
Preparou seu café da manhã no mais absoluto silêncio. “Por que parece que está faltando alguma coisa?”
Olhou para a sala vazia e silenciosa, sem a presença de Hoseok. E então se lembrou da discussão de ontem. “Desde quando eu me acostumei com aquele barulho?”
Balançou a cabeça com veemência para espantar os pensamentos, ele odiava aquilo tudo, e o mais importante: odiava Hoseok.
“E se ele não aparecer por aqui hoje?”
Balançou a cabeça de novo e se concentrou em terminar de passar a geleia no pão torrado. Mas a lembrança da discussão e da música alta ecoando pelo apartamento ainda rondavam sua mente, por mais que ele tentasse fugir.
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— O que merda eu estou limpando? — Namjoon encarou a estante repleta de livros.
Aquela estante só tinha livros dele. E mesmo assim estava arrumada, os livros organizados por tamanho e grossura. Coisa de Hoseok.
— Porque diabos ele organizou todos os meus livros? — Namjoon ergueu uma sobrancelha. — Ele deu para mexer nas minhas coisas agora?
O coração dele começou a martelar pesadamente dentro do peito. Hoseok organizando as coisas dele? Porque?
— Ai Namjoon! — Ele revirou os olhos para si mesmo. — Isso é porque ele é um chato com mania de limpeza e organização, só isso. Ele só é maluco.
Ou maluco estaria ficando ele? Pensando que Hoseok estaria “preocupado” ou “sendo gentil”.
Hoseok nunca era gentil.
Não com ele.
Ele é gentil com os vizinhos do prédio, até ajuda a vizinha idosa do 304 com as compras, coisa que Namjoon já viu com os próprios olhos e custou a acreditar.
Uma vez, uma única vez, ele fez café para Namjoon quando ele virou a noite numa tradução enorme que já levava dias.
“Isso não conta. Conta?”
Teve outra vez que Hoseok apareceu no quarto de Namjoon perto do horário de dormir, perguntando se ele havia comido alguma coisa…
Ele costumava deixar a luz acesa quando Namjoon saia e voltava a noite. Quando Namjoon estava passando por um mês ruim financeiramente falando, ele fazia algumas compras sem cobrar o valor de Namjoon.
— Aish! — Ele esfregou os olhos. — Você tá bem dodói da cabeça né?
Falou para si mesmo.
— Essas coisas não fazem sentido, ele só, sei lá… — Esfregou os olhos outra vez. — Esse silêncio maldito está me fazendo pensar besteira! Ele provavelmente faria essas coisas por qualquer pessoa.
Namjoon passou as mãos pela lombada dos livros.
— Não tem nada haver! Tá viajando demais na maionese. Tá doidinho cara. — Ele falou outra vez para si mesmo.
“Desde quando eu reparo tanto nele?”
Namjoon puxa um livro da estante com força, ouvindo o barulho do mesmo caindo ao chão logo em seguida. O impacto é seco, nada delicado. Em seguida ele faz o mesmo com vários outros livros, deixando que eles caiam sob seus pés. O barulho dos mesmos caindo ao solo parece provocar alguma satisfação no tradutor que sorri de soslaio.
— Eu vou organizar isso aqui bem melhor que ele. Não sei para que ele foi mexer. Enxerido!
Silêncio.
Namjoon encarava a bagunça de livros em volta de seus pés. Alguns abertos, outros de cabeça para baixo, outros estavam um em cima do outro. Um caos.
A respiração dele, pesada e quente era o único som ouvido no apartamento agora.
Ele olha para a estante praticamente vazia agora. Um espaço oco, sem sentido, é a única coisa que ele vê depois de jogar os livros ao chão.
“Que infantil!”
Foi a única coisa que ele conseguiu pensar antes de se abaixar e começar a pegar os livros nos braços.
Pegou um, com força e até certa brutalidade.
Depois pegou outro e o fechou com força também.
Daí pegou mais um, desamassou a capa que havia amassado com a queda.
E assim ele foi, pegando um por um, fechando os que estavam abertos, limpando as capas com a própria mão. Reconhecendo cada um dos livros como parte importante de seu trabalho, que ele tanto amava. “Como eu sou besta.”
Olhou para a estante outra vez, assim que se levantou e então começou o trabalho de reorganização.
Escolheu o livro certo para cada espaço, alinhando os mesmos outra vez pelo tamanho. Tudo milimetricamente disposto pela estante. “Eu me lembro como estava organizado. Meu Deus, isso é perigoso.”
As mãos dele estavam na cintura, ele olhava para a estante agora arrumada de novo.
— Namjoon, Namjoon. Não seja ridículo! — Ele continuou encarando a estante, como se ela pudesse falar com ele de volta. Dar alguma luz, dizer para ele parar de pensar naquilo.
Até que ele ouviu a porta sendo aberta. Hoseok.
O boné virado, a regata marcando os músculos do corpo tonificado por anos de dança, a pele úmida pelo suor.
Namjoon congelou em frente à estante.
— Tá admirando esses livros de novo? Ou vai finalmente escolher um para ler. Inclusive eu os organizei, estava tudo desalinhado.
Silêncio outra vez.
Hoseok entra no apartamento e caminha na direção dele, percebendo a camiseta de Namjoon empoeirada. Os olhos dele voam direto para a estante.
— Você mexeu.
Aquilo não era uma pergunta, era uma constatação. Mesmo assim Namjoon respondeu:
— Não! Claro que não. — Mentiu. As orelhas ficando vermelhas.
Hoseok ajusta um dos livros milimetricamente, ajustando o mesmo para mais dentro ainda da estante.
— Eu me lembro exatamente de como deixei essa estante.
Os dois se encaram. Perto demais um do outro, os ombros tocam.
— Eu estava procurando um livro, por isso mexi.
Hoseok franze o cenho, mas prefere não dizer nada. E então ele se afasta, indo em direção ao corredor.
— Não trabalhou até tarde ontem. Vai trabalhar hoje? Você parece cansado, tá com uma carinha de destruído.
É claro. Não podia faltar algum comentário em tom de deboche e provocação.
— Hahaha! Nossa, como você é hilário, deveria trocar de profissão.
— Sabe que tenho considerado? — Ele gritou lá do quarto. — Tem sido difícil a vida de coreógrafo.
Namjoon dá de ombros,s e jogando no sofá e grita de volta:
— Mas é o que você ama.
Silêncio. Nenhum deles diz mais nada.
Hoseok para no corredor com a mão na maçaneta da porta do próprio quarto. Aquele comentário o pegando desprevenido.
Namjoon tinha total razão.
Mas Hoseok jamais admitiria aquilo em voz alta.
— E você? Ama o que faz?
A pergunta ecoou dentro do peito de Namjoon. Ele não responde, apenas fecha os olhos.
A porta do quarto de Hoseok fecha. O barulho vindo pelas paredes da sala.
Namjoon abre os olhos e sente.
“E você? Ama o que faz?”
Namjoon engole seco.
Talvez fosse isso que mais o irritava. Hoseok amava o que fazia. E Namjoon não sabia se ainda amava a profissão com a mesma intensidade. “Idiota!”
CONTINUA...
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